António Bica
Angola – Episódio da Guerra Colonial (parte 2)

1 – No dia 13 de Dezembro de 1963 às 20 horas o padre secular Alberto Pinto da Rocha, pároco em Vila Nova de Seles, acompanhado do seu criado e sacristão António Calei, de 15 anos de idade, procurou, naquela vila, onde se achava aquartelado um pelotão da Companhia de Cavalaria nº 351, o furriel Elísio de Oliveira Rodrigues Moreira dos Reis, sargento de dia ao referido pelotão à data em que os factos relatados ocorreram, pedindo-lhe que lhe emprestasse uma viatura militar para ele e o criado se deslocarem a casa do sacristão, na Sanzala de Inconcon, por ele suspeitar que ali se achava escondido o produto de alguns furtos praticados na igreja paroquial e na residência do referido padre pelo referido criado, situada na província do Quanza Sul, a 55 km a leste de Súmebe, 225 km a oeste de Huambo e 300 km a sul de Luanda (distâncias em linha reta calculadas no Google Earth).
O pedido resultava de entre o pároco e aquela unidade militar existir, de acordo com directivas superiores, cooperação no âmbito psico-social e ainda porque aquele clérigo havia emprestado o seu automóvel ao comandante do pelotão, alferes Roque, ausente da vila, por motivo de licença.
2 – O furriel acedeu ao pedido, ordenando ao soldado condutor Francisco Armando Castro da Encarnação que transportasse o padre e o criado numa viatura militar estacionada nas proximidades do cinema, tendo seguido os três na viatura e ainda um cabo, de apelido Figueiredo, que pediu boleia até ao quartel.
3 – Chegados em frente ao aquartelamento, em plena via pública, o padre fez descer o sacristão e agrediu-o repetidamente com um chicote ao mesmo tempo que lhe perguntava onde tinha escondido o dinheiro roubado.
4 – Em face do escândalo originado por esta cena, o 1º cabo Manuel Correia dos Santos, vindo do Quartel, aproximou-se e aconselhou o padre a não agredir o rapaz naquele local, pelo que os três, seguidos de mais alguns militares, se dirigiram para a Secretaria do Quartel.
5 – Aqui entrados, prosseguiu o interrogatório ao sacristão que sempre negava o furto, o que originou novas ofensas corporais à chicotada por parte do padre, tendo também o soldado José Rodrigues Mota colaborado na agressão, aplicando bofetadas.
6 – Em face da recusa do rapaz em confessar o roubo que lhe era assacado, decidiu intervir também no interrogatório o 1º cabo Correia dos Santos, que também agrediu aquele à bofetada, o que levou o ofendido a pedir que lhe não batessem mais e a dizer que o dinheiro estava em sua casa, na sanzala de Inconcon. Para lá seguiram na já referida viatura, além do condutor, soldado Encarnação, o padre, o sacristão, o 1º cabo Correia dos Santos e os soldados Carlos dos Santos, Rodrigues Mota e Mealha Cabrita .
7 – Chegados à libata do sacristão, o padre voltou a chicoteá-lo, após o que procederam a buscas no seu interior, enquanto no exterior o soldado Mealha Cabrita segurava o sacristão António Calei. Feita a diligência apenas foram encontrados alguns guardanapos, pelo que o padre, irritado, reiniciou nova série de agressões a chicote e a pontapé, de que resultou o sacristão ter caído no chão, oportunidade que o sacerdote aproveitou para espezinhá-lo na região do ventre.
8 – Tentou o rapaz salvar-se da sanha dos seus agressores, fugindo, mas todos foram no seu encalço, tendo conseguido agarrá-lo o soldado Mota, reconduzindo-o ao local, onde novamente foi agredido pelo padre a chicote e a pontapé, pelo primeiro cabo Correia dos Santos e pelos soldados Carlos Santos e Rodrigues Mota à bofetada.
9 – Seguidamente, por sugestão do padre, todos se dirigiram para a viatura, estacionada com o seu condutor a cerca de 100 metros, a fim de se dirigir à residência paroquial.
10 – Após a chegada, o soldado Mealha Cabrita dirigiu-se ao quartel, tendo os restantes entrado para o quintal da residência paroquial. Aí, enquanto o chicoteava, insistiu o padre com o sacristão Calei para que dissesse onde estava o dinheiro escondido, tendo ele respondido que o mesmo estava sob a capota dum jipe, arrumado junto dum alpendre, onde efectivamente foi encontrado um velho porta-moedas com a importância de 12,50 escudos.
11 – Irritado com a insignificância do dinheiro encontrado, muito inferior aos 200 escudos que ele afirmou terem-lhe sido furtados pelo Calei, o padre recomeçou as agressões com chicote, nas quais cooperaram à bofetada o 1º cabo Correia dos Santos e o soldado Rodrigues Mota. Confrontado com a insignificância do dinheiro encontrado, muito inferior aos 200 escudos que ele afirmava terem-lhe sido furtados pelo sacristão Calei, o padre recomeçou as agressões as agressões com chicote, nas quais cooperaram o 1º cabo Correia dos Santos e o soldado Rodrigues Mota.
12 – O sacristão, por efeito de uma bofetada aplicada nesse momento pelo soldado Mota, desequilibrou-se e, quando caía no chão, foi atingido com um pontapé desferido pelo sacerdote, que o atingiu nos testículos. Quando o viu prostrado no solo, o padre saltou para cima da barriga do rapaz, pisando-o e dando-lhe pontapés nas ilhargas.
13 – Vendo a vítima desfalecida, o padre tomou-lhe o pulso, depois do que proferiu a expressão: “este já não tem coração”. Seguidamente transportou água num copo e lançou-a sobre o rosto do rapaz para o reanimar.
14 – Como ele continuasse sem dar acordo de si, tomou o padre uma faca corta-papeis e espetou-a até sangrar, primeiro numa perna e depois na garganta. Perante a ausência de reflexos do ofendido, declarou: “este já está arrumado”.
15 – Em seguida os militares, por sua ordem, colocaram o sacristão na caixa da viatura, dizendo-lhes o padre que o transportassem para o quartel, onde, afirmou, depois iria falar com o sargento Lamy, comandante interino do pelotão, na ausência do alferes Manuel Roque. Antes de se retirarem, todos beberam whisky ou cerveja oferecidos pelo pároco.
16 – Cerca da meia-noite os militares transportaram o corpo do sacristão para a dependência do quartel destinada a prisão e em seguida foram deitar-se.
Nota:
Esta 2ª parte de ANGOLA – Episódio da guerra colonial republica os factos constantes da primeira parte do correspondente texto publicado na página 115 da GAZETA DA BEIRA a partir do início da 3ª coluna. O erro foi devido ao autor.
Em próximas edições da Gazeta, continua a publicação do texto.
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