António Eloy

Rui Cunha, um ecologista

O impacto da morte do Rui Cunha, nos que o conhecemos e amigámos foi tremendo. Infelizmente a sua repercussão mediática foi reduzida. O Rui, um excepcional fotógrafo de natureza e um empenhado militante da cidadania não pode passar, não passou, em silêncio sobre as nossas vidas. Um grupo de velhos amigos e a família decidimos organizar um texto aberto a subscrições públicas, e iremos organizar no dia 12 de Outubro, em local a designar em Lisboa pelas 18 horas uma sessão para o falar, ver e festejar. É possível que realizemos também uma sessão em Évora, posteriormente.

Aqui trago o texto inicial que foi na hora subscrito por várias dezenas de amigos, camaradas e militantes de primeira plana do ambiente português, dos quais não posso deixar de salientar três ex-secretários de Estado, vários ex-eleitos nacionais e autárquicos, dirigentes de instituto de conservação da natureza e alguns dos mais brilhantes e intervenientes activistas da opinião ambiental nacional, colegas e claro todos nós amigos.

O texto mencionado é o seguinte:

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“Não olhes para o meu túmulo e chores (…) eu não morri”, Mary E. Frye

 

Rui Cunha (1950-2023) quando fotografava a natureza ou as construções da humanidade nas paisagens, limpava-nos o olho e através das suas fotografias mostrava-nos o reflexo da vida.

Conhecer, enquadrar, reflectir, fazer-nos pensar é uma das funções das imagens fixas no espaço e num momento. Rui Cunha integrava-as magistralmente em significados e na realidade. O Rui era um militante da imagem e através desta se fez um activista da cidadania ambiental exemplar. Trabalhou para entidades públicas, privadas e para associações cívicas onde deixou registos, memórias, empenhos e amizades. Foi um estudioso do que fotografava e articulava em pensamento e posições cívicas que fazem ligações. Ligações que hoje sabemos as árvores estabelecem entre si e o Rui também partilhava essa seiva e amava o montado, o matorral e as florestas autóctones.

Num momento ou noutro todos nós nos cruzámos com o Rui Cunha, num lugar ou noutro partilhámos a sua energia e olhar. E não queremos, não podemos, deixar de assinalar a sua vida que foi como “a luz do Sol no cereal maduro”, e como se fora “mil ventos soprando” foi espalhando sementes de sustentabilidade.

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No blog que animo http://signos.blogspot.com/ serão dadas informações sobre a iniciativa mencionada assim como referenciados os subscritores do texto inicial assim como de outros posteriormente modificados, fazendo busca por Rui Cunha. Também no https://obseribericoenergia.pt/ será divulgada mais informação e a lista dos firmantes.

E aqui não posso deixar de trazer uma nota mais pessoal e íntima. Conheci o Rui ainda nos anos 70, já em coisas do ambiente, não nos entrosámos logo, ele era membro e depois dirigente da L.P.N. que aqui já mencionei, na altura dirigida pelo famigerado Saldanha, presidente também da comissão “Onde não se devem instalar centrais nucleares em Portugal”. Mas convergimos desde uma sessão memorável sobre o “matorral mediterrâneo” em Cáceres em que nos juntámos na alternativa ao discurso patronizado, ou quando nos degladiámos (e ele viria a dar-me razão!) pela eleição para o executivo do Secretariado Europeu do Ambiente, que eu defendia deveria ser por 2 anos, como hoje se verifica.

A amizade já começava a frutificar, e depois nos voltámos a juntar várias vezes, também me amiguei com a família, e com ele fiz três ou quatro livros, juntando as suas fotos aos meus textos e também dando nos contributos de parte a parte. Percorremos o país de lés a lés e muito discutíamos. O Rui era, vagamente, nacionalista, nacionalista histórico que não político, e claro como é sabido sou um descrente da nação e da sua mitologia, e do passado e a sua mentira. Mas comemos muita chanfana e peixe fresco, assámos muitos produtos ao lume da amizade. Tínhamos projectos para os Açores no futuro e não posso deixar de mencionar um filme “Portugal, Energias Sem Fim”, que ele realizou a partir de um cenário meu e com minhas contribuições a todos os níveis na produção. Divergimos na montagem e sobretudo na apologia total pelo Rui dos carros eléctricos, sobre os quais tenho muitas dúvidas. Estivemos à beira de uma difurcação, mas mantivemos os contactos e a amizade e hoje, sempre com notas pessoais mostro o filme por escolas e colectividades. Agora com uma lágrima na paisagem, a que o Rui deu momentos.

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