António Bica
ANGOLA – Episódios da guerra colonial – 3

Com este texto conclui-se o publicado com o mesmo título na GAZETA DA BEIRA em 27 de novembro e em 25 de outubro de 2018. Melhor título teria sido: O calvário do angolano ANTÓNIO CALEI, de 15 anos, às mãos do padre ALBERTO PINTO DA ROCHA , pároco na VILA NOVA DE SELES, em Angola, no Quanza Sul, a 300 kilómetros a sul de Luanda, pároco de que era criado e sacristão.
Foi verdadeiro calvário o sofrido pelo sacristão para vingar o furto de 200 escudos, que não seriam mais do que 12,50 escudos, ocorrido em 13 de dezembro de 1963.
Os atos sádicos que o sacristão sofreu às mãos do padre com a colaboração dos militares do pelotão da Companhia de Cavalaria nº 351 instalado nessa vila recordam os sofridos por Cristo, na semana santa, relatados nos Evangelhos.
Nem lhes faltou a participação da autoridade militar, que então, sob as ordens de Salazar, fazia a guerra em Angola, como há dois mil anos não faltou a dos militares ocupantes romanos da Palestina sob o comando de Pilatos.
Relembra-se que os factos são os que constam de carta precatória cópia vinda do 1º Tribunal Militar Territorial de Luanda, em Angola (tribunal deprecante), na década de 1960, dirigida ao Tribunal de S. Pedro do Sul (tribunal deprecado). A carta precatória foi enviada do referido tribunal de Luanda, onde correu processo penal contra um padre e militares, quase todos soldados e sargentos, que eram obrigados a participar na guerra. A carta destinava-se a esclarecer factos ocorridos no contexto da guerra colonial em Angola por pessoa que então vivia na área da comarca, mas não participara neles.
Os factos que seguem relatam a tentativa de fazer desaparecer o cadáver do sacristão Calei:
23 – Voltaram os mesmos a casa do administrador que, por eles posto ao corrente da recusa do médico, lhes disse que enterrassem clandestinamente o sacristão.
24 – Para dar execução a estas instruções, dirigiram-se os cinco ao quartel onde o sargento Lamy ordenou ao 1º cabo Correia dos Santos e aos soldados Mealha Cabrita e Rodrigues da Mota que fossem proceder ao enterramento do rapaz e, pretendendo depois aquele sargento comunicar com o padre sobre o assunto, verificou que o mesmo se havia ausentado sub-repticiamente do quartel.
25 – Seguidamente foi o cadáver embrulhado numa serapilheira e colocado num Land-Rover onde tomaram lugar, além do condutor, soldado nº 2118-61, as praças encarregadas da operação de enterramento e o próprio sargento Lamy. Por indicação deste, percorreu a viatura cerca de 15 km na estrada para Novo Redondo, tendo depois voltado à esquerda, seguindo cerca de 4 km pela picada que segue para o local denominado Cainja.
26 – Parada a viatura, na qual apenas ficou o respectivo condutor, os restantes militares internaram-se na mata, levando consigo o corpo do sacristão, que foi enterrado em local escolhido pelo sargento Lamy. Terminada a inumação, regressaram ao quartel, onde chegaram cerca das 02H00 do dia 15 de Dezembro.
27 – Na manhã do dia 17 de Dezembro de 1963 o sargento Lamy, informado por um sub-chefe da PSP que o padre dizia que os militares tinham causado a morte do sacristão, e na qual ele, segundo afirmava, tinha apenas uma pequena fração de responsabilidade moral, que a população da vila estava ao corrente do que se passara, e que algumas pessoas sabiam o local aproximado onde aquele estava enterrado, dirigiu-se a casa do clérigo e disse-lhe que havia pessoas na vila que estavam a par do sucedido.
28 – Na tarde desse mesmo dia 17 o padre foi ao encontro do sargento Lamy no quartel, dizendo-lhe que, em face do que se passava, o corpo devia ser desenterrado e levado para outro local. Concordou o sargento Lamy, mas impôs ao padre a obrigação de acompanhar os militares nessa nova diligência, pois entendia que tal atitude seria mais conforme com as graves responsabilidades que lhe cabiam na morte do sacristão e que ele agora procurava alijar sobre as praças que, sob sua influência, com ele tinham colaborado.
29 – Em cumprimento das ordens transmitidas pelo sargento Lamy, ainda nesse mesmo dia, depois das 23H00, saiu do quartel um Land-Rover onde seguiam, além do soldado condutor Francisco Armando Castro da Encarnação, o 1º cabo Correia dos Santos e os soldados Mealha Cabrita, Santos Gomes e Rodrigues da Mota.
30 – Seguidamente a viatura tomou a direcção da ponte existente à saída da vila, onde o padre os esperava. Aí subiu para o Land-Rover, vestiu um casaco camuflado para evitar ser reconhecido, seguindo depois na viatura para o local onde estava enterrado o sacristão.
31 – Próximo desse local estacionaram o Land-Rover, junto do qual ficou o soldado condutor Encarnação, seguindo os restantes militares com o padre um pouco mais longe, para o desempenho da missão que aí os levava.
32 – Atingido o local exacto na mata, começaram a escavar o solo, levantaram o corpo e levaram-no para a viatura, depois do que, por ordem do padre, retornaram à vila, e seguiram pela denominada Estrada da Jangada, que de Vila Nova de Seles conduz a Amboíva, sendo apoiados por um jeep de reforço, conduzido pelo soldado nº 2118-61. Ultrapassada esta localidade, tomaram uma picada e, depois de terem penetrado na mata, foi pelo padre ordenado ao condutor que parasse.
33 – Sob as instruções do padre o corpo do sacristão foi retirado do Land-Rover e, com excepção dos condutores, que permaneceram junto das respectivas viaturas, os restantes, transportando o cadáver, seguiram para um novo local de enterramento, escolhido pelo padre.
34 – Aí chegados, o soldado Mota tomou uma catana e cortou com ela as pernas do sacristão. Foram enterradas numa cova aberta para o efeito. Depois o mesmo soldado cortou um braço e a cabeça e, aberta segunda cova, enterraram o tronco e o braço esquerdo.
35 – O padre perguntou então se tinham já feito a autópsia, acrescentando que deviam enterrar a cabeça e o braço longe dali.
Em obediência a estas ordens regressaram todos para junto das viaturas, transportando o Mota consigo a cabeça e o braço decepados.
36 – O padre forneceu nova sugestão, dizendo que deveriam fazer passar uma das rodas de qualquer das viaturas sobre a cabeça do sacristão para o tornar irreconhecível. Os militares recusaram-se a tal, objectando que, se o fizessem, ficaria a estrada cheia de miolos.
37- Subiram então de novo para o Land-Rover, tendo o padre ordenado que fosse tomado o caminho de regresso ao quartel. Percorridos cerca de 2 kilómetros, ainda na picada, o padre mandou parar as duas viaturas, junto das quais permaneceram os condutores. Os restantes internaram-se na mata até junto de local que ao padre pareceu suficientemente escondido.
38 – Abriram a terceira cova e antes de nela enterraram os últimos despojos do que fora criado e sacristão do pároco de Vila Nova de Seles, ainda por insistência deste, que teimava ser conveniente desfigurar-se o rosto, o soldado Mota praticou sobre a cabeça alguns golpes de catana. Tinha findado o martírio de António Calei.
Os grandes culpados deste crime sem nome e de inumeráveis outros foram os cabeças do fascismo Américo Tomás, Salazar e os que sustentaram politicamente o seu regime autoritário e antidemocrático. Não foram os militares que os chefes políticos forçaram a fazer a guerra colonial, metendo-lhes na cabeça que os naturais das colónias eram inimigos a massacrar.
Os militares que os chefes do regime anti-democrático autoritário, durante quase meio século, doutrinaram para defender o regime e os interesses económicos que exploravam as colónias, ficticiamente designadas províncias de “Portugal uno e indivisível”, colaboraram demasiado tempo nessa guerra, que, como todas as guerras, conduz, além de a graves injustiças, a crimes como o aqui relatado. A este crime praticado por um padre e às ordens dele pode chamar-se “ calvário dum sacristão ás mãos do padre que servia”.
Atualmente os povos de Portugal e dos países que foram colónias portuguesas procuram manter e reforçar laços políticos, culturais e económicos, embora alguns fazedores de opinião, talvez saudosos de não estar a conduzir, em seu proveito, negócios nesses territórios, se declarem escandalizados por atos de corrupção num ou outro desses países, talvez para disfarçar os muitos e malcheirosos fumos de corrupção que em Portugal exalam homens dos grandes negócios, políticos de todos os níveis, até de esquerda, funcionários públicos, dirigentes de organizações de futebol e até magistrados.
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