António Bica
As Mil e Uma Noites de muitos contos - A história do rei Sindebade (conto 8)

A história do rei Sindebade
Xerazade, sabendo do interesse de Xariar pela história do rei Sindebade que na noite anterior anunciara, aguardou que, noite alta, acordasse para a contar:
O rei Junão contou a história do rei Sindebade:
Havia um rei na Índia que tinha grande gosto por caçadas, passeios e divertimentos. Era impetuoso e irreflectido. Tinha um falcão que amestrara e trazia sempre consigo, a que dava de beber num copo de ouro. Um dia o monteiro-mor anunciou-lhe: «Senhor, está chegada a época de caça». O rei, contente, preparou-se e partiu com a comitiva e o falcão. Depois de dias de viagem até às coutadas reais, acampou num largo vale e mandou armar redes aos veados. Ainda os batedores vinham longe com os cães a ladrar e a bater tambores, uma gazela lançou-se nas redes. Disse o rei: «Não deixem fugir essa gazela; o que a deixar escapar seguramente morrerá». Aproximou-se das redes onde a gazela se debatia. Logo que chegou, a gazela ergueu-se sobre as patas traseiras e juntou as dianteiras como se quisesse saudá-lo. O rei viu pelo ubre da gazela que tinha filhos, comoveu-se com o gesto e deixou-a fugir. Os que o acompanhavam fizeram entre si sinais discretos como se dissessem: «Como vai o rei cumprir a palavra?» Sindebade lembrou-se do que insensatamente dissera e gritou: «Persigamos a gazela» Esporeou o cavalo e soltou o falcão, que logo voou e cegou a gazela. O rei matou-a, esfolou-a e dependurou a pele no arção da sela.
Fazia calor e não se via água por perto. Sindebade estava com sede e pensou que o falcão e o cavalo também estavam. De uma árvore próxima corria um líquido que pareceu ao rei bom para beber. Encheu o copo de ouro com o líquido que corria da árvore e deu de beber ao falcão. Mas ele entornou o copo. Sindebade encheu-o de novo e preparou-se para beber. O falcão entornou-o outra vez. O rei encheu terceira vez o copo e aproximou-o do cavalo para que bebesse. O falcão, antes que o cavalo bebesse, voou e voltou o copo com um golpe de asa. Sindebade encolerizou-se e, apesar de muito gostar do falcão, desabafou: «Que Deus te confunda, ave de mau agoiro». Cheio de cólera, de um golpe de espada cortou-lhe as asas. O falcão muito ferido, antes de morrer, apontou por sinais ao rei o cimo da árvore. Olhou o rei e viu que uma serpente escorria da boca o líquido peçonhento que no copo recolhera. Arrependeu-se amargamente de não reflectir antes de falar e agir e tomou a decisão de não ceder mais ao espírito arrebatado.
Tendo Junão acabado a história, comentou: «Não é bom sermos arrebatados.»
O vizir invejoso, depois de o rei falar, disse: «Senhor, o que te disse foi por respeito por ti e por cuidar dos teus interesses. Tal como contaste uma história, também eu contarei a do vizir que enganou o filho do rei».
Xerazade calou-se. Eram horas de o rei se levantar. Para a noite seguinte ficou a história anunciada.
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