António Bica

MIL E UMA NOITES DE MUITOS CONTOS (2)

 

Xerazade quis salvar as mulheres do país

Quando Xariar, rei da Pérsia, chegou ao palácio, chamou a rainha, acusou-a do que fizera quando pensava que ele estava ausente e mandou cortar-lhe a cabeça. Mais tarde o rei viu

no palácio uma bela filha de nobre e pediu-a em casamento. No fim da noite que se seguiu às festas, depois de o rei ter dormido com ela, disse-lhe: «Se a rainha que mandei matar me foi infiel, como posso confiar que o não sejas?» A jovem mulher jurou uma e muitas vezes eterna fidelidade, mas o rei não se convenceu. Mandou chamar o carrasco e ordenou-lhe que ali, na sua frente, cortasse a cabeça à rainha.

Durante muitos anos, frequentemente, o rei se casou e mandou, no fim da noite seguinte ao casamento, cortar a cabeça da mulher. Os nobres e ricos do reino deixaram de levar ao palácio as filhas. Escondiam-nas em países distantes ou, muito novas ainda, casavam-nas para que Xariar as não cobiçasse. O rei passou a escolher mulher também entre as do povo comum.

O temor de ser escolhido para sogro do rei estendeu-se a todos os habitantes. Só a filha do vizir de Xariar, a jovem, bela, inteligente e culta Xerazade, o rei não ousara pedir em casamento para não desgostar o pai, que era o firme pilar do bom governo do reino.

Xariar mandou, mais uma vez, o vizir trazer-lhe uma jovem para se casar. Percorreu todo o reino e não encontrou mulher em idade de se casar com o rei, fossem ricos ou pobres os pais. Todas estavam casadas, ou haviam fugido para países distantes, que as casadas com o rei sempre haviam sido mortas.

O vizir, por compaixão pelo destino das mulheres do país, pediu conselho à filha, Xerazade. Disse-lhe ela: «Quero casar-me com o rei, se o meu pai  permitir». O vizir procurou demovê-la de tal propósito, fazendo-lhe ver que era caminhar voluntariamente para a morte. Respondeu: «Meu pai, o nascimento é o começo da jornada para a morte, que a todo o momento pode chegar, sendo ou não querida. E sempre sempre chega. Morre-se na infância, em plena juventude, na idade madura, ou na velhice. Sempre se morre. Porque hei-de querer fugir a destino certo? Porque hei-de temer conhecer o dia e a hora em que vou morrer? Parece-me isso a máxima liberdade e a maior coragem». Não se deixou desarmar o vizir: «Xerazade, belas são a tua coragem e a tua lucidez. Não foi em vão que te ofereci os grandes livros que no mundo foram escritos e que os leste e meditaste. É verdade que não há vida sem morte e que, se ninguém morresse, ninguém poderia nascer. Cada ser alimenta-se dos cadáveres de outros. A vida alimenta-se da morte e a morte da vida. Mas, estando vivos, porque havemos de buscar voluntariamente o que tanto repugna? Vivamos o tempo que a natureza nos destina e deixemos que ela decida do dia fatal». Xerazade respondeu: «Verdade é o que dizes, meu pai, quando nenhum fim nos move. Não posso deixar que continuem a ser sacrificadas as mulheres do meu país sem que me oponha». O vizir, cheio de angústia, replicou: «Vais morrer em vão, minha filha. O teu sacrifício de nada valerá». Xerazade manteve a determinação: «Sem se ousar atingir o que é justo, sempre sofreremos a injustiça. Sem luta, não podemos vencer. Porque  me há-de assustar a morte, se sempre hei-de morrer?»

O vizir, triste por saber que a filha caminhava voluntariamente para a morte, mas orgulhoso da sua inteligência e da sua coragem, foi anunciar ao rei que Xerazade seria a sua próxima mulher. Xariar ouviu as palavras do vizir e, percebendo a sua dor, repetiu para si as palavras do poeta:

«Esmagam-te o desespero e a dor./ Mas lembra-te que tudo se acaba:/ Toda a alegria se esvai,/ todo o desgosto se esquece.»

Veio o vizir dizer a Xerazade que o rei a aceitava como mulher. Comentou ela: «É tempo de libertar as mulheres do meu país. É preciso que isso se cumpra». O vizir recomendou: «Tem cuidado, não te aconteça como ao burro e ao boi do mercador». E começou a contar-lhe essa história.

O Burro e o Boi

Era uma vez um homem que vivia em país à beira de grande rio. Tinha um burro e um boi, além de outros animais, e largos campos. Um génio ensinara-o a entender a fala dos animais, recomendando-lhe que a ninguém revelasse o conhecimento senão morreria.

Um dia ouviu o boi dizer ao burro: «Invejo o teu descanso. Comes boa cevada e quase não trabalhas. Eu lavro todo o dia ou puxo o carro e só me dão palha». Respondeu-lhe o burro: «Ó pai da força e da paciência, dou-te um conselho. Quando vierem buscar-te para o trabalho, mantem-te deitado e não te levantes, mesmo que te batam, para que te não levem. E não comas para pensarem que estás doente e te melhorarem a ração». O boi agradeceu e assim decidiu fazer. No dia seguinte um trabalhador veio pelo boi para lavrar. Como se não levantava, levou o burro, que todo o dia puxou o arado.

No outro dia veio o carreiro. Como o boi continuava deitado e não se levantava nem comera a palha, deu-lhe cevada e levou o burro, que todo o dia esteve jungido ao carro. À noite o burro voltou cansado e com o pescoço dorido da canga. Quando chegou ao curral, o boi agradeceu-lhe o bom conselho que lhe havia dado e elogiou-o pela bondade e a inteligência.

O burro disse: «Ó boi, enquanto puxava o carro ouvi o nosso dono dizer para o carreiro: “O boi está doente. Antes que morra, chama o açougueiro e vende-o para o talho”. É melhor deixares de te recusar a trabalhar, para que te não vendam e morras». O boi agradeceu ao burro mais este conselho.

O homem, dono deles, estava por ali e ouviu o novo conselho do burro. Na manhã seguinte, quando o trabalhador veio buscar o boi para a lavra, logo ele se pôs de pé e caminhou cheio de vontade para ser aposto ao arado. O homem, que estava acompanhado da mulher, viu a boa disposição do boi para se deixar jungir e riu com vontade. A mulher perguntou-lhe: «De que te ris?» Respondeu ele: «Não te posso dizer, que, se to disser, seguramente morrerei». Ela insistiu durante muitos dias para que lhe contasse e, quanto mais se recusava, mais ela insistia, dizendo-lhe: «Se me não dizes é porque te riste de mim».

Pensou ele que não se livraria mais da impertinência da mulher e disse: «Dá-me três dias de descanso, que te direi por que me ria e morrerei. Prefiro isso a continuar a aturar-te».

O homem tinha um cão, que ouviu as palavras do dono para a mulher, e um galo valente capaz de satisfazer cinquenta galinhas sem que nenhuma se queixasse. O galo cantava alegre no terreiro. O cão censurou-o: «Não te envergonhas da tua alegria quando o nosso dono vai morrer dentro de três dias?» Perguntou o galo: «Mas porquê?» O cão contou-lhe. Comentou: «Por Deus, que também é nosso criador, o nosso dono precisa de conselho. Eu, com cinquenta fêmeas, mantenho-as todas em respeito e ele, com uma, não o faz? Que arranje uma vara de marmeleiro e lhe dê até deixar de ser impertinente».

O homem ouviu a conversa e reflectiu: «Justo é que corrija a minha mulher, pois não é bom que, para satisfazer uma curiosidade inútil e impertinente, aceite sacrificar-me». E seguiu o conselho do galo. Bem sovada, a mulher reconheceu que não tinha o direito de ser impertinente e viveram em paz daí em diante.

Depois de acabar o conto do burro e do boi o vizir disse à filha: «Tal como o homem bateu na mulher para não ser impertinente, mais depressa o rei te mandará matar se com impertinência o repreenderes». Xerazade não respondeu.

Foram feitas grandes festas pelo casamento do rei. No dia do casamento disse Xerazade à irmã mais nova: «Quando fôr para a câmara do rei, hei-de mandar chamar-te. Deves ir prontamente. Depois de fazermos eu e o rei o que há que fazer, pede-me para te contar a história do mercador e do génio».

No fim das festas de casamento o rei levou Xerazade para a câmara de dormir. Então Xerazade disse: «Senhor, a minha irmã mais nova terá grande desgosto se não passar junto de mim a minha última noite. Permites que ela satisfaça esse desejo?» O rei condescendeu.

Depois que o rei e Xerzade fizeram o que tinham que fazer, com grande gosto de ambos, disse a irmã: «Por Deus, ó minha irmã, antes que amanheça e partas para sempre, conta-me a história do mercador e do génio que me prometeste contar». Respondeu-lhe com voz macia: «De boa vontade to contaria, mas receio que nunca venhas a conhecer essa maravilhosa história, porque não devo perturbar a noite do meu senhor».

As palavras de Xerazade agradaram ao rei. Porque quis saber a história, disse: «Conta, que gostarei de ouvir»

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