António Gouveia

Três notícias… políticas na Ordem do Dia

O Papa foi surpreendido pela Irmã Carmen Sammut, presidente da União Internacional das superioras gerais (UIsg), 1970 congregações religiosas, que lhe disse em protesto educado: “Papa Francisco, enviei-vos quatro cartas, e pegou nas cópias, abanando-as. “Nunca as recebi”, respondeu o Papa. “Já o suspeitava”, tornou ela, entregando-lhe a fotocópia da última que o Papa de pronto leu, dobrou em duas, depois em quatro e meteu no bolso onde bateu duas vezes com a mão como que a querer dizer que agora estava segura. Disse-lhe que responderia em breve. E aconteceu no dia seguinte, foi entregue na sede da UIsg (ao lado do vaticano) a resposta escrita pela mão do Papa. Percebe-se melhor a expressão “ser mais papista que o Papa”, na política, civil ou religiosa, pública ou privada, há censores e filtros de todo o tipo para impedir que a mensagem do cidadão comum chegue a quem de direito. Como se não bastassem os políticos autocratas e autistas para quem o cidadão não tem direitos nem voz, só o de comer e calar. Se esta mensagem não chegou ao Vaticano por que nos admiramos desta democracia que temos? Precisamos de a fortalecer com empenhamento e exigência. No caso escrevo sobre 670.320 religiosas em cinco continentes muito mais que os 466.215 mil diáconos, padres e bispos, contando só consagrados (as). Ao jornalista Carmen Sammut lamentou-se: “No Vaticano, nós as irmãs, não somos nunca consultadas, com exceção do Papa”. E, colocada perante uma certa a crise religiosa, afirmou: “A Igreja não consegue explicar Deus neste mundo pós-moderno apesar da generosidade dos jovens”. “Mas não vos compete explicar Deus?” –  tornou, perplexo, o jornalista: “Somos apenas escravas dos padres, a tarefa das homilias está cometida aos párocos, como conseguimos assim explicar o bem?” Um discurso feminista? De todo, apenas realista.

 

Por falar no Vaticano, a Itália viverá já amanhã (hoje, 3 março) um momento grave e de muita interrogação sobre o seu futuro. Não que ela nos surpreenda, em 73 anos teve, em média, um governo por ano e conhecemos o poder das suas máfias sobre a economia a razão de ter podido resistir sem governos durante largos meses. Mas esta de um grande empresário, também capitalista, tarado sexual condenado em tribunal, o líder da Liga Norte, poder ganhar as eleições coligado com a extrema direita fascista de Meloni, não augura nada de bom. A Itália tem sido invadida por centenas milhares de refugiados que vivem “à maçã do chão”, como se dizia quando eu era menino, sem nenhuma proteção, vivendo sabe Deus onde, a liberdade escolhida em troca da que não tinham nos seus países de fome, guerra e outras misérias.

 

Por cá, o PSD foi a eleições. Contra todas as expetativas, os militantes, entre escolher a astúcia e o charme de Santana Lopes, uma mistura italiana, do tipo “dolce far niente” e a objetividade e firmeza de Rui Rio, uma mistura alemã, por vezes a roçar a inflexibilidade (cautela, a política deve render-se à defesa do interesse público, a obstinação pode ser mau caminho), ganhou Rui Rio. Admiram-se alguns estar agora disponível para ajudar o país (e António Costa, por tabela) a levar por diante grandes reformas sempre adiadas, para já a dos fundos europeus tão mal geridos nos últimos anos (é urgente, seria bom que o interior começasse a ter melhor fatia); e a da descentralização, não só o interior, todo o país precisa, muito do poder acantonado em Lisboa deve descer aos municípios, o primeiro patamar e às estruturas de segundo patamar. Mas parte deste poder não deve ficar apenas nos municípios, sempre ciosos e com pouco respeito pela dignidade constitucional das freguesias, afinal o patamar mais baixo desse edifício democrático que é a democracia, o mesmo é dizer, o local onde, quase sempre, cai ou para onde é varrido o lixo, lato sensu, lixo social mais que ambiental, dos andares de cima e próprio, tantas as necessidades dos fregueses que os autarcas das juntas conhecem como ninguém dada a proximidade, mas sem capacidade e meios para fazer mais e melhor. Na democracia, disse Norberto Bobbio, “todos não podem decidir tudo”, sequer Lisboa. Por isso preciso é descentralizar. E já.

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