António Bica* – Cada noite a manhã

A história de Hassã Badredine

Continua a história da Jovem Esquartejada e início da história de Hassã Badredine

Chegara a hora de os monges cristãos cantarem laudes. Xerazade recomeçou para Xariar:

Ao ouvir que o culpado da tragédia fora o saltimbanco, o califa ordenou que o procurassem. O vizir mandou ao chefe dos guardas que fossem inspeccionados os mercados da cidade e os circos. Durante dois dias foram percorridos, mas sem sucesso. Ao terceiro dia, quando o vizir chegou a casa, a filha mais nova estava a comer uma maçã. Perguntou-lhe quem lha dera. Disse que, no espectáculo que os saltimbancos haviam feito nos jardins da casa,  dera a um dos acrobatas, pela sua habilidade, uma moeda e que ele, reconhecido, pedira licença para lhe oferecer aquela maçã, que aceitara por fora da época e muito perfumada.

O vizir mandou prender o saltimbanco e levou-o à presença do califa, a quem confirmou o que contara o jovem mercador e dissera a filha do vizir. O califa fez longo discurso contra as brincadeiras agressivas, que são cruéis e desumanas e, às vezes, como aquela, acabam em tragédia, e preparou-se para dar a sentença, que todos adivinhavam não ser senão a de morte. O vizir condoeu-se do jovem saltimbanco e do seu fim breve. Disse ao califa:

«Esta história é espantosa, mas mais espantosa é a de Hassã Badredine, que eu contarei se, com o acordo do jovem mercador que perdeu a mulher, castigares, mas não com pena de morte, o jovem saltimbanco.»

O mercador, que injustamente matara a mulher por causa da brincadeira do saltimbanco, deu o acordo:

« Nenhum crime merece a morte,/ que, no julgamento,/ só Deus é infalível./ Matei a mulher pela culpa dela/ e vejo que a não tinha./ A ninguém podemos tirar / o que, se tirado injustamente,/ não pudermos restituir.»

Então, com o acordo e permissão de califa, o vizir contou:

Grande califa, no fértil e luminoso país do Egipto governava um sultão que tinha vizir sábio e idoso com dois filhos perfeitos como o sol: Chansedine, o mais velho, e Nuredine, o mais novo. Chegado o tempo, a lei da vida levou o vizir. O sultão, depois das cerimónias fúnebres, chamou os filhos do falecido vizir e, dadas as boas qualidades de ambos, convidou-os a exercer as funções do pai alternadamente, cada um numa semana. Aceitaram e o Egipto continuou a ser sabiamente governado como no tempo do velho vizir.

Uma noite em que Chansedine e Nuredine jogavam xadrez, depois de terem jurado que casariam o primeiro filho de um com a primeira filha do outro, desentenderam-se por razões sem razão. Nuredine ficou, com a discussão, cheio de desgosto e decidiu correr mundo. Ainda a manhã vinha longe, mandou aparelhar a melhor cavalgadura, uma sólida mula de cinco anos cor de estorninho capaz de andar três dias e três noites sem descansar. Equipou-a com arreios decorados a prata e ouro, cobriu-a com dois tapetes da melhor seda da Pérsia, escondeu entre ambos um alforge cheio de moedas e partiu rumo ao norte e aos grandes rios da Babilónia e Bagdade. Três dias depois entrou em Jerusalém, passou mais tarde por Alepo, desceu ao longo do rio Eufrates e chegou a Bássera. Na estalagem para viajantes instalou-se para descansar e recomendou ao moço da portaria que passeasse a mula na cidade até enxugar o suor e depois a recolhesse.

O dia chegava ao fim. O sol mergulhava no horizonte. A leve brisa  do mar refrescava os apressados transeuntes. Os alfaiates, os sapateiros, os latoeiros, os doceiros, toda a multidão de artesãos arrumava pausadamente as lojas e fechava as portas, enquanto servia o último freguês, ou trocava duas palavras com passantes conhecidos. O vizir de Bássera chegara a casa vindo do palácio do governo e, enquanto descansava, observava pela janela a animação da rua. Vendo a ordem e a prosperidade da cidade, reflectiu nas palavras do poeta:

« Louvor ao que governa a cidade / atento à prosperidade de todos, / a que os ricos não tirem o pão dos pobres / para acrescentar a sua riqueza, / que a desordem e a injustiça / são os inimigos da cidade. / Com elas prosperam os violentos e os que roubam. / Então os pobres justamente/ clamam por mudança.»

Viu a mula de Nuredine ricamente arreada a ser passeada pelo porteiro da estalagem. Mandou chamá-lo e perguntou-lhe pelo dono, que, pelos arreios da mula, viu que seria governador ou vizir. Foi à estalagem dar-lhe as boas vindas. Nuredine disse quem era, donde vinha e do propósito de correr o mundo. O vizir não o deixou ficar na estalagem e levou-o para casa, onde o instalou e todos os dias conversavam. Agradaram ao vizir as qualidades do moço Nuredine, o saber e a prudência e disse:

« Só tenho uma filha. Se aceitares casar com ela, serás meu filho e proporei ao sultão que te nomeie vizir em meu lugar, que os anos pesam-me e não poderei ocupar o cargo por muito tempo».

Nuredine, que conhecera entretanto a filha do vizir e se agradara dela, respondeu: « Escuto e obedeço».

Foi  preparada grande festa de casamento, a que veio meia Bássera e Nuredine tornou-se genro do vizir.

*Advogado

15/07/2021


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