António Bica – Cada Noite a Manhã
A história de Hassã Badredine (continuação)
Os galos a desafiar-se na madrugada acordaram Xariar. Xerazade continuou a história que interrompera na noite anterior:
Deixemos Nuredine em Bássera nos braços da jovem filha do vizir com quem tinha acabado de casar e voltemos ao Cairo, no Egipto, onde Chansedine era vizir. Quando deu pela falta do irmão, mandou procurá-lo por todo o Egipto. Lamentou amargamente a discussão que haviam tido e a partida de Nuredine. Mas, como o tempo sempre cura a dor e o desgosto, com o passar dos dias tornou-se-lhe a separação suportável e decidiu casar-se.
À festa veio todo o mundo do Cairo. A multidão comia, bebia e alegrava-se num campo verde entre tamareiras, nas margens do rio Nilo. Ao som dos violinos, dos alaúdes e dos adufes, uma bela jovem andaluza cantava à moda e no falar moçárabe:
« Por trás das gelosias/ espio a minha amada, / porque sou velho / e não ouso falar-lhe. / Ela, que me pressente, / passa e repassa, / jogando com o amor.»
E ainda:
« O meu amado deixou-me / pelos braços de outra. / Choro e desespero-me. / Os meus olhos são / duas largas fontes. / O som do seu correr / é o meu único consolo. / Acabarão as minhas lágrimas, / mas, no meu peito, / a dor ficará.»
Por fim o jovem berbere que acompanhava a andaluza executou, com ambas as mãos, no tamborim azul turquesa de pele retesada, uma viva e apaixonante música rítmica que silenciou os convidados e, no fim, pôs as mulheres a manifestar-se com hábeis apupos de aplauso.
Aconteceu que o casamento de Chansedine coincidiu com o de Nuredine. As mulheres de ambos engravidaram e vieram a parir no mesmo dia. A Nuredine nasceu um rapaz, que se chamou Hassã Badredine. A Chansedine, uma rapariga, que teve nome Gazela no Deserto.
O vizir de Bássera decidiu, por essa altura, pedir escusa da função por estar velho. O sultão pediu-lhe conselho sobre a substituição. Recomendou Nuredine, que foi nomeado. O novo vizir desempenhou as funções com prudência e sabedoria, a contento do sultão e de toda a cidade e não descuidou a educação do filho, que cresceu em graça, beleza, conhecimentos e perfeição. Quando Hassã Badredine fez dezoito anos, Nuredine levou-o ao sultão, que ficou tão encantado com ele que não quis mais deixá-lo sair da sua companhia e prometeu nomeá-lo vizir quando Nuredine não pudesse exercer o cargo.
Algum tempo depois febre persistente começou a minar Nuredine, que veio a morrer dela. Hassã Badredine deixou o palácio do sultão para acompanhar o pai nos últimos dias da doença. Nuredine disse-lhe que estava a chegar ao fim da vida e entregou-lhe um papiro com toda a sua linhagem do Cairo, que ele não conhecia. Quando morreu, o filho fez o funeral e construiu o monumento funerário, no que gastou algumas semanas.
O sultão ficou impaciente com a ausência e tomou-se de ciúmes. Os intriguistas aproveitaram para o convencer de que Hassã Badredine estava a ser ingrato e certamente alimentava a esperança de o vir a substituir no poder. Nomeou então outro vizir e mandou confiscar os bens que dera a Hassã Badredine e prendê-lo.
Os guardas do palácio, a quem sempre tratara bem, ao aperceber-se da intriga, mandaram secretamente avisá-lo. Saiu disfarçado de casa e caminhou pelas ruas da cidade sem saber onde iria. Passou pelo cemitério, onde fora sepultado o pai, e dirigiu-se ao monumento funerário. Enquanto meditava na impermanência e na insegurança da vida, um mercador conhecido, que vinha de outra cidade a regressar a Bássera, aproximou-se, saudou-o e quis pagar-lhe três mil moedas que devia a Nuredine de mercadorias que lhe comprara. Hassã Badredine aceitou o pagamento, passou quitação e, depois de o mercador se despedir, decidiu passar a noite onde o pai fora sepultado.
A lua cheia não tardou a levantar-se. Quando dormia, um génio feminino viu-o e espantou-se com a sua beleza. Contemplava-o à luz macia da lua, quando chegou um génio masculino. Falaram sobre a beleza do jovem. O génio feminino era de opinião que ninguém sobre a Terra se lhe comparava . O génio masculino opinou que, no Cairo, Gazela no Deserto, a filha do vizir Chansedine, não lhe era inferior em beleza.
Contou que o sultão do Egipto, ao ver a beleza da jovem filha do vizir, pediu-a em casamento. Mas Chansedine escusou-se:
« Na noite que precedeu o dia em que o meu irmão Nuredine partiu, prometemos que o primeiro filho de um casaria com a primeira filha do outro. Tive notícia de que o meu irmão é vizir em Bássera e tem um filho. Mandei-lhe um mensageiro a lembrar o velho compromisso. Por isso não posso aceitar a honrosa proposta.»
O sultão não levou a bem a escusa e gritou-lhe: « Pois, se me recusas a tua filha, vais dá-la, por minha ordem, ao mais disforme dos meus criados, que é corcunda e horrível de aspecto.»
Acrescentou o génio: « Mandou logo celebrar o contrato de casamento e dar festa como se fosse consentido. Deixei a festa no início. A noiva chorava de desgosto e o criado era vaiado pelos companheiros: “Melhor é um burro pelado que este miserável corcunda.”»
Já a aurora afugentava a noite, quando Xerazade interrompeu o conto.
(continua)
29/07/2021

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