António Bica
AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (15) O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação)

Corria a noite e Xerazade recomeçou:
Quando a jovem acabou de cantar, disse-lhe a irmã: «Que Deus te abençoe». A jovem estava de tal modo triste e cheia de aflição que rasgou o vestido e caiu desmaiada. O califa Faro Alrachide viu que tinha no corpo marcas de chicote e de golpes de vara. A irmã aspergiu-lhe a cara com água fria para acordar. Disse o califa ao vizir: «Viste os sinais de flagelação? Não posso deixar de intervir para descobrir estes estranhos acontecimentos». O vizir respondeu: «Senhor, devemos lembrar-nos de que, quando nos disseram “não fales do que não te diz respeito para não ouvires o que te não agradará”, nós aceitámos a condição». Quando a jovem desmaiada se levantou e recompôs, a irmã tomou o alaúde e de novo cantou:
«Não posso em silêncio sofrer a ausência/ de quem eu amo e para longe partiu/ que a insuportável dor levar-me-á à morte./ Dos meus olhos corre rio de lágrimas/ e não lava a mágua da ausência./ Com ele fugiu a luz destes olhos/ e o meu corpo nega-se a viver,/ porque não sei se de mim tem lembrança,/ se ainda tenho entrada no seu espírito,/ enquanto ele todo o meu ocupa./ Com desespero pergunto ao céu/ porque cruzou os nossos caminhos/ e logo depois os descruzou,/ mas o céu mantem-se mudo».
Ao terminar caiu de tristeza e dor. A irmã molhou o rosto dela com água fria, e, pouco a pouco, acordou. Pediu: «Peço que cantes outra canção». De novo tomou o alaúde e cantou sentidamente o desespero. Ao terminar voltou a desmaiar e rasgou o vestido. No corpo viram-se marcas de chicotadas e de golpes de vara.
Os peregrinos discretamente disseram entre si: «Melhor fora para nós ter passado a noite na rua». O califa ouviu e perguntou-lhes porquê. Responderam: «Porque nos desespera ver esta dor». Voltou o califa: «Não sois da casa?» Responderam: «Não, cremos que o é este moço». O moço de recados esclareceu: «É a primeira vez que aqui entro e muito me pesa o que acabo de ver. Falaram entre si discretamente: «Somos sete homens. Peçamos explicação do que se está a passar». Mas o vizir não concordou: «Lembrai-vos que somos hóspedes na casa, aceitámos condições e devemos respeitar a palavra dada». Àparte disse ao califa: «Amanhã mandarei buscar estas jovens e então se desvendará o mistério». O califa sugeriu que o moço de recados as interrogasse. Entretanto, estranhando o conciliábulo, uma perguntou: «De que falais?» O moço de recados respondeu: «Senhora, peço-vos, em nome de todos, que nos expliqueis a história das cadelas e das marcas de flagelações na vossa irmã». A jovem questionou com ar severo se a pergunta era feita em nome de todos, o que confirmaram, excepto o vizir que se manteve calado. Voltou a jovem: «Cometeis grande ofensa connosco. Pusemos condições, quando entrastes nesta casa, e aceitaste-las. Mas deveria antes censurar a minha irmã, que vos conduziu desde o portão.»
Bateu com o pé três vezes e disse alto: «Vinde depressa». Imediatamente entraram no salão sete seguranças de alfanges afiados. Ordenou-lhes: «Atai uns aos outros estes homens de língua comprida» Cumpriram a ordem e perguntaram: «Devemos cortar-lhes as cabeças?». Respondeu: «Antes que se lhas corte, cumpre saber quem são». O moço de recados, cheio de aflição, exclamou: «Por Deus, Senhora, não me façais matar, que nenhum crime cometi».
A manhã aproximava-se. Xerazade interrompeu a história e Xariar foi ao seu dever.
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