Luis Machado Luciano

Em Setúbal, em 7 de Março no longínquo ano de 1975

Era o início da noite e o início dum comício do PPD que se esperava inflamado por trazer a Setúbal figuras gradas dum partido em oposição clara ao que se passava no país e principalmente nesta cidade. Dois opositores mostravam a sua força na rua ea disputa soava por todo o lado.

No Clube Naval Setubalense as bancadas iam-se enchendo. Na mesa estariam sentados os grandes do PPD e os da terra também, tornando-se alvos bem visíveis para acções que se seguiram. Vigiava-se lá dentro e cá fora a mando de quem queria perturbar ou mesmo impedir que se realizasse o comício. Eram visíveis por todo o lado forças de segurança, mais inseguras que seguras, por falta de prática em conter multidões na jovem democracia.

O resto da cidade jantava, ia ouvindo vagamente a TV a preto e branco, ou aguardava informações para pensar ou reagir à confusão do País em convulsão

No Hospital de S. Bernardo cumpria-se a rotina do serviço de urgência do dia: Pouca gente, alguns pensos, ou dores de barriga para se chamar o cirurgião a decidir entre operar, medicar ou ir para casa. Era a rotina dum dia sem complicações.

De repente tudo muda: correrias, buzinões, ambulâncias berrando a abrir caminho para o Banco acanhado do Hospital que rapidamente se encheu de feridos por balas, com desmaios de gente perturbada, ou mesmo profissionais da perturbação e do desacato.

Foi o alerta máximo em cidade pacata com serviços de urgência sem meios para prestar socorro a tanta gente.

Acorreram médicos de toda a cidade e não médicos também, entrando em todo o lado, recolhendo informação com ou sem intenções de perturbar. Lembro-me bem dum dito estudante de medicina que se prontificou a ajudar e, dentro do bloco operatório, ia recolhendo informação, que transmitiu para fora deturpada com intenção política, o que provocou danos morais em muitos médicos e outra gente. Vi-o durante alguns anos na cidade, onde era referenciado como de organização extremista. Não o vi mais. Ele a mim a mim também.

 

Que se tinha passado?

Ao ser Impedido o comício de continuar a multidão desceu à rua, misturando-se: quem saía com quem não tinha podido entrar: Mistura.

Na noite escura todos corriam, muitos sem saber por quê ou para quê. Dirigiam-se para o Quartel da Policia, na Av Luísa Todi.

Foi dito que aí começou a agressão da multidão á polícia com arremesso de pedras, ou que a polícia avançou primeiro sobre a multidão, vendo-se cercada e que, pensando na possível invasão do posto que estava à sua guarda, disparou. Ouviram-se disparos. De quem para onde ou para quem a até hoje nada se apurou, mas as graves consequências foram um morto e vários feridos que deram entrada hospital.

 

Começou aqui a história dos feridos dentro do hospital

A equipa da urgência era escassa para tanta confusão. Os feridos entraram e foram e foram rapidamente transportados para o Bloco Operatório (B.O.), onde o cirurgião procurou perceber a gravidade ou emergência cirúrgica para decidir, ou avaliar posteriormente com recurso a exames auxiliares de diagnóstico indicativos de intervenção cirúrgica.

Dado o alarme vários médicos, não escalados para a urgência, acorreram ao hospital. Como em muitas ocasiões a quantidade não correspondeu a eficácia, mas a confusão. Neste ambiente apareceu um jovem, dizendo ser estudante de medicina e oferecendo-se para ajudar no Bloco Operatório. Foi aí que o vi no meio da grande confusão.

Tudo se foi resolvendo: despiste da gravidade das lesões, aplicando-se pensos iniciais, pequenas cirurgias possíveis para extracção de projécteis superficiais, ou estancando feridas sangrantes. Um jovem, atingido por bala, chegou cadáver ao hospital.

O jovem que se afirmara aluno de medicina, passou a informar do que se passou e não passou no Bloco Operatório. Com a ignorância de quem de medicina nem estudante era, informou com o dramatismo necessário para que se tornasse grande noticia: “Retiraram as balas, mas os Doutores tal e tal guardaram-nas para não serem identificadas, fugindo assim à averiguação da responsabilidade dos factos”… ” e houve balas não retiradas com perigo para a saúde de valentes operários, etc.”

Como cirurgião, colaborei nos primeiros actos terapêuticos e de diagnóstico de outras lesões. Ponderado ou diferido o tratamento, deliberou-se transferir alguns feridos para os serviços de cirurgia, procurando que, após exames auxiliares de diagnóstico, se tomasse decisão mais serena, por isso com maior probabilidade de acerta.

Como membro integrante da Comissão Instaladora nomeada para a gerência transitória do Hospital, dei instruções para que todos os projécteis retirados, fossem entregues e guardados no cofre da secretaria devendo, depois, ser entregues a quem se identificasse como entidade responsável pelo inquérito.

Os feridos, transferidos para as enfermarias foram aí avaliados para possível decisão cirúrgica da responsabilidade do cirurgião desse serviço. Foi assim que avaliei um ferimento por bala que atingiu a perna esquerda, causando fracturas múltiplas na tíbia e no perónio de um jovem de 15 anos e estilhaçados em consequência do embate dum projéctil retido nas partes moles e bem visível ao Rx. Este ferido era estudante na escola de hotelaria de Tróia. Já tinha o movimento da perna estabilizado por tala, o que tornava a dor suportável. Após cobertura antibiótica, umas horas depois foi planeada a melhor solução cirúrgica. Decidiu-se:

1-Não abordar a zona fracturada por ser constituída por fragmentos múltiplos, devendo o membro ser mantido em tracção contínua, montando a tracção ao calcâneo com o membro alinhado em plano inclinado, sendo o peso de tracção calculado consoante o do corpo. Por ser jovem teria calo fibroso em 2 semanas já suficiente para a manutenção do alinhamento ósseo, sendo previsível que ao fim dum mês teria calo ósseo consolidado.

2-O projéctil seria extraído ao fim de 4 dias, sob anestesia local, após cobertura antibiótica e sem contactar a zona fracturada.

Foi assim planeado e posteriormente executado

Os Hospitais então mal equipados sem camas articuladas, com material muitas vezes improvisado, o que nos impunha muita imaginação. só a experiencia de situações anteriores nos dava segurança. O plano inclinado necessário para a cama funcionar como contrapeso ao doente foi conseguido com tijolos elevando os pés da cama e a tracção ao calcâneo era feita montando uma roldana em tala de arame, suspendendo na extremidade um saco de areia com peso de tracção calculado de acordo com peso do doente. Conseguiu-se assim um plano inclinado necessário para mantermos o alinhamento perfeito da tíbia e perónio. Ao doente demos-lhe confiança, assegurando-lhe estar a ser bem tratado, tendo acreditado em nós.

Na rua o ruído continuava. Dizia-se: ” O médico que deveria estar de urgência geral estava na Mesa a presidir ao Comício onde toda esta tragédia se passou e foi substituído por outro” que, a critério da multidão, “não era competente para a responsabilidade exigida”. Tudo eram razões para agitar multidões e o bom e dedicado médico foi incomodado, meses seguidos, explorando contradições e questionando dúvidas infundadas. Carro pintado, dísticos em paredes, ameaças, etc.

No dia seguinte foi o funeral do infeliz jovem baleado. Foi transportado por uma multidão que parou à porta do Hospital com a palavra de ordem: ” Invadir o Hospital.”

Foi criado o pânico no quadro médico do hospital não habituado a ser insultado já que, em meios pequenos, o seu prestígio foi sempre reconhecido e respeitado; como elemento da Comissão Instaladora, dirigi-me à porta principal e consegui demovê-los da intenção, que a nada conduziria. Os ânimos pareceram serenar, mas, se não foi naquele dia, seria noutros?

 

Assim aconteceu

Queriam visitar os feridos a toda a hora e tiravam conclusões, rapidamente difundidas na rádio e jornais. A TV italiana esteve comigo junto do doente e filmava todo aquele novo método de cama elevada com tijolos e saco de areia como peso compensador, cama velha de ferro e mal pintada de branco. Delegados, ditos sindicais e comissão de trabalhadores acharam que os médicos não eram trabalhadores, mas paus mandados dessas comissões para obedecer ou dar explicações a perguntas tolas, não a favor do doente, mas a favor do ruido necessário e intenções populistas

No dia seguinte os jornais e panfletos foi dito que não se retirava a bala para o operário morrer de infecção. E também que o rapaz iria morrer, porque não havia ordens nem tempo para dar clisteres, pelo que ou morreria assim ou rebentava com as fezes (fui aprendendo estes novos conceitos de fisiopatologia).Os médicos, mais antigos, aconselharam-me a transferir o doente para Lisboa, o que sempre recusei por saber que no hospital de Setúbal, mesmo com aquela confusão, seria bem tratado. Aquele tipo de fractura, era assim que se devia tratar. Por todo o lado de ouvia “O POVO ESTÁ COM O MFA”.

Lembrei-me então de arranjar um MFA para a enfermaria. Desloquei-me ao ”Quartel do 11” contactando o oficial de dia que me recebeu muito atarefado no meio de telefonemas, em telefone ainda com manivela e campainhas de campânula. Só ouvia perguntar, com preocupação, se havia movimento de tropas em Vila Franca de Xira e outras dúvidas de cariz militar. Atendeu-me e pedi-lhe um MFA enfermeiro para cuidar do rapaz que corria o risco de ser agredido por mim ou outros “inimigos da classe operária”. Foi deste modo que resolvi o assunto da suspeição de haver maus tratos intencionais aquele agredido em 7 de Março.

O tempo passou, o rapaz manteve-se internado 45 dias Foi bem tratado, saiu a andar bem. Nada mais soube dele. Ao fim destes 38 anos, recordava-me vagamente do apelido, sem saber se era com “ç” ou “ss” que se escrevia.

Anos depois, em reunião da Sociedade Médica dos Hospitais da zona sul, no Hospital das Caldas da Rainha, um distinto médico que mais tarde seria Director de serviço de Medicina, naquele Hospital, recordou-me que eu não o estava a reconhecer, mas era ele o oficial de dia no Quartel do 11 em Setúbal quando lhe fui solicitar um enfermeiro do MFA para tratar o meu doente, já que a população julgava que em vez de o estar a tratar bem, como era meu dever, estava a agredi-lo na sua fragilidade de doente.

Hoje, médicos já reformados, vivemos de boas e más recordações. Estas, não foram nem boas nem más, são as possíveis de tempos perturbados, de que contudo, com um pouco de humor e sem rancor, nos recordamos com saudade.

Trinta e oito anos depois, com esforço de memória, recordei-me do nome do agredido pelo tiro e a seguir, “agredido por mim”, na perspectiva revolucionária da multidão. O nome que julgava ser Cassoete, era corrigido para Caçoete.

Não sendo apelido vulgar, de certeza alguém em Setúbal saberia localizá-lo. Por curiosidade foi também um polícia, (novamente a Policia), a identificá-lo, pois esse policia era seu sobrinho. Telefonei-lhe e tive a alegria de sabê-lo bem. Vive no Porto-Covo e logo me apareceu.

É casado, tem pequeno comércio, pratica atletismo, correndo todos os dias, tem 1m 83 de altura e as pernas são iguais, do mesmo tamanho, sem qualquer deformação visível, nem deformação das articulações proximais

Pedi-lhe para fazer Rx de ambos os membros inferiores com articulações que comprova que eu tinha razão.

Foi bem tratado, ficou muito bem e ficou meu amigo.

Contou-me o que viu e ouviu como doente:

Refere a minha determinação em tratá-lo e o envolvimento constante de pessoas com dúvidas sobre o que deveria ser feito e tudo isto num ambiente de grande tensão.

Era rapazinho novo. Já lá vão 38 anos. Aceitou sempre que a minha determinação e coragem eram sinal de saber fazer e fazer bem

O Enfermeiro MFA durante o tempo que ali esteve estabeleceu namorico com a enfermeira então de serviço, muito alegre e divertida. Chegou a desabafar: “ainda bem que levaste o tiro. Aqui é que eu estou bem”.

Sobre o Inquérito para investigação do que se passou naquela noite de 7 de Março de 1975 nada foi revelado e penso que as responsabilidades não foram atribuídas, a qualquer Instituição ou a qualquer individuo em particular.

Tenho receio que, ao divulgar estes factos, alguém mal-intencionado possa atribuir-me responsabilidades no ocorrido como intenção de inovar novo método ortopédico não autorizado, e para o Enfermeiro MFA namorar a Senhora enfermeira, que não identifico por razões de confidencialidade e respeito para com quem comigo trabalhou.

Assim aconteceu em Setúbal com um TIRO e um NAMORO passageiro no tempo do PREC e do MFA.

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