António Bica

Muita da água dos grandes rios que vêm de Espanha possibilita alargar para mais de 500.000 hectares a área de regadio a sul do Tejo

 

O plano nacional da água consta do anexo ao decreto lei 76/2016 de 9 de Novembro de 2016. Considerando as informações dele constantes e outras, a pluviosidade média em Portugal é de 0,95 metros cúbicos por metro quadrado, que correspondem a média de 84.500 milhões de metros cúbicos de chuva por ano correspondentes a 84.500 hectómetros cúbicos. A água que os rios que nascem em Espanha escoam em média por Portugal corresponde a 62.000 milhões de metros cúbicos (62.000 hectómetros cúbicos). Tendo-se em conta que da bacia destes rios que nascem em Espanha cerca de 10% é território português, há que deduzir aos 62.000 hectómetros cúbicos cerca de 10%, devendo considerar-se que os rios internacionais (Minho, Lima, Douro, Tejo e Guadiana) fazem em média entrar na fronteira portuguesa 55.800 hectómetros cúbicos de água por ano. Assim a quantidade de água da chuva que cai em Portugal mais a água que pelos rios internacionais chega à fronteira portuguesa é de 140.300 hectómetros cúbicos por ano em média.

Estimando a população portuguesa mais a turística em 10 milhões de residentes permanentes, a disponibilidade bruta anual de água é em média de 14.030 metros cúbicos por ano e por residente, o que corresponde a 38,43 metros cúbicos por dia e por residente, portanto a 34.430 litros de água por dia e por residente. Desta água da chuva caída em Portugal, percentagem significativa escoa-se para o mar, talvez 20%, outra alimenta por infiltração os lençóis freáticos, talvez 10%, a restante perde-se por evaporação e por evapotranspiração de plantas, talvez também 10%, sendo esses destinos estimáveis em 40% do total da água da chuva caída em Portugal e da trazida pelos rios que nascem em Espanha. Restam cerca de 23 metros cúbicos por residente e por dia de água superficial e subterrânea para usos domésticos e urbanos (como jardins e arvoredo urbano, lavagem de ruas e semelhantes) que se estima em 20%, portanto em 4,6 metros cúbicos por dia e residente. Do restante, 18,4 metros cúbicos, os usos em actividades industriais e de serviços consumirão cerca de 1,38 metros cúbicos por dia e residente; para a agricultura e pecuária sobrarão 17,02 metros cúbicos por dia e residente, que a actividade agrícola e a pecuária são muito grandes consumidoras de água. A esta água há que somar a que é recuperada dos lençois  freáticos e ainda a que pode ser recuperada a jusante da última utilização nos grandes rios e por aumento equilibrado de extracção dos lençois , isto é que não ultrapasse a quantidade de água da chuva infiltrada anualmente em média.

No mundo a época das chuvas tende a coincidir com as estações climáticas quentes. As regiões de clima mediterrânico, como é a portuguesa, são excepção a essa regra. Nas regiões de clima mediterrânico, no Verão não chove ou chove excepcionalmente. Como as plantas agrícolas têm raízes superficiais ou pouco profundas, não chegam no verão à água dos lençóis freáticos, isto é, ao nível da água subterrânea, que no verão é profundo.

Como se sabe as plantas para se desenvolverem bem precisam de tempo quente, como é o verão em Portugal, e de água, chovendo raramente no verão nas regiões mediterrânicas como é a maior parte de Portugal. Por isso a agricultura em Portugal, como nos restantes países de clima mediterrânico, precisa de água em grande quantidade vinda de rios, da represada em barragens e da subterrânea.

O Alentejo, o Ribatejo e o Algarve são as regiões mais favoráveis à agricultura de regadio por terem boa percentagem de solos com qualidade suficiente e calor no Verão, desde que se disponha de água.

A construção da barragem do Alqueva tornou possível a irrigação para produção agrícola de cerca de 120.000 hectares de terra à volta de Beja (1ª fase do regadio), que correspondem a 16% das culturas agrícolas da área da área de intervenção do Alqueva, que é de 900.000 hectares, seguindo-se 45.000 ha principalmente em Viana do Alentejo, Moura e Reguengos de Monsaraz.

À barragem do Alqueva aflui só a água da bacia do rio Guadiana, que é estimada em 6.600 hectómetros cúbicos por ano. O afluxo de água da bacia do Tejo é de 17.100 hectómetros cúbicos por ano; o da bacia do Douro é de 22.900 hectómetros cúbicos por ano; o da bacia do Minho de 12.900 hectómetros cúbicos por ano. O total da água que em média aflui por estes 3 rios por ano é de 52.900 hectómetros cúbicos, o que corresponde a 8 vezes a água que aflui à barragem do Alqueva. Se excluirmos a água que aflui pelo rio Tejo, dado o seu elevado grau de poluição actual e potencial e tendo em conta que muita água desse rio è desviada da sua bacia para ser usada nos terrenos do Levante mediterrânico espanhol.

Mesmo que a água que entra no Alqueva não permita mais do que a rega de 165.000 hectares, a água que aflui ao Douro, Lima e Minho pode ser captada a jusante da última utilização de água em cada um deles, portanto sem prejudicar as actuais actualizações, o que poderá possibilitar grande alargamento da área de regadio em terrenos da beira-mar a partir do rio Minho e no Alentejo e Ribatejo, sem impedir os actuais usos da água que corre por esses rios.

O anormal pico climático deste verão nas regiões mediterrânicas do norte é indiciador de que podemos vir a sofrer em anos próximos novos picos e possivelmente em prazos de tempo cada vez mais curtos. Os poderes políticos não podem deixar de estar atentos a esse risco, tomando as medidas que acima se defendem a executar progressivamente a longo prazo, mas a iniciar sem demora. Além disso há que tomar outras medidas, nomeadamente iniciando estudos para conduzir para a cabeceira de um dos afluentes da margem direita do rio Guadiana, a montante da Barragem do Alqueva, de modo que a água dos rios que escoam a que cai na cadeia montanhosa que vai dos Pirinéus às montanhas da Galiza, que são o Douro, que escoa anualmente 22.900 hectómetros de água, o Lima, que escoa anualmente 2.500 hectómetros cúbicos de água e o Minho, que escoa anualmente 12.900 hectómetros cúbicos de água, somando esses 3 rios 38.300 hectómetros cúbicos de água, que correspondem a 38,3 milhares de milhões de metros cúbicos. O rio Guadiana escoa anualmente 6.600 hectómetros cúbicos de água. Os 38.300 hectómetros cúbicos de água escoada por esses 3 rios são volume 5,8 vezes superior ao da água escoada pelo rio Guadiana. Estes números, como já se referiu, constam do decreto lei 76/2016 de 9 de novembro que aprovou o plano nacional da água. Assim, conduzindo-se em conduta fechada, talvez de 4 a 5 metros de diâmetro, essa água para sul do rio Tejo, pode o país multiplicar por 5,8 a área que é possível regar com a barragem do Alqueva, actualmente 120mil hectares, estando projectados mais 50 mil hectares.  Com a possibilidade de conduzir toda essa água para a barragem do Alqueva, o regadio beneficiado por ela pode ser muito alargado. Esse enorme volume de água não precisa de ser conduzido todo para o sul, só a que for precisa, quando e na medida em que for. A condução pode ser feita em tubagem com adequado diâmetro, talvez de 4 a 5 metros, desde local a jusante da última utilização da água de cada um desses rios, sem a água de um rio ter de passar para outro a não ser no destino final, o rio Guadiana. Será certamente investimento mais reduzido que o de uma auto-estrada e mais fortemente potenciador da economia do país, com possibilidade de financiamento pela PAC sem reembolso. Desse modo poder-se-á garantir água suficiente para consumo dos aglomerados urbanos, usos industriais, culturas de regadio e a pecuária. Refere-se os 3 indicados rios, porque escoam água da cadeia montanhosa entre os Pirinéus e as serras da Galiza, onde a pluviosidade se aproxima da europeia acima dos Pirinéus e serão provavelmente menos afectada pela instabilidade climática que o aquecimento global está a criar.

Esta medida não pode deixar de ser estudada e executada sem grande demora, porque o aquecimento da atmosfera da Terra e da água dos oceanos não poderá ser reduzida senão a longo prazo e se os grandes países do mundo agirem para isso determinadamente e sem demora. O anúncio da decisão do presidente Trump de os EUA se retirarem do Acordo de Paris sobre o clima é sinal de que poderemos vir a sofrer em anos próximos iguais ou mais graves anomalias climáticas.

Considerando que se não devam extrair de cada rio a jusante da última utilização mais que metade, cerca de 27.000 hectómetros cúbicos por ano, para que se mantenham os caudais ecológicos a jusante das captações, a área de regadio em Portugal pode alargar-se em cerca de 500.000 hectares, ou mais, a área de regadio no país.

A água necessária para isso precisa de ser conduzida sob pressão em condutas a construir à superfície não longe da beira-mar. Se se entender ser mais seguro do ponto de vista estratégico para se evitar destruição por acções bélicas ou de terrorismo, podem as condutas ser construídas sob o solo. A tubagem com dimensão adequada, talvez 4 metros de diâmetro, deverá ser contínua desde o início no rio Minho, isto é sem a água de um rio entrar em outro para a fauna e a flora de cada um não ser perturbada por espécies animais ou vegetais de outro.

A energia necessária para forçar a circulação de água nas condutas pode ser obtida por turbinas eólicas a instalar a adequada distância da linha litoral para o interior, ou no mar.

O financiamento pode ser obtido nos grandes bancos de financiamento internacional, como o Banco Mundial e o Banco Europeu de Investimento, e por apoios da União Europeia.

Nota: Como vai acima indicado, as informações foram obtidas no Plano Nacional da Água, decreto-lei 76/2016 de 9/11/2016, ou estão disponibilizadas na internet sobre a barragem do Alqueva.

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