António Eloy

A moral e a política

“Passa um cúmulo-nimbo

O Vento sopra

Poderá chover”

Haiku anónimo

 

“Se algo pode correr mal, vai correr (mesmo) mal”, essa a 1ª das conhecidas leis de Murphy.

Recordo que no gabinete do então comissário da Expo 98, Cardoso e Cunha, estarem as leis de Murphy emolduradas em grande evidência. Julgo que em 1993 (ou 94) fiz parte, com cerca de uma dezena de especialistas em ambiente, de uma comissão criada para dar orientações sobre a obra de desmantelamento das estruturas industriais e analisar os problemas ambientais dessas.

Tivemos duas ou três reuniões, de grande espessura, onde tudo era discutido e problematizado. Chegou-me aos ouvidos que estávamos a criar muitos problemas e o facto é que fomos todos dispersos, um para cada serviço (eu fui para a educação ambiental, outros para a comunicação, outros promovidos a directores de serviço, outros para o ministério e até houve quem fosse para as Bermudas).

Não se podia atrasar a obra com minudências ambientais. Os lixos não foram devidamente processados, os terrenos não foram devidamente descontaminados ou nem sequer, a obra sofreu entorses por necessidades de construir mais, mais, mais. E recordo que tinha assinado um contrato em como não diria nada, sobre o que viesse a saber. Já deve ter caducado.

Os resíduos industriais(metais pesados, escórias militares e de petróleos e outros) foram espalhados, por aí, e nem sempre cumprindo as condições requeridas e sem grandes controles ambientais. Ainda se encontram, por aqui, ali e acolá. Mas o pior, o pior mesmo, e eu que além de educação ambiental levava os visitantes a ver a desgraça ambiental que era aquele espaço tenho a perfeita consciência da enormidade do desastre que ali existia, o pior é que a descontaminação dos solos, que havia sido um tema central do grupo de trabalho acima mencionado, pois, foi escassa, ou mesmo nula. Avisei na altura do potencial poltergeist. Mas a Expo tinha que ser em 98.

Há alguns anos na zona da escola os cheiros vindos do solo anunciavam o inevitável, por mais betão que se coloque a natureza, como também diz uma das leis de Murphy, “se se mexe com ela o resultado vai ser uma falha, fatal”.

Depressa e bem não há quem diz o nosso povo.

Mas era, minha intenção, escrever sobre alterações climáticas e a hipocrisia dos políticos sem vergonha que temos, que dizem uma coisa e fazem outra, o nosso ministro foi a Glasgow perorar sobre o…. lítio, que não vai resolver nenhum problema ambiental (mais carros eléctricos para quê? Se não substituem os actuais sequer?) e anunciar num país, um país rural e esvaziado, mas com gente que lhe quer, nele vive e trabalha, pois foi anunciar esse país pejado de minas, minas, minas, a desertificar mais, a contaminar mais, a destruir mais, uma autêntica bazuca!.

Temos que dar uma volta a isto, temos que agir, a nível local, organizando resistências, fazendo e acontecendo contra a lógica totalitária do crescimento, do mais, do mais o quê? Intervindo e procurando alterar um sistema político anquilosado, sobre as autarquias tenho um livro em colaboração com Tomaz Albuquerque #O Clientelismo, doença infantil da democracia#, e sobre o sistema eleitoral nacional também temos muito escrito, do método de Hondt distorcido, aos muitos milhares de votos para nada, aos círculos imperfeitos à representação nula.

Temos um país vaziado, sem representação donde as minas e donde as plantações industriais e donde a destruição da continuidade, desse país que resiste. Nós. Continuamos.

António Eloy https://obseribericoenergia.pt/

16/12/2021


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