António Gouveia

Paulo Ferreira, o tufão que sopra bons e fortes ventos

O Paulito (assim tratado, nome carinhoso), filho de um dos meus maiores amigos de infância – o Manel Ferreira (ou Quinhas, outro nome carinhoso e pleno de sentido) que uma doença cruel privou do meu (nosso) convívio e amizade e anos depois mo (no-lo) levou -, foi eleito presidente de Oliveira de Frades.  Poderia chamar-lhe Paulito furacão, que é um vendaval, uma espécie de ciclone inclemente com origem no Atlântico Norte e cujas regiões costeiras costuma varrer em dias e noites de tempestade. Mas acho melhor chamar-lhe tufão, um outro vendaval que surge nos mares da China atingindo velocidades de mais de 360 km/hora. Por que faço esta opção e tomo para mim esta metáfora? Por dois motivos, duas comparações: a primeira, na tempestade que varreu o concelho de Oliveira, a violência dos votos em Paulo Ferreira foi tal que arrasou a armada invencível do PSD, sempre habituado a maiorias esmagadoras, > 70 % (algo escandalosas) vencendo por 394 votos, a mesma velocidade do tufão, impiedosa e inesperada.

Parafraseando o PR Marcelo, “não há sucessos eternos” e ainda bem! A segunda, porque, vulgar nos mares da China, segunda comparação, posso concluir que os eleitores meus conterrâneos votaram com rara sabedoria, chinesa e confucionista, uma das muitas frases de Confúcio diz que “a humildade é a única base sólida de todas as virtudes”. E, se bem conheço o Paulito (conheci bem o pai, também a mãe e os avós, a genética é a mesma) foi a humildade que venceu a arrogância no arrojo, força indómita e muita coragem de querer o melhor para a nossa terra, dar-lhe outro rumo, uma ousadia inesperada e pedrada certeira no meio de um charco pantanoso e fedorento, poder agitar águas inertes e podres, enxofrando-lhe oxigénio. Penso no apóstolo Paulo, numa advertência a Timóteo:  este tufão não foi nem mais nem menos que o início de um “bom combate” que levará por diante com dignidade, transparência e boa consciência, que desde há muito minguavam em Oliveira, tratando a todos por igual, ouvindo os seus problemas, resolvendo os que forem possíveis resolver (não os resolverá todos, é normal e impossível),  não sacrificando os interesses de uns aos privilégios de outros e sabendo preservar o verdadeiro sentido de estado (o concelho é um pequeno estado) que um autarca deve perseguir, ou seja, a comunidade política é superior aos indivíduos e às instituições que a compõem, por isso deverá agir sempre em seu nome e para seu bem, “distribuindo a bondade conforme a necessidade”, como disse Machiavelli, e seguindo também o bispo do Porto D. António Francisco e meu querido amigo, que nos deixaria dois dias depois, na mensagem aos autarcas em Fátima na peregrinação da diocese, mais de 30.000 pessoas (eu estava lá, era um deles): “só pela bondade aprenderemos a fazer do poder um serviço, e da autoridade, a proximidade … de maneira a dar alegria a todos, especialmente aos mais desfavorecidos e abandonados”. Sem esquecer as freguesias, acrescento eu, tão maltratadas e abandonadas têm sido, mesmo aquelas onde o medo impediu de apresentar listas como referiu (e bem) Mário Pereira na última Gazeta em escrito com rara sagacidade, coragem e oportunidade, também dupla premonição que recordo e sintetizo: por um lado, escreveu ele, “democracia é viver sem medo”; esta está cumprida, o tufão varreu-o, nada será como dantes, a democracia fez o seu caminho, “não há sucessos eternos”; por outro, a curiosidade do título “Crónicas do Olheirão”, o local, o bairro e o berço das origens do Paulito, nos meus tempos de menino olhado de soslaio.

Extremamente feliz com a sua eleição, desejo-lhe tudo de bom e que saiba rodear-se dos melhores (alguns, poucos, estavam do outro lado da barricada, deve recuperá-los, conhecemo-los, são pessoas de bem e de missão. E que tenhamos também um outro presidente de afetos e próximo das pessoas. Que saiba ouvir e aconselhar-se para poder decidir bem pois vai ter muito trabalho pela frente (ser político é isto, deve deixar o betão de lado, por uns tempos, terminar o que se iniciou, apenas), e ouvir o conselho de Marcelo: “ser capaz de olhar para o médio e longo prazo, ultrapassando o mero apelo dos ciclos eleitorais”, para fazer melhor. E, já agora, atento aos pormenores, não é só o centro da vila que deve merecer atenção, tal como nas freguesias há por lá lugares esconsos e vielas que há muito não são visitados pelos serviços municipais. Enfim, um longo caminho a percorrer, o concelho tem prosperado, é um facto, mas é ele que vai ter a batuta (lembro o seu avô) na mão com o poder de traçar os melhores caminhos e marcar o ritmo, um ritmo mais adequado e harmonioso, enfim, outra pauta, outra música, outro coreto. Todos os sucessos para ti, Paulito, o tufão de bons e fortes ventos.

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