António Bica
Mil e uma noites de muitos contos: História do Pescador
Na noite seguinte Xerazade deixou que o rei Xariar acordasse sobre a madrugada, antes do cantar dos galos. Quando o sentiu acordado, disse: «Senhor, queres ouvir a história do pescador?» O rei deu o acordo e Xerazade começou:
Um pescador pobre tinha três filhos. Costumava lançar as redes quatro vezes em cada dia. Um dia lançou-as à hora do meio-dia. Quando lhe pareceu ser tempo, puxou-as e não as conseguiu mover. Mergulhou para vêr o que as prendia e encontrou um burro morto. Foi tomado por grande desânimo e exclamou: «Só Deus é grande e sábio. Insondáveis são os seus caminhos. A ele se submete o meu coração e a minha inteligência.» Recitou os versos do poeta:
«Não agites a tua alma/ e não canses o teu corpo/ na ambição de teres,/ que só nas trevas te moverás./ Mantem vigilante o espírito,/ afasta dele a ansiedade,/ deixa correr o rio da vida;/ a fortuna não preza a agitação»
Depois de assim meditar, lançou de novo as redes. Quando lhe pareceu, puxou-as e não conseguiu tirá-las. Mergulhou a ver porque se não moviam e encontrou grande jarra cheia de areia e lodo. Lamentou a sorte e lembrou-se de novo do poeta:
«Ó acaso impiedoso,/ ao esforço e ao mérito/ não responde a recompensa./ Caprichosa é a fortuna,/ que, cega, semeia no vento louco,/ deixa os bons definhar/ e o governo do mundo/ entrega aos insensatos»
Botou fora a jarra, ofereceu a Deus o coração contrito do desespero e mais uma vez lançou as redes.
Deu tempo que o peixe entrasse e puxou-as, mas nem um peixe havia. Na amargura recitou outra vez o poeta:
«O vento da fortuna não sopra para mim./ Despreza a minha pena/ e ignora os meus versos./ Para não morrer de fome,/ deixaria de cantar, se pudesse».
Então, cheio de mágoa, exclamou ao céu: «Meu Deus, não lanço as redes mais de quatro vezes. Por três nada pesquei. Que sorte terei à quarta?» Lançou pela última vez as redes.
Teve dificuldade em puxá-las e pensou que seria sinal de ter apanhado peixe. Mas enganou-se. Do fundo do mar saiu um vaso. Convencido de que, como o anterior, vinha cheio de areia e lodo, pegou nele para o lançar fora, mas viu que era de cobre e estava selado com um sinossaimão. Abriu-o e de dentro nada saiu senão um ténue fumo que pouco a pouco se transformou num enorme génio que tapava o sol.
O pescador encheu-se de terror. O génio exclamou com voz trovejante: «Não há Deus senão Deus e Salomão é o seu profeta.» Dirigiu-se ao pescador: «Ó grande Salomão, profeta de Deus, não me mates, que nunca mais desobedecerei às tuas ordens.» O pescador ganhou ânimo e repreendeu-o: «Ó génio audacioso e rebelde, como ousaste desobedecer ao rei Salomão que há dois mil anos deixou o mundo? Para que possas achar graça diante de Deus submete-te e confessa por que foste aprisionado neste vaso.» O génio trovejou de novo: «Não há Deus senão Deus. Se não és Salomão, vais morrer nesta hora.» O pescador retorquiu: «Pelo que dizes mereces que o céu te confunda. Tirei-te do fundo dos mares, libertei-te da prisão do vaso selado e queres-me matar?» Disse o génio: «Não posso deixar de o fazer, mas permito que decidas a morte que preferes.» O pescador respondeu: «Não o farei senão depois de me contares a tua história.»
Contou:
«Sou um génio rebelde. Chamo-me Sacre. Revoltei-me contra Salomão que mandou contra mim o vizir Assef e me aprisionou. Impôs-me que me submetesse à sua religião e às suas ordens. Como recusei, encerrou-me neste vaso que selou e mandou lançar ao mar profundo. Passaram dois mil anos sem que ninguém me tirasse. O meu coração encheu-se de amargura que se somou à revolta que faz parte da minha natureza. Decidi: “Hei-de vingar-me. O primeiro que eu vir depois de sair da minha prisão matá-lo-ei.” Assim tenho que te matar, mas deixo que escolhas como hás-de morrer.» O pescador reflectiu: «Meu Deus, como é dura a fortuna. Aquele a quem liberto, como se lhe fizesse mal, de mim se quer vingar.» Implorou em vão ao génio que lhe poupasse a vida. De novo reflectiu: «Tentarei vencer a sua malícia com a ajuda de Deus e o meu engenho.» Disse: «Pelo Altíssimo conjuro-te a falar verdade.» O génio respondeu: «Diz, que responderei.» Atirou o pescador: «Não creio no que me contaste. Como é possível que, sendo tão grande, te pudesses fazer tão pequeno para caberes neste vaso?» O génio, ofendido, replicou: «Pões em dúvida o que digo?» Disse o pescador: «Não posso deixar de pôr sem ver com os meus olhos.» O génio transformou-se em ténue fumo e entrou no vaso de cobre. O pescador pegou no selo de chumbo com o sinossaimão e tapou a boca do vaso por onde o génio entrara.
Mal se viu aprisionado de novo, o génio lamentou-se e pediu que o libertasse. O pescador não se deixou comover e respondeu: «Livrei-me de ti, porque aprendi com a história do vizir do rei Junão e do médico Ruianes.» Implorou o génio de dentro do vaso: «Ao menos conta-me essa história com que tanto aprendeste para que, se alguém voltar a libertar-me, não aconteça que de novo queira pagar o bem com o mal.»
Já havia bom tempo que a audiência esperava pelo rei. Levantou-se e disse: «Isso será uma bela história que amanhã gostarei de ouvir.»
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