António Eloy

“Matem o Buda”

“Que maravilha, que mistério

Levo lenha para a fogueira

Tiro água do poço”

Peter Matthiessen

 

1-Hoje fazemos uma pausa para pensar no relativo e no absoluto que, ó paradoxo, é relativo também. Pausa.

As citações, o título e o haiku, são tiradas do “Leopardo das Neves” e o título é atribuído a um mestre do budismo Zen, e tem a ver com o despreendimento e a recusa de fixar o pensamento em absolutos improváveis, sejam eles Buda. Fez-me lembrar o dito de Maio de 68 “Cristo morreu, Marx morreu e eu próprio não me sinto lá muito bem”. Só “fanas” acreditam no inamovível, toda a realidade é movimento mesmo no tempo parado onde se move. As crenças, filosóficas, religiosas, políticas são todas relativas e os seus cultos mudam, como sabemos, com as realidades objectivas.

Venho-me deparando, vimos de facto, cada vez mais com cultores do absoluto, do pensamento único, da incapacidade de enfrentar o contraditório e de ver para além do que pensamos que vemos. Ao ler (ou ver) as notícias percebemos, quem as queira esgravatar que debaixo delas, de quase todas elas há outra coisa que não está escrita ou dita, ou que não querem que nós questionemos. Vivemos num mundo onde cegos conduzem cegos e o abismo abeira-se.

 

2- A verdade é mentira, a mentira é verdade, no livro 1984 de Orwell percebemos também o poder dos editores, censores do nosso tempo. A ideologia dominante, a hegemonia que se distribui por corpos e espíritos e não pode ser contradita, e quando tem mesmo que mudar, tal acarreta a refeitura do passado, quem controla o passado controla o futuro, como aqui tenho escrito, sobre a história, quase toda inventada ou deturpada ao serviço da hegemonia.

 

3- Quem parece desprezar o passado e ignorar o presente e afundar o futuro são os falcões, os falcões todos da guerra que continua, alimentada por todos os egos belicistas, alimentados pelo poder económico (recordem-se que não há guerra sem que os empórios económicos estejam por trás a esfregar as mãos!) e pela mais sinistra desinformação ou o poder da hegemonia, de um lado e do outro. Não há qualquer racional numa guerra entre crápulas (agora tem emergido a corrupção que domina a Ucrânia como aqui denunciei) onde o nacionalismo dos dois lados tem o discurso do ódio e do fanatismo sem fim na ponta dos canhões, que necessitam de homens e mulheres para se consumirem. E não esquecemos que nenhum, nenhum dos lados pode perder esta guerra e de um deles há um botão. Sou dos “antes vermelhos que mortos”, mas estive detido no “paraíso” vermelho (Berlin-Leste/Pankov) por defender também aí o desarmamento unilateral e a não violência política e fui muitas vezes arrastado e sovado em encontros onde se defendia a paz soviética! Do C.P.P.C.!

Hoje são defensores de mais armas, mais armas, e herdeiros dessas ideologias  soviético-sinistras, e também recordo que a grande maioria dos hoje ditos especialistas, comentadores tinham o estribilho ou a “revolução evita a guerra ou a guerra provoca a revolução”, do Mao Tsé Tung, na ponta da língua, agora só pensam no ganhócio e são todos neo-liberais defensores do capitalismo mais feroz, como aliás o era o capitalismo de estado China, que defendiam com unhas e dentes.

 

4-Nós continuamos a matar o Buda e a defender a não violência e a resistência civil e sob o olhar da Sabedoria retomamos o caminho para o vazio.

09/02/2023


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *