António Eloy*

A moral e a política

“Só graças aos que não têm esperança é que podemos ainda tê-la”

Jean Paul Sartre

Mas no melhor pano caí a nódoa. Greta Thunberg a que se deve alguma da nova mediatização dos sérios problemas que enfrentamos, e que tem revelado capacidades e iniciativas notáveis, cometeu um grave erro ao aceitar ser primeira página de uma revista de moda, onde é certo, vestida com roupas de luxo que serão vendidas como bombons, referiu que não comprava senão o necessário e em 2ª mão. Pois, mas…. é o despilfarro estimulado por revistas e revistinhas que são das principais responsáveis pela degradação ambiental em áreas de produção intensiva e também não podemos esquecer por muito, muito trabalho escravo ou em condições que colidem com um mínimo de dignidade. E a água, pois não tarda nada teremos também no nosso país o solo a desaparecer sob insensatos regadios impulsionados por funcionários políticos no Terreiro de Paço que nem sabem o que é agro-ecologia, como já acontece em toda a zona de Alqueva a caminho de ser um inferno, de exaustão de solos, culturas exóticas e contaminação, também dos ares e águas subterrâneas.

Estive, ainda nos anos 80, mas já venho de antes, envolvido na colocação do clima na agenda, no quadro da preparação da Conferência do Rio 92.

Infelizmente parece que nada foi feito a não ser aumentar as emissões, aumentar os químicos e poluentes, aumentar a destruição dos territórios e destruição da harmonia das paisagens, aumentar a ignorância e manipulação. E também a culpabilização de quem não tem o poder. E não posso deixar de referir área onde podemos fazer algo, mas onde os resultados são catastróficos, seja nas percentagens ínfimas de matérias recuperados, seja no processo errático, muitos dos reciclados continuam a ir todos para aterro… e será que nos vão culpabilizar, também? O único R válido é o re-utilizar, mas continuamos enfiados nos plásticos e latas e latinhas e sem introduzir a recuperação e a tara nas embalagens.

Já é claro que não vamos a tempo de controlar as alterações climáticas. É claro que os nossos dirigentes com poder de facto, articulados quase sempre com os sectores financio-industriais, são incapazes de perceber que essas são resultado do crescimento económico que é sempre mais entropia no sistema no caminho do Armagedão, a que só chegaremos crescendo. E é claro que não vamos desistir, vamos continuar a apontar o dedo, a levantar a voz, a intervir, a sentarmo-nos e a tricotar. Não iremos desistir. E não esquecemos. Que fica registado.

*Coordenador do Observatório Ibérico Energia https://obseribericoenergia.pt

14/10/2021


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