António Gouveia
Salvador e Luzia, a canção inspiradora das nossas vidas
Celebraram-se no dia 13 de maio os cem anos das aparições em Fátima, ou visões, dizem alguns, e quem sou eu para o refutar? Um milagre, dizem outros, não vou entrar por aí, vou quedar-me por factos (outros milagres, ou visões, ou aparições, ou mesmo coincidências), todos aqueles que, como eu, não tiveram a oportunidade de a eles assistir ao vivo, mas que a comunicação social trouxe até nós. Nisto, os tempos são outros. E foram três esses factos, visões, coincidências ou sinais, enfim, milagres: a vitória do Benfica, conquistando, pela quarta vez (ou tetra como muito queriam os adeptos benfiquistas onde me incluo), com muita compostura e sem fundamentalismos espavoridos ou estúpidos, respeito e consideração desportiva pelos seus mais diretos adversários: o Porto, cidade onde vivo atualmente, o clube do coração do meu filho mais novo; e o Sporting, o clube do meu saudoso pai, razões para o meu respeito por clubes que fazem campeonatos e dão o seu melhor para estes momentos de glória, euforia e vitórias, repartidas ao longo dos anos entre si e sempre apetecidas. Depois, outra vitória, ainda mais importante porque toca o nosso espirito e sensibilidade, crentes e não crentes, a de um homem de grande humildade e simplicidade, piedade e caridade profundas, virtudes geradoras de uma fé e esperança inabaláveis por um Mundo melhor para todos, um Papa inspirador para todos nós na síntese deveras feliz do agnóstico e insuspeito (e nosso, de todos) PM, António Costa. Um Papa, homem de afetos multifacetados singular, essa forma tão genuína de amor, que é a noção dos outros, sobretudo os mais necessitados, fragilizados e desamparados da vida, a que nos vem habituando desde que eleito, como aquela a que nos vem habituando, o também nosso (de todos) PR, Marcelo Rebelo de Sousa. E o terceiro milagre – são muitos os milagres a cair em catadupa em Portugal – do Salvador (outra coincidência, este nome) e sua irmã Luzia, poderia chamar-se Lúcia (outra quase coincidência) nesta como que luz e luminosidade quase sobrenaturais – ao terem ganhado o prémio Eurovisão da canção para Portugal, o primeiro depois de muitos anos, logo neste mesmo dia 13 (outra coincidência, foi o milagre deste sol, outra luz, outra luminosidade) com uma música inebriante, suave e enternecedora, canção dita e bem sentida e um título adorável e inspirador “Amar pelos dois”, letra sublime, de amor e afeto, tão linda e simples, flor em primavera quanto a maneira de ser humilde, quase envergonhada de um jovem simpático e cheio de doçura e empatia que poderá tornar-se uma inspiração – mais outra, o homem vive de inspirações positivas – para todos nós portugueses, sobretudo para os jovens para quem a vida não tem sido fácil, quebrados que foram alguns dos degraus da escada de valores que eu pude subir, talvez com menos dificuldade em menino porque habituado a ter pouco e onde, nestes tempos céleres, urgentes e de muita incerteza, a fartura de coisas inúteis e um consumismo enganador todos tropeçamos, eles mais porque no princípio das suas vidas e sem a experiência da miséria e do sacrifício, outra inspiração.
Dito de outra forma: se o Mundo fosse sempre assim, se Portugal pudesse encontrar, perdendo (ou ganhando) algum tempo em recolhimento e meditação, na fé dos crentes que se reuniram com o Papa em Fátima, eles e todos os outros, crentes e não crentes, todos os que vitoriaram com muita alegria e emoção agradecendo o prémio das vitórias do Benfica e desta dupla de sucesso Salvador/Luzia, assumissem esta forma muito simples de ser e de estar na vida e no mundo, vida de combate e de sacrifício por um objetivo comum, assim, todos unidos, as nossas vidas e o Mundo em que vivemos seriam bem melhores. As dificuldades seriam ultrapassadas, as circunstâncias que nos rodeiam seriam influenciadas de froma muito positiva, sem rancor, sem inveja, despiques e combates estéreis, tudo seria mais fácil. Afinal, lá muito no fundo, no nosso subconsciente e cultura ancestral, nós portugueses, que no passado pudemos descobrir outros mundos do Mundo e tanto os influenciámos – nem sempre escolhidos os melhores caminhos, mas a vida é o que é, a História assim no-lo conta -, temos razões e podemos perceber toda esta felicidade momentânea. E perdoem-me (alguns) leitores esta mistura de factos e de ilusões, de sentimentos e emoções, elas fazem (sempre fizeram) parte das nossas vidas. Derrotas e vitórias, vitórias onde a alegria interior, o bem dos outros, aquilo a que chamamos paz de espírito ou amor, são o bem maior e o nosso conforto espiritual. E se os não crentes não vibraram com a visita do Papa e a enchente em Fátima no centenário das aparições, ao menos saibamos aprender e trautear a canção do Salvador e soletrar a letra feita poesia na música da Luzia, os nossos heróis, repetindo: “Meu bem, ouve as minhas preces/Peço que regresses, que me voltes a querer/Eu sei que não se ama sozinho/Talvez devagarinho possas voltar a aprender/”. Devemos aprender, temos andado um pouco distraídos nas nossas vidas sem a noção dos outros, os mais desfavorecidos, é este esquecimento que a canção, toda ela uma inspiração, nos convoca à realidade.
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