António Bica
A criação das religiões pelos humanos responde à necessidade de se autoconhecerem, de compreender a natureza que integram e de agir sobre ela em benefício próprio e do colectivo a que pertencem

Tinha eu cerca de nove anos um velho emigrante vivia na nossa casa desde que pelo ano de 1925 tinha regressado do Brasil, o tio Alberto. Contava histórias de nos espantar: as andanças pela Amazónia, o Judeu Errante, o Amor de Perdição, as aventuras do João Sem Medo e muitas, muitas outras. Tinha humor e se tivesse bebido um bom copo de vinho e fumado o seu cigarro de tabaco de onça, além das infindáveis histórias que contava punha-nos questões de ficar de boca aberta. Uma ocasião disse-nos: Vejam quem primeiro responde à questão das cem pombas: Por um bando de pombas passou um gavião. Saudou-as: Adeus ó cem pombas. Responderam: Cem pombas não, mas nós, outras tantas como nós, a quinta parte de nós e mais uma, gavião, cem pombas serão. Quantas pombas tinha o bando? A quem mais depressa acertar conto a história que pedir. Cada um de nós, que já tinha aprendido na escola a resolver problemas por cálculo numérico, começou a calcular de cabeça o número das pombas do bando que tinham respondido ao gavião, usando o método científico mais antigo da humanidade, o de tentativa e erro. Mais tarde aprendi que os matemáticos haviam encontrado método mais fácil para fazer o cálculo, o algébrico por equação.
O tio Alberto, numa dessas ocasiões em que estava disposto a graças, perguntou-me: Ouve lá, o que está atrás do Céu? Respondi: Não sei. Replicou: Então não sabes que são trancas velhas? E riu-se com gosto.
Não lhe perguntei porquê, que sempre senti que observando e pensando algum dia haveria responder às interrogações que me punha. Questionei-me: Se atrás do Céu há trancas velhas, atrás delas alguma coisa terá que haver; e atrás dessa coisa outra ainda, sem fim. Entendi então que não podia haver limite para o Universo. Apesar de não conseguir compreender o infinito não podia entender que houvesse limite para o que existe. Desde então não consegui encontrar outra resposta senão admitindo que os humanos nunca entenderão completamente o Universo que integram, porque, sendo parte ínfima dele, não o conseguirão compreender, que compreender é abarcar, portanto de algum modo ser superior ao que se quer compreender. Sobre essa antiga questão a que os humanos sempre quiseram dar resposta continuo a discorrer.
O ser humano (homem e mulher) enquanto espécie não sobrevive senão em colectivo, isto é integrado em comunidade de humanos. Da sua estrutura genética resultam pulsões de defesa do indivíduo (sem indivíduos não há comunidade), que segundo critérios éticos se designam egoístas e objectivamente se podem dizer autodefensivos e de preservação do colectivo (e subcolectivos) que cada indivíduo integra, porque sem ele não sobrevive, e segundo conceitos éticos se qualificam altruístas ou solidários.
A complexa actividade que o homem individualmente e em colectivo sempre foi obrigado a desenvolver, procurando incessantemente alimentos, agindo para os obter, defendendo-se dos outros homens, dos animais e dos fenómenos naturais perigosos para ele, constitui a sua experiência e memória individual e colectiva. O homem é sobretudo um “laborator” em latim, lavrador em português, atuador com o seu corpo, em especial as mãos, e os instrumentos que sempre foi criando para o potenciar, sobre o meio em que vive para melhor o utilizar em seu proveito, ao serviço da vida de cada indivíduo e da espécie, humanizando esse meio, isto é moldando-o ao que considera ser sua necessidade; e também um comunicador com capacidade para transmitir principalmente aos outros humanos por muito variada gama de sons, gestos, sinais e outras expressões factos, conceitos, pensamentos e emoções.
Essa complexa actividade é possível porque os humanos constituem a espécie animal cujos indivíduos são mais capazes de raciocinar em abstracto, isto é capaz de interligar factos presentes e também de os relacionar com factos passados, chegando a conclusão ou hipótese que interesse ao indivíduo e ao colectivo, e de verificar a sua veracidade por experimentação; de interligar essas conclusões ou hipóteses com factos presentes e também passados, chegando a outras conclusões ou hipóteses; e de relacionar entre si as conclusões ou hipóteses assim formuladas chegando a outras conclusões ou hipóteses. Cada humano é também capaz de autoconsciência, isto é de busca do conhecimento da sua individualidade e da sua diferença em relação aos outros humanos e aos demais seres.
Esta capacidade sempre pulsionou cada ser humano a debruçar-se sobre si e o mundo que integra para o entender e a si e também para usar esse entendimento em benefício individual e do colectivo de que faz parte.
Porque os fenómenos que ocorrem no meio de que os seres humanos fazem parte interferem na suas vidas individuais e do colectivo que cada um integra, cada humano individualmente e em colectivo sempre procurou agir de modo a evitar que aconteçam se desfavoráveis, ou a suscitar o seu acontecimento se benéficos; afastar as suas consequências desfavoráveis e fazer surgir as favoráveis.
Quando agir sobre a natureza ultrapassa a capacidade humana, o que acontece na maior parte dos casos, embora cada vez menos em consequência do progresso tecnológico da humanidade, cada humano no tempo passado e ainda hoje em grande parte procura consegui-lo por práticas simbólicas, o que corresponde a atitude mágica. Essa atitude predominou nos colectivos humanos por muitas dezenas de milénios e ainda hoje frequentemente se manifesta.
Porque pela observação da generalidade dos acontecimentos os humanos verificam ser antecedidos e seguidos por outros, tenderam e ainda hoje tendem a admitir que acções intencionais suas podem fazer acontecer ou evitar factos para eles favoráveis ou desfavoráveis, como a chuva, terramotos, doenças, a morte, por eles designados boa e má sorte.
Desse modo os humanos, durante o muito longo período paleolítico estimável em mais de duas centenas de milhares de anos ou mais, sempre visaram dominar a natureza, procurando provocar factos considerados para si benéficos, ou afastá-los se nocivos.
A convicção dos humanos de que certos actos rituais levariam a que acontecessem determinados factos por eles pretendidos reforçava-se com os ciclos dos fenómenos naturais: chamando a chuva, surgiria decorrido tempo mais ou menos longo; se procurassem afastar doença, ela acabaria na maior parte dos casos por deixar o indivíduo ou o colectivo humano; se quisessem a morte do inimigo, ela aconteceria tarde ou cedo. Mesmo que o fenómeno desejado não ocorresse, ou não se evitasse o acontecimento de fenómeno indesejado, era e é possível atribuir isso a incorrecta prática do acto destinado a provocar ou a afastar o fenómeno, isto é a deficiente execução da prática simbólica, ou a insondáveis desígnios superiores não explicáveis.
Com o neolítico, que terá começado a ocorrer em algumas comunidades humanas há cerca de doze mil anos em relação à data actual, os povos agricultores e pastores continuaram as práticas simbólicas, porque se manteve a necessidade de procurar agir sobre a natureza de modo a fazer acontecer o favorável e afastar o nefasto: chamar a chuva, expulsar a doença, quebrar o ânimo dos inimigos, dissipar as tempestades e outros acontecimentos.
O conhecimento empírico dos fenómenos biológicos, astronómicos, climáticos e outros que condicionam a actividade dos colectivos humanos e a vida dos indivíduos levou, pela capacidade de raciocinar em abstracto, à progressiva figuração das realidades naturais e desses fenómenos atribuindo-lhes personalidade semelhante à humana. O sol, a chuva, o vento, a tempestade, a lua, os planetas, as constelações, os montes, os rios, as nascentes, as florestas, as grandes árvores, as pedras que se evidenciam na natureza, a noite, o céu, a terra, o fogo, os vulcões, o mar, as marés, os lagos, os seres humanos do seu colectivo falecidos passaram em regra a ser personalizados sob a designação de espíritos, deuses e demónios. Cada uma dessas personalizações passou a ser destinatária de preces, de ofertas sacrificiais e outras práticas rituais destinadas a torná-la benfazeja ou a aplacar a sua ira, atribuindo-lhe personalidade e estrutura psicológica correspondentes às dos humanos. Assim os espíritos, os deuses e os demónios foram sendo criados pelos humanos à sua imagem e semelhança, relação que foi invertida nas narrativas míticas de criação do universo, como no Génesis: «Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. (…) Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou”». (Génesis 1. 26, 27). A criação do universo foi atribuída aos deuses, assim a explicando os humanos.
Desse modo foram sendo criadas relações complexas entre estas personalizações e delas com os homens, frequentemente representando, sob forma de explicação do universo, memórias do colectivo. É o que se designa por mitos, explicações de carácter emocional, por isso de aceitação não racional. Adere-se emocionalmente a elas, acreditando-se serem verdadeiras sem se exigir a sua compreensão racional. É adesão por fé.
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