António Eloy

A moral e a política

“Que estrondo a indústria causa no mundo. A máquina é fonte de estardalhaço” – Flaubert

“A vida é um conto, cheio de sons e fúrias, não significando nada” Shakespeare

1 – Biden chorou lágrimas de crocodilo em Glasgow. Na véspera a Casa Branca (ele mesmo) tinha pedido (ordenado!) aos países produtores de petróleo para aumentar a produção desse. O nosso 1º não foi lá chorar, mas mandou o ministro, que é responsável por minas de lítio em todo o lado, agricultura intensiva a esmo e de mais 5, cinco, barragens no Tejo para regadio, além de total inexistência ambiental, mandou-o a Glasgow. De chorar.

E tudo já está, já foi, dito sobre o clima, a redução da biodiversidade, o imperativo de reduzir as emissões, todas, a exdruxulosidade do sistema mundial e a absoluta falta de autoridade das supostas entidades responsáveis por esse.

Montanhas de artigos, toneladas de livros, dezenas de horas de rádio e muitos, muitos programas de alienação televisiva (pois quê?), sem falar das indigentes redes sociais se entregarão a discorrer sobre a próxima cimeira do clima. Nestas últimas a coberto do anonimato inúmeros drolls (não seres), que a maioria dos comentários destas são criações algorítmicas sem existência real, continuarão a tentar espalhar mentiras, manipulações ou realidades virtuais, como aliás já o fazem há anos.

2 – As verdadeiras discussões ou não foram tidas, em Glasgow, ou são/ foram escamoteadas pela comunicação de massa, e mesmo a mais séria imprensa (escrita ou falada, que a vídeo é quase sempre lixo) se sujeita aos imperativos da publicidade ou dos publicistas, normalmente ligados a alguns sectores produtivos (sempre produtivos!) ou a segmentos políticos ou governamentais nas mãos desses.

Por exemplo fala-se da bazuca (que só pelo nome mostra toda uma cultura, ou incultura) e nunca, nunca se põe em causa a lógica que lhe subjaz, a do mais, mais produção, mais crescimento, mais consumo, mais energia (mesmo quando dizem querer diminuir as emissões, como se fosse possível ter Sol na eira e chuva no nabal), mais, mais, mais. Nunca, aliás nem sabem o que é a sobriedade energética, a agro-ecologia, a convivialidade, nunca se ouve falar de tal ou se usam essas palavras é para pervertê-las e enchê-las de lama, pois nunca se discute a produtividade, o que é?, a perversão do consumismo a ela aliada (mais um número?), pois tal não cabe

nas cabeças nem da esquerda nem da direita, mesmo que tenham um fundo, muito, muito ao fundo verde.

3 – Não se afigura possível a não ser paliar, limitar o drama em que a humanidade já está mergulhada, e comparado com esse drama os vírus, seja quais sejam, seja qual a sua origem, os vírus todos são um joguete de criança. Esta cimeira de Glasgow está a ser mais um momento de folclore mediático, em que interesses e contra-interesses se estão a degladiar, e no final ganham (quando este for publicado já ganhou) sempre os mesmos. O produtivismo desenfreado, a lógica do mais, mais, mais, mesmo e quando disfarçada para enganar os média sôfregos de regabofe.

António Eloy, https://obseribericoenergia.pt/

11/11/2021


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