António Eloy
A moral e a política - Honremos Gonçalo Ribeiro Telles*
“Antes de a engolir/ a água fresca da fonte/ murmurou nos meus dentes”
Matsuo Bashô
Gonçalo Ribeiro Telles foi um arquitecto paisagista e homem político, opositor ao Estado Novo, e participante em muitas lutas pela democracia. Foi um ecologista e homem de cultura e, a seguir ao 25 de Abril, sub-Secretário de Estado do Ambiente e responsável pelos 1º textos legislativos de protecção do ambiente (um maravilhoso decreto lei de protecção do sobreiro!)e depois enquanto ministro da Qualidade de Vida responsável pela maior parte da nossa legislação de ordenamento do território (REN e RAN, assim como, em parte, os PDMs) que têm sido por todos os poderes ignorada e desvirtuada, em favor de crescimento e de artificialização urbana e destruição de espaços rurais e da cultura a partir destes produzida (pelos P.I.N.s, nomeadamente). Para Gonçalo Ribeiro Telles a ruralidade que não é um simples chavão, mas uma opção política para recuperar a identidade humana e a terra com ela.
Defensor do municipalismo, como forma de organização cívica e respeito pela história e sua continuidade, contra a artificialização e centralização, opôs-se à às regiões administrativas, que ora regressam, propondo sim um sistema de agregação de municípios numa lógica comarcal, sem novas estruturas e burocracias.
Gonçalo Ribeiro Telles entendia a paisagem enquanto sistema vivo dinâmico, resultante da união intima entre ecologia e cultura e foi um empenhado defensor da biodiversidade e opositor da eucaliptação do país assim como um dos principais críticos de mega-projectos insensatos, ligados ao intensivismo agro-industrial como Alqueva ou Cova da Beira, propondo alternativas sustentáveis para o território. Hoje seria opositor do projecto Tejo Foi também um grande impulsionador de uma estrutura articulada de áreas protegidas, integradas num quadro global de políticas agro-pastoris-florestais.
Gonçalo Ribeiro Telles esteve connosco em Ferrel e acompanhou toda a luta contra a nuclear e por novas energias integradas e respeitando o ambiente.
Não chegam as palavras, nem estas são vazias, têm que ter poder.
Honrar Gonçalo Ribeiro Telles é dar vida e continuidade ao seu pensamento.
– esse o título de um documento colectivo, de Paulo Trancoso, José Carlos Marques, Manuela Raposo de Magalhães, Aurora Carapinha, Fernando Pessoa, Margarida Cancela de Abreu, João Reis Gomes e meu, sendo possível que seja subscrito por muitos outros. Algumas linhas aqui são desse tiradas. Constituímos uma Comissão para honrar a passagem do 100º aniversário do seu nascimento, contra a hipocrisia dominante que usa o seu nome para fazer o contrário da sua obra e do que dispunha com a sua acção. Talvez concretizemos alguma coisa.
Quero dar aqui também testemunho da enorme humanidade de Gonçalo que aqui também ficou registada. Tínhamos muitas divergências, desde logo duas que constituem capítulos de um livro meu #Planetas Vivos são Difíceis de Encontrar# , que ele prefaciou. Sou um europeísta radical e um defensor da legalização de todas as drogas. Pois não se incomodou nada e escreveu um documento magnífico, que me convidou para ler em sua casa. E algum tempo depois dividiríamos uma página do D.N. ele com um artigo contra a legalização do aborto eu a favor. Com civilidade e muita amizade, e compreensão. Sempre nos entendemos e como disse num artigo póstumo que lhe dediquei :” O teu pensamento querido “tio” e amigo Gonçalo vinha de traz, vinha do fundo do conhecimento da natureza e do tempo desta e do que o homem com eles faz. A memória são os momentos em que o pensamento se continua. Vamos continuar.”
Vamos continuar a resistir. E a Olhar o Futuro.
12/05/2022

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