António Gouveia

Circunstâncias e a hoje já adulta (não amadurecida) “geração rasca”

O Jesuíta Abel Guerra, um portento da língua portuguesa, autor de um pequeno e curioso livro a que recorro amiúde e estudei quando adolescente – Elementos de Composição Literária -, escreve assim (Pág. 140), sobre as circunstâncias: “são, as principais, de pessoa, matéria, lugar, meios, motivos, modo e tempo; e costumam exprimir-se neste conhecido verso latino: – Quis, quid, ubi, quibus auxiliis, cur, quomodo, quando”. E, já que estamos no latim, é uma palavra dele derivada, composta pelos vocábulos romanos circum (à volta de) e standum (estando, do verbo stare), circunstância significa tudo o que está à nossa volta, nos rodeia ou com que (ou quem) temos de contar. Outro insigne escritor e filósofo espanhol, Ortega y Gasset, retumbando a tuba com fragor, soltou na escrita e a propósito, esta expressão de rara sabedoria e que não canso de me repetir para não falhar na minha vida pessoal: “Eu sou eu e a minha circunstância; e, se não a salvo a ela, não me salvo a mim”. Temos aqui e então que ela (esta ideia de circunstância), em amplificação (uma figura de estilo) sempre terá a ver com o nosso caráter e personalidade forjados nos seus traços e neurónios de pulsão genética, inatos, portanto; e na compulsão temperamental torcida desde menino como o pepino, nata, claro, ou seja, o nosso eu, por junto. A circunstância impõe-se-nos de forma natural não só na aptidão, mas também na capacidade que nos é dada para a salvar quando nos é adversa ou se nos aparece de fronte com laivos de artifício e cantos de sereia e nos tenta enganar e abalroar a consciência.

Vem tudo isto a propósito da resposta lapidar (filosófica sem sabedoria, um paradoxo e contraste, outras figuras de estilo) que ouvi há tempos a um ilustre cidadão muito conhecido, por badalado, quando o jornalista o questionou sobre a condenação a uma pena de cinco anos de prisão que o tribunal de Aveiro lhe aplicara: – “Sou vítima das minhas circunstâncias”. Pensei para mim que talvez por distração ou falha de aprendizagem em menino (acontece a muitos) este cidadão dividido e tripartido entre político, banqueiro e empresário (cargos que acumulou, abusou, confundiu e misturou sem tino nem tineta), não tivera o cuidado nem o bom senso de perceber que alguém só é vítima das circunstâncias por uma de três razões ou de todas elas juntas: i) – não ser eticamente bem formado; ii) – não avaliar bem o que (ou quem) o rodeia e a razão por que o quer tentar e corromper (no caso, tratava-se de uma “cunha”, ele era um facilitador de negócios sujos); iii) – não ter a coragem de escapar à insídia e aliciamento perverso, isto é, não estar determinado a salvar a sua circunstância, ao invés, salvar para si uns míseros 25 mil euros.

Nestas últimas semanas, uma outra circunstância nos tem rodeado a todos e que vem girando à nossa volta alentada pela comunicação social, afligindo-nos de forma estúpida e preocupante, a estória da entrega das declarações de rendimentos dos administradores da CGD ao TC, estória bem conhecida e já sem retorno, ponto final, parágrafo como disse, e bem, o PR Marcelo. Confesso-me: fui bancário longos anos de vida, sei como poucos ser o setor bancário extremamente sensível para andar na praça pública por más razões (conheço inúmeras, a banca é, de facto, amoral e, não raras vezes, imoral). Nela, dois valores são assaz fortes e cruciais: a confiança e o sigilo (bancário). Maltratados ou descurados, cavarão o descrédito e a ruína do banco atingido, assim me ensinaram mal entrei portas em Lisboa pela vez primeira. Por isso é para mim uma dor de alma e desalento intolerável e incôndito, ouvir, por razões de trica política e arremesso partidário, ser agredido o sentido de Estado por que os deputados da nação se deveriam pautar. Ao invés, nas CPI da AR – luta Portugal por sair da grave situação financeira em que se encontra, culpa do bloco central de interesses e corporações secretas que o alimentaram, continua o lavar de roupa suja da CGD em público sem perceber estes deputados que dão de si para o país triste conta e figura em comportamento a léguas do de outros deputados que não confundem razões políticas com razões de justiça, conflito político com lutas partidárias à mistura com ataques pessoais e gritos de “mentiroso” (no Parlamento britânico ninguém ousa pronunciar esta palavra). Olhando-lhes a cara no ecrã da TV, verifico que são homens e mulheres maduros e maduras, quarentões na força da vida, rápidos a esgrimir a espada da palavra, bons na oratória, eloquência e retórica (mais figuras de estilo pomposo), mas com nulo bom senso e, repito, nenhum sentido de Estado. Não sei porquê, lembrei-me daquela expressão de há anos – -, “geração rasca”, escrita no Público pelo jornalista Vicente Jorge Silva e que deu brado pela “insolência”. Mas concluo – é a ousadia, outra figura de estilo, “associação de ideias que parecem à primeira vista incompatíveis, tão oculta e subtil é a sua analogia” – constatando que, afinal, ele teve razão antes do tempo: aquela “geração rasca” de então medrou, cresceu nas jotas partidárias para produzir alguns dos deputados que hoje temos na AR. Uma vergonha, um nojo, devemos poder riscar-lhes os nomes nas listas das próximas legislativas, altere-se de imediato a lei eleitoral, a bem desta democracia que vai fenecendo.

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