António Bica

Reflexões sobre a vida e o mundo (2)

Na sequência do publicado sob esta epígrafe do escrito pelo falecido José Pereira, dá-se continuação à publicação das suas reflexões:

A pulsão humana de fuga à morte e a estruturação das religiões

Ed653_DrBicaA morte, porque é desagregação, repugna ao homem como a todos os seres vivos. Viver dá prazer. Se a morte não repugnasse, as grandes dificuldades da constante luta de cada ser por manter a sua vida levariam á desistência, o que só se verifica em casos muito raros. Todos os viventes lutam em regra por manter a sua vida, que é organização com manutenção dela. A morte é a desagregação. A organização só pode subsistir resistindo à desagregação. Por isso a morte (desagregação do indivíduo) tende a repugnar a cada ser vivo. A pulsão de oposição à morte de cada humano, que é de autopreservação, levou à sua negação pela explicação mítica dela como acidente, que, embora de capital importância na vida do indivíduo, não o extinguiria.

Cada humano foi e continua a ser, por essa explicação, figurado como constituído por realidades distintas: uma visível, o corpo, outra correspondendo a imaginada realidade.

Associada a essa explicação surgiu a assimilação da vida do indivíduo e da sua figurada sobrevida aos ciclos resultantes dos movimentos reais ou aparentes do sol, das estrelas, da lua e de outros planetas. A verificação desses ciclos, da sucessão das estações do ano, da queda das folhas no Outono, da floração na Primavera, levou em algumas culturas ao mito do eterno retorno: cada humano resurgir, depois do desaparecimento (morte) da realidade visível e perecível, em novo corpo, à semelhança da permanente renovação da natureza, ou, na concepção indú, também em animais, o que é mais abrangente por considerar todos eles integrantes da mesma realidade viva. Em outras culturas concebeu-se e concebe-se a morte de cada humano como definitiva no plano da realidade visível, mas com permanência imperecível em outro imaginado plano dela.

Assim se foram construindo, pela capacidade humana de raciocinar em abstracto, explicações do universo em que o homem (indivíduo e colectivo) vive e de que é parte. Essas explicações evoluíram com o crescimento dos colectivos humanos, o consequente desenvolvimento das forças produtivas e a decorrente evolução social, dando coesão a cada colectivo com as suas relações económicas e elos entre os indivíduos e os grupos sociais.

O mito da dupla realidade humana como forma de responder à natural recusa da universal realidade da morte tem contribuído para reforçar as sanções sociais contra os desrespeitadores das práticas tendentes a garantir a conformação do indivíduo com as normas do colectivo e punir os que as infringem. Aos respeitadores das leis, fórmulas e ritos religiosos é prometida, ou a felicidade em outro imaginado plano da realidade, ou o progresso no caminho das sucessivas reencarnações, ou ainda a libertação definitiva do sofrimento com o fim das reencarnações pela compreensão absoluta do Universo (iluminação) e plena integração nele. Aos desrespeitadores, além de sanções imediatas, é destinado o sofrimento em outro imaginado plano da realidade.

O progresso civilizacional decorrente do desenvolvimento tecnológico, económico, político e social, que se tem traduzido em cada vez maior respeito pela vida e pela justiça nas relações entre os humanos, corresponde a evolução civilizacional que fez tender, pelo século um antes de Cristo (no Egipto um pouco antes), as religiões para monoteísmo universalizante. O monoteísmo cristão corresponde, na corrente cultural do tempo, a reforma do monoteísmo tribal hebraico para monoteísmo englobador de todos os humanos. Em consequência do desenvolvimento económico e do consequente progresso civilizacional decorreu melhor compreensão da natureza em que os humanos se integram resultante do nascente espírito de racionalização que teve notável manifestação na Grécia do século 5 antes de Cristo com os seus filósofos, e também na Índia com o budismo e na China com Confúcio. Isso corresponde a significativo progresso civilizacional.

Apesar do monoteísmo ser brilhante esforço de racionalização, tendeu a deixar-se contaminar pelo anterior lastro politeísta. Como exemplo referem-se as complexas elaborações teológicas do cristianismo para dar aos ensinamentos atribuídos ao humano Jesus a autoridade de palavra divina; também o budismo, nascido como filosofia de vida, não resistiu à contaminação politeísta.

Não obstante esse esforço o avanço civilizacional manteve forte tendência para se alicerçar, não apenas em valores a que os colectivos humanos haviam chegado a partir da sua observação e do seu raciocínio com base nela, mas também em conceitos e ensinamentos transmitidos por tradição colectivamente aceite ou, nas religiões monoteístas derivadas da reforma egípcia de Aquenaton, atribuídos a palavra de deus único expressa através de escolhidos mensageiros.

Pelo século 5 antes de Cristo, com o nascimento do conceito de filosofia na Grécia, abriu-se espaço cultural para substituir a religião como explicação mitológica do mundo e fundamento das regras de conduta social e individual dos humanos. Com a filosofia passou a entender-se que os humanos quase nada sabem, embora tudo queiram saber. Para isso procuraram e continuam a procurar usar a sua capacidade de raciocínio abstracto observando os factos, repetindo-os por experimentação e transmitindo aos outros as suas conclusões por discurso racional designado pelos gregos “logos” (palavra racional). Essa nova e intelectualmente humilde atitude em relação ao conhecimento tem sido correntemente traduzida pela asserção: “sei que nada sei, mas quero saber”. Isso corresponde a atitude de aceitação de que não há padrão para a verdade, sendo ela objecto de busca permanente por cada um individualmente e pelo colectivo que integra. Aos humanos cabe, raciocinando, progredir no caminho do que se pode entender por isso: O progresso na construção de relações cada vez mais justas e harmoniosas entre todos os humanos, no respeito por toda a vida e a natureza e no progressivo entendimento, que foi primeiramente empírico e depois racional, das relações entre os factos da natureza. As instituições políticas atenienses consideraram, no século 5 antes de Cristo, essa atitude blasfema em relação aos costumes e aos deuses e condenaram o seu defensor, Sócrates, à morte.

Com o Renascimento, sobretudo nos séculos 17 e seguintes, o espírito filosófico levou à estruturação do espírito científico, isto é à sistemática progressão no conhecimento do universo com quanto ele contém, usando a observação e a experimentação e percebendo progressivamente que entre os factos naturais há relação quantificável expressável por constâncias que designamos por matemática.

NOTA: A transcrição do escrito por José Pereira foi autorizada pela família.Redação Gazeta da Beira

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