António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (19) - O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

Ainda o astro que aquece a terra se não adivinhava na noite, já Xerazade recomeçara para Xariar:
A princesa não se fez rogada. Com uma faca que tinha gravados sinais mágicos descreveu um círculo no salão do palácio. No meio, com um giz, desenhou sinais e palavras incompreensíveis. Sobre eles pronunciou palavras mágicas, lendo-as em livro antigo. As trevas encheram o salão e surgiu o génio que me encantara. A filha do rei disse-lhe: «Restitui este macaco à forma humana que é a sua». O génio encolerizou-se, tomou a forma de terrível leão e precipitou-se sobre a princesa. Ela arrancou um longo cabelo e transformou-o em afiado sabre com que, de um golpe, decepou a cabeça do leão, que logo se transformou em grande escorpião que correu para ela. A jovem transformou-se em serpente e ambos lutaram ferozmente. O escorpião, sentindo-se vencido, tomou a forma de abutre para vencer a serpente, que logo se tornou águia e a luta do chão passou aos ares. Estava a águia a dominar o abutre, mas este transformou-se em pantera. A águia tomou a forma de lobo e continuaram a lutar. Vendo-se vencida, a pantera transformou-se em romã que rolou do salão para o fundo do lago do palácio. O lobo transformou-se em golfinho para apanhar a romã, que, a fugir, deu grande salto para fora da água e caiu no chão, partindo-se e espalhando os grãos. O golfinho tornou-se galo e comeu um a um os grãos da romã. Mas o último grão saltou para a água e transformou-se em peixe. O galo tomou a forma de foca e mergulhou atrás do peixe. Depois de larga perseguição, quando estava quase a apanhar o peixe, saltou ele da água e tomou a forma de génio que com um punhal me espetou o olho que perdi. A foca transformou-se na princesa. Enquanto se perseguiam, a princesa exclamou: «Só Deus é grande e poderoso e pode dominar este génio malfazejo. Que te castigue pelo mal que tens feito». O génio ardeu em chamas abrasadoras e desapareceu. A princesa pediu uma taça de água do lago, aspergiu-me, pronunciou palavras mágicas e transformou-me de novo em homem, mas cego do olho que o génio me arrancara. Depois disse: «Difícil foi este combate entre um humano e um génio. A fé fez-me vencer, mas gastei a alma. Vou morrer». Sentou-se, perdeu as cores e deixou de respirar.
Sete dias durou o luto e, ao sétimo, o corpo foi depositado em sarcófago. O rei, com o desgosto da morte da filha, adoeceu. Quando melhorou, fez-me ir à sua presença e disse: «Deus trouxe-te ao meu reino e levou a minha filha, deixando-me sem herdeiros e no fim da vida. À minha morte seguir-se-á a guerra pela sucessão que devastará o país. De nada és culpado, mas a tua presença torna a lembrança desta tragédia insuportável. Sai do palácio e do reino». Saí receoso de que se vingasse, embora não tivesse culpa. Mas complexa é a mente humana e a racionalidade não é o que mais frequentemente a determina, embora devesse ser.
Antes de deixar a cidade, fui aos banhos públicos, cortei a barba, disfarcei-me de peregrino para maior segurança e segui, meditando sobre a impermanência da vida, a morte sempre iminente e lembrando as palavras do poeta:
«De males insuportáveis é cheia a vida/ e de canseiras que não têm fim./ Em cada manhã com o sol nos levantamos/ num quotidiano nascer de esperança./ E cada noite traz o sono,/ quando cansado o corpo repousa,/ como anúncio do sono final,/ na noite de que não se regressa./ De cote me interrogo: para quê viver?/ Mas sempre acontece me reanimar/ com o mágico ressurgir do sol,/ quotidianamente. Até quando?»
Andando longamente, viajei por muitos países e cheguei a esta grande cidade de Bagdade, luz do mundo, governada pelo califa Faro Alrachide. Encontrei o primeiro peregrino. Vimos aproximar-se o terceiro e, estrangeiros na grande cidade, decidimos juntar-nos para mutuamente nos ajudarmos e conforto da solidão. O destino trouxe-nos a este palácio, que é a vossa casa. O resto todos sabeis.
A jovem comentou: «Extraordinária é a tua história e digna de registo. Podes seguir o teu caminho». Respondeu: «Senhora, se me permitis, não deixarei a vossa companhia até ouvir o que o meu companheiro, o terceiro peregrino, tem para contar».
As estrelas já desmaiavam na noite intimidadas pelos os alvores do dia. Xariar deu sinais de se levantar e Xerazade deixou para a noite seguinte a história do terceiro peregrino.
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