António Bica
Os Hebreus
Os hebreus eram semitas de organização tribal com religião politeista, que, segundo a Bíblia, emigraram do Vale do Tigre e do Eufrates para a Palestina e depois para o Egipto, na primeira metade do segundo milénio antes de Cristo. Embora o livro judaico designado Génesis faça recuar o monoteísmo ao início do povo tribal hebraico, há seguros indícios nesse livro de as tribos hebraicas terem sido politeístas até terem adotado o monoteísmo depois da sua emigração para o Egipto.
As religiões foram evoluindo, como toda a demais produção cultural humana, em função do aumento progressivo e constante da população integrante dos múltiplos grupos humanos autónomos juntamente com o desenvolvimento da produção de alimentos e de outros bens úteis.
Esse desenvolvimento foi levando progressivamente à afirmação da racionalidade no progresso cultural.
A linha evolutiva, embora lenta, conduziu à substituição do politeísmo pelo conceito de deus único criador e senhor de tudo o que existe.
Tanto quanto se conhece isso aconteceu pela primeira vez no reino do Egipto faraónico, há cerca de 3.350 anos.
Foi conceito religioso racionalizante criado na corte faraónica, tendo por base o entendimento de que, sendo a terra do Egipto reino unificado sob o domínio de um só senhor, o faraó, no céu, simetricamente, não podia deixar de haver um único deus criador de tudo o que existe, incluindo todos os homens.
O monoteísmo durou muito pouco tempo no Egipto de então, entre 20 e 30 anos, durante o reinado de Aquenaton, cerca de 1350 anos antes de Cristo, tendo sido substituído pelo velho politeísmo, logo que esse rei morreu, sem que quase ninguém tivesse defendido o monoteísmo, com exceção dos jovens criados na corte faraónica, como Moisés e poucos mais, incluindo o que na Bíblia é identificado como seu irmão Aarão (ver o livro bíblico Êxodo em 28-1), e os povos então imigrantes no Egipto, com relevo da população tribal hebraica.
Os hebreus, aceitando com agrado o princípio de deus único tudo ter sido por ele criado e portanto todos os homens, foram, na resistência contra o regresso do politeísmo, liderados por Moisés que foi criado na corte do faraó Aquenaton (ver Êxodo 5-1 e 2- 1 e 10), sendo por isso adepto da nova religião. O nome egípcio ” Moses” era comum no nobreza egípcia. Assim o povo tribal hebraico liderado pelo jovem nobre egípcio “Moses” da corte do faraó Aquenaton, lutou por defender a nova religião monoteísta. Foi vencido, tendo-se refugiado, com os hebreus que o seguiram, na região desértica do Sinai, com poucos oásis e por isso escassa de água e comida.
Os hebreus seguiram Moisés, porque se sentiram melhor protegidos pela nova religião monoteísta que lhes reconhecia dignidade semelhante à dos egípcios. Só havendo um deus criador de tudo com todos os homens, todos os homens têm igual dignidade por todos serem criaturas de deus único. Por isso lutaram em defesa da nova religião, tendo atribuído a Moisés sangue hebraico para poder ser reconhecido como seu chefe legítimo, dado que sendo os hebreus povo tribal, consideram-se de dignidade superior aos outros povos. Para isso efabularam a história do menino recém-nascido, Moisés, filho de jovem judia, que o lançou em cesto impermeável nas águas do rio Nilo. O menino foi recolhi pela filha do Faraó, que lavava roupa no rio e o levou para ser criado na corte.
Essa efabulação foi necessária, porque nas culturas tribais a igualdade em dignidade supõe a partilha do mesmo sangue. Desse valor cultural, que é o de todos os povos tribais, como também são os ciganos, resulta o fechamento aos valores culturais de todos os outros povos, à interdição de casamento com mulheres exteriores à tribo ou conjunto de tribos afins, à auto-designação pelos membros da tribo com nome que significa “homem ou gente” como fazem os ciganos que se auto-designam “rom”, que tem esse significado. É habitual os povos tribais designarem todos não pertencentes à tribo por nome genérico segregador, como fazem os judeus que os chamam “gentios”, a designação pejorativa dada pelos judeus a todos os que o não são.
Essa hebraização do sangue de Moisés foi indispensável para as tribos hebraicas o aceitarem como líder das tribos hebraicas.
Moisés com os hebreus que comandava foram derrotados no Egito e retiraram-se para o Sinai, a oriente, mantendo a nova religião, a monoteísta, sem abandonar o ancestral politeísmo hebraico, como consta do livro do Antigo Testamento CRÓNICAS 2, nomeadamente nos capítulos 2, 15, 17, 21, 24,,25,28,33 e 34. A eliminação do politeísmo ancestral hebraico só foi feita no século 5 antes de Cristo, após as elites económicas judaicas desterradas na Babilónia, depois da conquista pelo reino da Babilónia do reino de Judá, terem regressado do exílio na Babilónia, onde foram retidos durante cerca de 40 anos, que foi tempo insuficiente para terem esquecido a religião e a cultura judaicas.
O regresso da Babilónia foi colectivo, comandado por ESDRAS, que depois combateu drasticamente o ancestral politeísmo hebraico e promoveu a redação dos textos religiosos básicos do monoteísmo judaico, que são o seu canon, constituído fundamentalmente pela Tora.
Então já as elites económicas e religiosas das dez tribos hebraicas do norte da Palestina, que viviam na região da Samaria, as chamadas dez tribos perdidas, que haviam sido desterradas para a capital da Assíria, Ninive, cerca de 200 anos antes, tinham perdido aí a identidade cultural hebraica em consequência do longo desterro. Essas dez tribos do norte da Palestina haviam-se autonomizado, cerca do ano 1000 antes de Cristo, da tribo de Judá com capital em Jerusalém, depois da morte do rei Salomão. A tribo de Judá veio a anexar a pequena tribo de Benjamim.
A religião monoteísta, que foi criada no Egipto faraónico, é por isso conhecida por judaísmo. Dele nasceram os ramos, primeiro do Cristianismo e depois do Islamismo.
Destas duas religiões passou cada uma a entender só ela ser verdadeira, isto é que as normas religiosas que cada uma segue são as verdadeiras, entendendo, além disso, que os seus seguidores têm o dever de a impor a toda a gente, se necessário for pela força, incluindo com morte dos que a recusam.
O Cristianismo renunciou a essa via violenta entre o fim do século 17 e do século 18, mas o Islamismo continua a entender que tem o dever imposto por Deus converter ao ramo de monoteísmo que seguem toda a gente no mundo, pacificamente ou por força.
Por volta do ano 1.300 antes de Cristo os hebreus abandonaram o Egipto ou foram daí expulsos e conquistaram território na margem oriental do Mar Mediterrâneo para se instalar na então designada Terra de Canaã, hoje Palestina. Os hebreus estavam então organizados em 12 tribos, com fundação atribuída a 12 descendentes do hebreu Jacob, considerado filho de Isac e neto de Abraão.
Assim, como já vai referido, os hebreus saíram do Egipto pouco depois da reforma religiosa monoteísta do faraó Akenaton ter vigorado por cerca de 20 anos. Esta reforma foi apagada depois da morte desse faraó, tendo sido reposto no Egipto o antigo sistema politeísta, com perseguição dos seguidores do monoteísmo. É admissível e provável que os hebreus tenham aderido à reforma monoteísta de Akenaton, porque ela teria carácter humanista e pacifista por considerar todos os homens filhos do deus único, o que se deduz dos documentos arqueológicos diplomáticos da época encontrados há alguns anos, das características da sua arte plástica e dos seus textos religiosos. A Moisés, o chefe mítico que comandou os hebreus na saída do Egipto, é atribuída pela Bíblia educação na corte do faraó. Freud, no livro “Moisés e o Monoteísmo”, defende ser essa a origem do monoteísmo hebreu. Além da religião monoteísta os hebreus trouxeram do Egipto os fundamentos da sua cultura, nomeadamente os interditos alimentares (proibição de comer certos alimentos, incluindo a carne de porco) e a circuncisão.
As doze tribos hebraicas instaladas, depois da expulsão do Egipto, na Terra de Canaã, hoje designada por Palestina, unificaram, por volta do ano 1.000 antes de Cristo, o seu governo sob a autoridade de um rei, primeiro Saúl, a que sucedeu David e depois Salomão. A partir deste último rei, as tribos dividiram-se: As dez tribos do norte formaram um reino com capital na Samaria separado da tribo do sul, a de Judá, que manteve a capital em Jerusalém que a pequena tribo de Benjamim tinha deixado de existir na época dos Juizes.
No fim do século oitavo antes de Cristo, a Assíria, um reino do norte da Mesopotâmia, no território do actual Iraque, conquistou o reino das dez tribos hebraicas do norte com capital na Samaria e levou para a Assíria as suas classes dirigentes, que, com os anos, perderam a identidade hebraica. O povo miúdo hebraico continuou, como sempre acontece, agarrado à terra e aos rebanhos, já não a trabalhar para as classes dominantes hebraicas, que foram desterradas, mas para os novos senhores assírios. Esses agricultores e pastores hebraicos, privados das desterradas classes dirigentes, afastaram-se das normas e práticas religiosas do reino hebraico do sul, com capital em Jerusalém, passando a ser designados por samaritanos até ao tempo de Cristo, havendo referência a eles na parábola evangélica do Bom Samaritano.
Cerca de 200 anos depois de ter conquistado as 10 tribos hebraicas do norte, a Assíria caiu por revolta da Babilónia, que passou a dominar o território anteriormente conquistado pela Assíria e se expandiu para sul, conquistando o reino hebraico da tribo de Judá com a capital em Jerusalém, no ano 586 antes de Cristo, levando para a Babilónia as classes dominantes judaicas.
Cerca de 40 anos depois os Persas conquistaram largo império que se estendia da Índia ao Mediterrâneo Oriental, incluindo o reino da Babilónia. Seguiram os Persas política de unificação territorial com base no comércio e em tolerância cultural e religiosa. Em consequência, em 538 antes de Cristo, os persas autorizaram os judeus das classes dominantes, até aí desterrados na Babilónia, a regressar às terras de origem, na Judeia. O tempo decorrido de desterro na Assíria (40 anos) não fora suficiente para apagar nos desterrados das classes dominantes judaicas a sua cultura com a religião.Com o regresso reconstruíram, esses judeus, o templo de Jerusalém e organizaram os textos bíblicos que hoje constituem o fundamental da Bíblia.
A identidade das 10 tribos hebraicas do norte, que passaram a ser designadas pelas dez tribos perdidas desapareceu por ter durado quase duzentos anos o seu desterro na Assíria, onde se misturaram com a população local, perdendo a identidade cultural e religiosa.
A identidade da tribo de Judá, com capital em Jerusalém, manteve-se, porque a sua classe dominante esteve desterrada na Babilónia apenas cerca de 50 anos e pôde regressar ao território de origem e aí manter a identidade cultural e política.
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