António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (20) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)
As fortes chuvas acordaram, noite alta, Xariar. Xerazade continuou a história, pondo a falar o terceiro peregrino:
Senhora, não é menos admirável a minha história que a dos meus companheiros. Sou rei e filho de rei. O meu pai era Kassib e eu o único filho. Quando morreu, herdei o reino e governei com justiça, moderação e liberalidade. Como o país beirava o mar e tinha numerosas ilhas, mandei armar navios e parti para as visitar. Durante a viagem uma tempestade arrastou-nos para o mar largo, fora das rotas habituais. O gajeiro, depois de por muito tempo nada divisar, começou a enxergar vulto longínquo, ora branco, ora negro, e anunciou-o, gritando do alto da gávea. O capitão da armada empalideceu: «Estamos perdidos. Ninguém poderá escapar». Sem perder a presença de espírito e a agilidade de raciocínio, que, nas ocasiões de perigo, é o melhor seguro, disse-lhe: «Porque dizes isso?» Respondeu: «Pelo rumo dos ventos que nos desviaram, pelo que diz o gajeiro e pelos conhecimentos antigos, é certo que estamos a ser atraídos pela Ilha da Montanha Íman. Vamos ser por ela puxados, os pregos que seguram o tabuado e as cavilhas que prendem o cavername soltar-se-ão e tudo ficará desconjuntado. No cume da montanha, em cavalo de cobre, está um cavaleiro de metal, armado de lança e o peito coberto de chumbo, onde foram gravados sinais mágicos que ninguém conhece. Enquanto o cavaleiro não for derrubado, a Ilha da Montanha Íman não deixará de atrair e irremediavelmente perder os navios».
Convencemo-nos de que a nossa perda era inevitável e brevemente a morte chegaria. Os barcos foram correndo cada vez mais velozmente para a perdição. A montanha agigantou-se, aproximando-se. Os pregos começaram a saltar das tábuas e a precipitar-se para a ilha. A água invadiu os porões. A seguir as cavilhas voaram, todos os barcos se desfizeram e fomos precipitados no mar. Muitos logo morreram. Outros os ventos uivantes dispersaram-nos pelo largo mar e perderam-se. Quanto a mim, agarrei-me a uma tábua que foi sendo atraída para a Montanha por ter uma mancha de ferrugem. Quando cheguei a chão firme, agradeci a Deus a salvação, que, como disse o profeta, nem um cabelo cai sem a sua permissão. Fui o único que se salvou. Penosamente subi as arribas escarpadas e comecei a trepar a encosta íngreme. Com o esforço a fadiga prostrou-me. Deitei-me a descansar e adormeci.
Em sonho ouvi: «Filho de Kassib, a teus pés há um arco de cobre e três flexas de chumbo com inscrições mágicas. Com elas derrubarás o cavaleiro do cimo da montanha para que não continue a perder os marinheiros que correm o dorso do mar salgado. Quando o derrubares, enterrarás a teus pés o arco de cobre. Do mar surgirá um barco. Toma-o, mas não pronuncies o nome de Deus diante de quem nele vier. Serás levado para o Mar da Salvação e o teu país. Não te esqueças que não deves pronunciar o nome sagrado de Deus durante todo o tempo». Acordei e fiz tudo o que a voz no sonho me dissera. No barco estava um homem de cobre com uma placa de chumbo no peito e nela palavras incompreensíveis gravadas, e ninguém mais. Navegámos largos dias até que vi ao longe uma ilha. Invadiu-me o contentamento e, sem me lembrar do que me fora recomendado, exclamei: «Só Deus é grande». Mal pronunciei as palavras, o homem de cobre atirou-me ao mar e desapareceu no barco. Nadei todo o dia e toda a noite. O cansaço levou-me as forças. Depois a exaustão manietou-me os braços na luta contra a morte. Mentalmente repeti: «Só Deus é grande» e aceitei a morte iminente.
A chuva continuava na noite, mas pressentia-se a manhã. Xerazade interrompeu a narrativa para que Xariar pudesse ir à audiência do dia.
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