António Bica – AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (5)

História do terceiro Ancião e da Mula cor da Noite

Na noite que se seguiu o rei Xariar, que se deitara tarde por longa reunião com o vizir o ter retido, mostrou a Xerazade interesse em ouvir a história do último ancião.

Começou:

O terceiro ancião avançou e disse: Vou contar uma história tão maravilhosa como as anteriores. Esta mula cor da noite foi minha mulher. Um dia, éramos casados havia algum tempo, parti para longa viagem, ficando ausente um ano. Quando concluí os negócios e regressei, escontrei-a com outro homem. Quando me viu, fez um encantamento, transformou-me em cão e expulsou-me de casa com pancadas.

Errei pelas ruas da cidade. Cheio de fome, junto à loja de um carniceiro, comecei a roer ossos abandonados. O magarefe teve pena de mim e levou-me para casa. A filha, logo que me viu, disse: «É tão pouca a consideração por mim? Sem que esteja ao abrigo do véu, fazes entrar em casa um homem estranho?» O magarefe perguntou: «Porque dizes isso, se venho só?» Respondeu: « Esse cão é um homem.» Disse o pai: «Como é possivel?» «A mulher foi-lhe infiel e encantou-o para se livrar do castigo.» Pediu o carcineiro: «Por Deus, procura desencantá-lo.» A moça fez certos gestos e voltei à forma humana. Beijei a mão da rapariga e perguntei: «Como posso castigar a minha mulher?» Entregou-me um pouco de água e disse: «Procura-a e asperge-a com esta água e logo se transformará naquilo que quiseres.»

Entrei em casa e transformei-a nesta mula cor da noite, ó génio. Pensei então vingar-me, tirando-lhe a vida. Mas, como me ensinaram e costumo fazer, deixei que passassem três dias sobre os pensamentos arrebatados para não agir impensadamente e me arrepender. No primeiro dia decidi fazê-la sofrer, moendo-a com pancada. No segundo  o meu coração abrandou e decidi vendê-la para que trabalhasse com as outras mulas. Ao terceiro mesmo isso me pareceu excessivo, considerando que, se ninguém verdadeiramente conhece a si mesmo e se pode julgar, menos ainda poderá, com segura justiça, julgar os outros. Segui as palavras do poeta:

«Não escureça a ira a tua mente;/ lembra-te que pouco sabes/ do insondável espírito dos homens/ e também do teu;/ se te sentes certo,/ pensa três vezes/ que poderá ser ilusão,/ depois ainda outras três/ e, à sétima vez,/ que o teu espírito seja magnânimo.»

Deixei-a em minha casa sem outro castigo além da forma de mula que não lhe posso tirar. Desde há muitos anos, nos dias em que não trabalho, damos longos passeios pelo campo e por isso te encontrei. Se de mim dependesse, há muito a teria restituído à forma humana.

O génio, maravilhado com a história, disse: «Não posso recusar ao teu espírito compassivo o último terço do sangue do mercador.»

O mercador, que o génio queria matar, sentiu renascer a vida que tinha como perdida, agradeceu a todos terem contribuido para se salvar e ao génio ter honrado a palavra.

O génio comentou: «Uma boa história é como uma pérola no tesouro do conhecimento. Com cada uma o construimos. Não foi em vão que as ouvi.»

Xerazade continuou: «O génio achou admiráveis estas histórias, mas mais espantosa é a história do pescador.» O rei disse: «Não deixarás de a contar na próxima noite.»

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