António Bica

Os EUA atacaram a Síria com 59 mísseis

Os grandes meios de comunicação social de todo o mundo informaram, com grande destaque e dramatismo, que no dia 3 de Abril de 2017 em Khan Sheikhun, na região de Idlib, na Síria, em sequência de ataque aéreo pelas forças do governo sírio morreram várias dezenas de pessoas, que estimaram entre 50 e 100, entre elas uma dezena de crianças.

Com as notícias televisivas surgiram logo as imagens de crianças, algumas mortas, outras a ser socorridas, e sírios adultos, expressando-se bem em inglês, a relatar em registo dramático o ataque aéreo, atribuindo-o ao governo sírio e as mortes a gás sarin que diziam lançado por aviões do governo sírio.

No dia 5 de Abril seguinte reuniu-se o Conselho de Segurança da ONU. A embaixadora dos EUA na ONU, que o representava na reunião, avisou que, se a ONU falhasse o dever de retaliar contra o governo sírio, os EUA agiriam independentemente do Conselho de Segurança. Na sequência dessa declaração Trump logo classificou o governo de Assad de ilegítimo, afirmando haver que afastar Assad do governo da Síria.

O governo da Rússia no dia 3 de Abril de 2017 informou que o exército da Síria atacara com meios aéreos instalações militares de forças rebeldes que combatem o governo sírio, onde estavam armazenados pelos islamistas gases letais. Trump, que se caracteriza pela imprevisibilidade e fraca sensatez, na sequência da declaração da embaixadora junto da ONU, agarrou a oportunidade para descredibilizar a política de Obama que sempre classificou como estrangeiro, mostrando que ele, Trump, é que põe os EUA acima de todos os outros países: America first – A América acima de todos os países, assim traduzindo o que o nazi Hitler afirmava: Deutschland über alles – a Alemanha acima de todos.

Em 2013 o governo sírio tinha dificuldade no combate às organizações armadas que se insurgiram em 2011 com grande apoio militar e diplomático dos países seguidores do fundamentalismo islâmico, a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico e com o apoio militar e político da CIA. As organizações armadas opostas ao governo sírio coordenam-se e sempre se coordenaram com o Estado Islâmico e a Alqaida.

Apesar dessa coordenação com o Estado Islâmico e a Alqaida, os EUA ordenaram à CIA lançar contrainformação divulgada intensamente nos meios de comunicação social internacionais sob controlo americano, afirmando que as forças rebeldes que combatem o governo sírio não agem coordenadamente com a Alqaida e o Estado Islâmico, designando-as oposição moderada ao governo, que sempre e repetidamente qualifica de ditadura. O objectivo da CIA é substituir o governo sírio para os EUA virem a retirar as bases militares russas na Síria e sucederem no seu controlo.

Em Agosto de 2013 morreram centenas de pessoas em Ghutta, na Síria, a leste de Damasco, em consequência do uso de armas químicas. Na sequência desse ataque, por pressão internacional o governo sírio entregou as armas químicas que tinha, mediante supervisão internacional. Posteriormente houve mais ataques com armas químicas noutros pontos da Síria, tendo o governo sírio atribuído credivelmente a autoria aos fundamentalistas islâmicos, dado que tinha entregado para destruição todo o seu armamento químico. Apesar disso os grandes meios de comunicação social continuaram a duvidar da autoria dos factos, que recentemente levaram à libertação dos gases letais em Idlib, ser dos fundamentalistas islâmicos.

Em Portugal, nas notícias e comentários do jornal Público sobre o bombardeamento da Síria por ordem de Trump, nas cartas ao director, no dia 8 e no dia 9, foi posto em dúvida em dúvida o ataque químico dever-se ao regime sírio, contra a opinião da generalidade dos jornalistas que nele escrevem, com poucas exceções.

Também um jornalista americano, de nome Zacarias, afirmou na imprensa americana que Trump quer impor a sua liderança no mundo recorrendo ao que os americanos sempre fazem, usando as armas mais letais.

Os EUA sempre justificam a versão dos factos que mais lhes convém, como fizeram no fim de 2002 e início de 2003 com as armas de destruição maciça apregoadas por Collin Powell na ONU como se existissem , e em outros muitos casos, repetindo mil vezes as mentiras que constroem, bem sabendo que uma mentira mil vezes repetida é aceite como verdade pela generalidade das pessoas, como afirmava descaradamente o nazi Goebbels e os assessores de Trump fazem, chamando-lhes factos alternativos.

A verdade é arredada pelo governo dos EUA da informação que encomenda aos publicistas contratados para justificar as acções políticas ilegítimas que querem impor. Quase toda a imprensa europeia repete esses “factos alternativos” forjados nos EUA. Os países europeus agem pavlovianamente em relação a quase tudo o que vem dos EUA como cachorrinhos amestrados, fazendo  eco acrítico das notícias que vêm dos EUA.

Terá sido o governo sírio tão tolo que utilizou as armas químicas para precipitar possível ataque pelos EUA, que esperavam esse pretexto justificador dele para fazer sair a Rússia da Síria? A insistente repetição de que as mortes de crianças foram devidas a ataques do governo sírio foi feita para justificar a acção premeditada de arremesso dos 59 misseis contra a síria. Será antes de admitir que os terroristas que exterminaram os cristãos de Idlib são os autores do uso dos gases contra o seu povo, tendo possivelmente o bombardeamento aéreo feito explodir paiol onde oportunamente terão sido postos gases de morte.

A estratégia é conhecida: quando Hitler atacou sem nenhuma razão a Polónia, no começo da segunda grande guerra, acusou-a de agressão para justificar o brutal ataque. A guerra usa sempre o controlo da informação pública para manipular as populações e justificar o injustificável. São, como sempre, mentiras para justificar a guerra.

Não podemos apenas ficar por compreender as estratégias da guerra, esquecendo as monarquias wahabitas, que regimes retrógrados apoiados pelos EUA, combatendo activamente o espírito de racionalidade, a igualdade entre os homens e as mulheres e os direitos humanos, impedindo as mulheres de conduzirem automóveis e de sair de casa sem a companhia de um homem da família que as controle. Por imposição dos EUA, que por causa do petróleo activamente protegem a Arábia Saudita e os Estados dela satélites, desde o fim da segunda grande guerra na península arábica continuam a serem chocados os ovos do fundamentalismo radical islamista criminoso que é activamente exportado para todo o mundo, matando em nome de Deus.

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