António Bica

AS MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (11)

História do Pescador (continuação)

Continuou Xerazade na noite que se seguiu:

Mandou o rei chamar o pescador e trazer-lhe quatro peixes iguais aos que anteriormente, por duas vezes, trouxera. Na cobiça de lhe ser dada tão boa recompensa como as anteriormente recebidas, correu ao lago, trouxe mais quatro peixes, cada um de sua cor, branca, vermelha, azul e amarela, e recebeu a costumada recompensa de quatrocentas  moedas de ouro. O rei ordenou ao vizir que os fritasse na sua presença. Postos os peixes  a frigir no azeite, abriu-se a parede e entrou um gigante com um ramo verde na mão que disse: «Peixes, mantereis a vossa promessa?». Os peixes ergueram a cabeça e responderam: «Sim, sim; se voltares, voltaremos; se mantiveres a promessa, mantê-la-emos; se recusares, far-te-emos cumprir.» O gigante, com o ramo, voltou a sertã no fogo, os peixes queimaram-se, e retirou-se pela abertura da parede por onde entrara, que se fechou.

O rei ficou perplexo e comentou: «Estes peixes hão-de ter uma estranha história». Mandou chamar o pescador e perguntou-lhe donde os trouxera. Explicou que de um lago onde se podia chegar subindo uma montanha. O rei mandou que os guardas acompanhassem o pescador ao lago. Quando se pôs a caminho e soube pelos guardas o que se passara, amaldiçoou no seu pensamento o génio. O rei acompanhava com o séquito, a alguma distância, o pescador e os guardas. Chegados ao lago o rei perguntou: «Como é possível que ninguém me tivesse informado da existência deste lago? Não voltarei a sentar-me no trono enquanto não conhecer toda a verdade sobre este lago e os seus prodigiosos peixes». Chamou o vizir, disse-lhe que ia reflectir sobre o mistério do lago, de que nunca se ouvira falar, e pediu-lhe que a ninguém revelasse o propósito nem deixasse entrar na tenda qualquer pessoa por mais longo tempo que permanecesse nela. O rei disfarçou-se, tomou uma espada e, sem que ninguém visse, saiu. Andou o resto do dia e a noite seguinte e ainda o outro dia e a noite que se seguiu por desertos, até que viu ao longe um grande volume escuro que lhe pareceu edifício. Pensou: «Talvez ali alguém possa saber do lago e dos seus peixes». Ao aproximar-se viu que era um palácio de pedra negra reforçado por grossas barras de ferro e que o portão tinha metade aberta e a outra fechada. Bateu devagarinho e segunda e terceira vez com mais força sem que ninguém respondesse. À quarta vez bateu com violência também sem resposta. Pensou: «O palácio está deserto». Entrou, chegou a longo corredor e bradou: «Sou estrangeiro viandande. Peço hospitalidade e mantimentos para prosseguir viagem». Repetiu debalde o brado segunda e terceira vez. Como continuou a não ter resposta, prosseguiu até ao interior do palácio que estava sumptuosamente revestido de tapeçarias. Num pátio interior quatro leões jorravam para um lago água abundante que brilhava ao sol. À volta aves voavam e cantavam impedidas de sair por fina rede no alto do edifício. O rei maravilhou-se, mas estava ansioso por encontrar resposta para o enigma do lago e dos peixes de muitas cores. Então ouviu um débil lamento e  estes versos cantados em surdina:

«Não se manteve o segredo,/ foi revelado o meu mal./ O sono tornou-se insónia,/ o pensamento não dá repouso».

Ouviu as queixas e dirigiu-se para donde pareciam vir. Deu com porta com reposteiro e entrou em grande sala. Aí estava um jovem sentado num leito. Era elegante e belo. Numa das faces tinha sinal como negro âmbar. Vendo-o, o rei disse: «A paz seja contigo». Retribuiu a saudação e disse: «Perdoa que não me levante». O rei inquiriu: «Esclarece-me sobre o lago dos peixes coloridos, este palácio e os teus lamentos». O jovem respondeu: «Como não havia de chorar?» Mostrou ao rei a parte inferior do corpo que era de branco mármore e comentou: «A história dos peixes é tão extraordinária que deve ser contada para que sirva de exemplo».

Xerazade, vendo que o dia despontava, disse:

Senhor, o dia anuncia-se e o dever chama-te. Amanhã, se consentires, direi da história do jovem enfeitiçado e dos peixes.

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