António Bica

A FLORESTAÇÃO COM SOBREIROS PODE TER VANTAGEM SOBRE OUTRAS ESPÉCIES

Chama-se montado à floresta do sul do país com azinheiras e sobreiros ou só uma dessas árvores, sendo conduzida de modo a as árvores se manterem suficientemente distanciadas entre si para a luz solar possibilitar o desenvolvimento da vegetação entre as árvores.

Anteriormente à mecanização das lavouras, que passou a ser feita a partir do início de década de 1960, a propriedade a montado era cultivada com cereais de Inverno, sendo na grande propriedade feita por “folhas”, diferentes parcelas, em regra 5 ou 6, lavrando em diferentes anos uma parcela nova que, depois de produzir cereal, passava a pastagem. No sobcoberto do azinho e do sobro pastavam bovinos e ovinos, raramente caprinos. As lavouras eram feitas por mulas ou bois com apeiragem artesanal conduzidos por trabalhadores que agiam de modo a não partir as árvores jovens de renovo do montado, assim se possibilitando haver sempre percentagem suficiente de renovo para substituir as árvores que iam morrendo por idade ou doença.

Com a mecanização das lavouras, na década de 1960, decorrente do fim em 1962 do regime de trabalho agrícola de sol a sol substituído pelo de 8 horas diárias, as lavouras passaram a ser feitas com tractores a que são atreladas as máquinas de lavoura – charruas ou grades de discos. Indo o condutor do tractor à frente da charrua ou da grade de discos tem dificuldade em evitar a destruição das árvores jovens. Em consequência, com a mecanização das lavouras, passou a rarear o renovo do montado.

Acresce a isso o pastoreio no sobcoberto do montado ter passado a ser feito, na maior parte da área de montado, por bovinos, que, pela corpulência e por terem cornos, tendem a destruir as árvores jovens que escapam às lavouras mecanizadas. Pelas razões referidas os montados estão a envelhecer por não haver suficiente quantidade de arvoredo jovem (chaparros) para substituir o que vai morrendo.

As azinheiras e os sobreiros produzem bolota cujo pastoreio tem boa procura por criadores de porcos de raça ibérica, incluindo criadores espanhóis. A pastagem para porcos ibéricos no período de Inverno, de Outubro a Fevereiro, chamada “montanheira” é vendida, em média, por 50 € por hectare e ano, que é rendimento significativo.

Os sobreiros, além do rendimento da pastagem para porcos, dão cortiça de 9 em 9 anos. Cada hectare de sobreiros médios pode dar rendimento médio anual em cortiça de 100 € por hectare. Assim cada hectare de sobro dá rendimento médio anual estimável em 150 €, sendo 100 € de cortiça e 50 € de pastagem de montanheira. A este rendimento acresce o da pastagem para ruminantes no sobcoberto, se se harmonizar com o indispensável renovo do arvoredo do montado e a compatibilização entre o pastoreio da bolota por porcos e o pastoreio pelo gado ruminante, que é possível.

Tem que se ter em conta que o pastoreio de ruminantes no sobcoberto do montado é necessário para, pela eliminação do mato que cresce entre as árvores, se poder desenvolver a vegetação herbácea a ser pastada, assim se eliminando o risco de incêndios no mato do montado com grave prejuízo para o arvoredo.

O rendimento da criação de ruminantes em pastoreio no sobcoberto do arvoredo gera suficiente rendimento para compensar as despesas com a eliminação dos matos no sobcoberto e com os cuidados a ter com o gado, tendo em conta o rendimento que dão origem e os apoios ao rendimento do gado e do montado de sobro assegurados pela PAC.

Como o gado ruminante e as lavouras do solo do montado tendem a impedir o normal renovo do arvoredo, há que tomar medidas para assegurar a existência permanente de árvores jovens no montado para assegurar a reposição suficiente das que morrem por envelhecimento ou doença.

Tendo em conta que a vida útil média dos sobreiros e das azinheiras é estimável em 300 anos e que as árvores jovens (chaparros) demoram cerca de 50 anos a tornar-se adultas, isto é a entrar em normal produção, em cada 10 hectares deve assegurar-se a existência permanente de cerca de 13 chaparros com idade entre 1 e 30 anos. Para impor isso a medida mais eficaz será fazer depender a atribuição dos apoios anuais pela PAC ao rendimento do gado e do montado da existência de número mínimo de chaparros conduzidos de modo ao seu desenvolvimento vegetativo não ser prejudicado pela acção do gado em pastoreio nem pelas lavouras.

Como vai referido, os sobreiros, desde que conduzidos de modo à luminosidade natural permitir o desenvolvimento da vegetação no sobcoberto, são árvores de grande interesse económico.

O clima em Portugal possibilita a florestação com sobreiros na generalidade dos solos, com excepção dos alagadiços e os de barro, desde que até  cotas de cerca de 500 metros de altitude. Se se apoiar a florestação com sobreiros em boa parte do país em que eles se desenvolvem bem, contribuir-se-á significativamente para a fixação da população rural por significativo aumento dos rendimentos de quem explora os sobreiros e pastoreia o gado no sobcoberto e também dos trabalhadores que sabem extrair cortiça, que são remunerados com cerca de 100 € por jorna.

O mercado da cortiça é muito antigo. Teve início com o uso da cortiça para bóias nas redes de pesca. Como a generalidade dos países não tem clima favorável à produção de cortiça, era exportada do espaço geográfico correspondente ao de Portugal, que é onde se produz mais e melhor cortiça, sobretudo para os países do centro e norte da Europa certamente desde tempos anteriores aos da independência de Portugal.

A cortiça foi também usada desde tempo mais remoto para fazer abrigos para abelhas, recipientes para branquear teias de tecido e roupa, vertendo sobre elas água a ferver a passar por cinza e também em abrigos que serviam de casa dos mais pobres, de que resultaram os topónimos “cortiço” , “cortiçadas” e semelhantes  de alguns lugares do sul do país.

Com o desenvolvimento económico europeu a partir do ano 1000, a consequente expansão do comércio, o posterior aumento da produção de recipientes de vidro, sobretudo garrafas, o melhoramento da tecnologia de produção de vinho, sobretudo em França, a expansão do comércio de vinho de qualidade em garrafas vedadas com rolhas de cortiça alargou-se, sobretudo a partir do século 16. Disso resultou crescente exportação de cortiça para rolhas por Portugal, que acresceu à destinada a bóias para redes de pesca.

Pelos fins do século 19 a cortiça começou a ser usada no isolamento térmico de instalações frigoríficas para armazenamento e transporte de mercadorias perecíveis.

Assim a procura de cortiça foi crescendo com benefício para a economia do montado e do país. Com o desenvolvimento da química e a consequente produção de plásticos a cortiça passou a ser substituída progressivamente por plásticos nas bóias para redes de pesca e no isolamento de instalações e de transporte frigoríficos.

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