António Bica

Cuba, a propósito da morte de Fidel Castro em 2016 (parte 2)

Fidel Castro nascera em 1926, filho de um grande agricultor com origem na Galiza. Estudou na universidade de Havana, tendo sido opositor a Fulgêncio Baptista. Defendeu a independência do país contra o controlo político e económico dos EUA, a reforma agrária, a expulsão da Máfia americana da ilha, a aliança com os países que se tinham tornado independentes havia pouco tempo e não alinhavam nem com a URSS nem com os EUA.

Convenceu-se que para isso era preciso derrubar do poder Fulgêncio Baptista. Para isso participou com outros opositores ao regime, em 26 de Julho de 1953, no ataque ao quartel Moncada, que fracassou, tendo sido preso, julgado e condenado a 15 anos de prisão.

Por pressão de movimentos políticos cubanos e internacionais, Castro foi amnistiado em 1955. Partiu para o México, onde se organizou com outros 82 opositores, criando o movimento 26 de Julho, data do ataque ao quartel Moncada. Embarcaram em pequeno barco, o Granma e rumaram ao sul de Cuba, iniciando a libertação de Cuba da ditadura de Fulgêncio Baptista. Baptista mandou bombardear por aviões militares os guerrilheiros onde desembarcaram, tendo morrido quase todos menos cerca de 1/3 , incluindo Fidel Castro. Os sobreviventes, vinte, subiram em 1956 à Sierra Maestra no sul de Cuba e em 2 de Dezembro de 1956 anunciaram o início da luta pelo fim da ditadura de Fulgêncio Baptista, apelando à população cubana para se lhes juntar, trazendo cada um a arma que tivesse ou tomasse a polícias ou militares e por assalto a esquadras de policia. O povo, sobretudo os jovens, juntou-se às centenas e depois aos milhares  ao pequeno grupo do movimento 26 de Julho que destemidamente subira à Sierra Maestra a iniciar a revolução libertadora de Cuba, fazendo-o crescer até em Janeiro de 1959, pouco mais de 2 anos depois do inicio da revolução na Sierra Maestra, o movimento 26 de Julho entrar em Havana a derrubar do poder o ditador protegido pelos EUA, Fulgêncio Baptista.

Cuba está a pequena distância dos EUA. É ilha tropical das Caraíbas com cerca de 100.000 km2, sendo a sua população descendente dos colonizadores espanhóis e de escravos africanos. O território é em grande parte plano, com algum relevo sobretudo na parte sul. Tem cerca de 11 milhões de habitantes. A capital, Havana, tem cerca de 2,2 milhões de habitantes.

Depois de derrubado Fulgêncio Baptista foram iniciadas modificações na sua economia: As grandes explorações açucareiras, na maioria de capital americano, foram nacionalizadas e os casinos da Máfia americana encerrados. Os EUA opuseram-se vivamente a essas medidas, tentando forçar o movimento 26 de Julho a anulá-las.       Iniciaram pressões, sabotagens pela CIA e ameaças políticas. Fidel Castro disse, em resposta a assas pressões, em entrevista de 1960, querer entendimento com os EUA. Mas a resposta foi o bombardeamento das explorações nacionalizadas, a ameaça de invasão da ilha e sanções económicas com proibição de importação de açúcar para os EUA e de exportação de petróleo dos EUA para Cuba. Os meios de comunicação social americanos iniciaram insistente campanha de propaganda contra o novo poder em Cuba e estimularam os mais ricos de Cuba a instalar-se no estado americano da Florida à espera do regresso a breve prazo a Cuba para recuperar os seus privilégios. Continuam a esperar.

Para evitar o colapso económico o regime saído da revolução Cuba estabeleceu relações diplomáticas e económicas com a URSS, que antes não existiam, comprando-lhe petróleo e vendendo açúcar.

Inconformados os EUA com a aproximação de Cuba à União Soviética EUA tentaram invadi-la em 1961 na Baía dos Porcos, sob comando da CIA, tendo sofrido pesada derrota.

Em resposta a essa fracassada invasão Cuba aceitou em 1962 que a URSS instalasse no país bases militares.

Em retaliação, Cuba foi, por imposição dos EUA expulsa da Organização dos Estados Americanos, a que só regressou em 2009. No mesmo ano de 1961 foi alargado o embargo económico, comercial e financeiro dos EUA a Cuba, impedindo as relações comerciais entre Cuba e os EUA e a exportação de tecnologia americana para a ilha. Em 1962 os EUA reagiram contra a instalação de bases militares soviéticas em Cuba, barrando o acesso de barcos soviéticos a Cuba com o invocado fundamento de transportarem armas nucleares, o que pôs o mundo à beira de terceira guerra geral.

Em consequência das vingativas medidas para asfixiar economicamente Cuba a economia do país tornou-se cada vez mais dependente da URSS. Apesar disso o governo cubano saído da revolução de 1959 não se acobardou como os EUA esperavam.

Apesar do boicote económico e político Cuba desenvolveu notáveis progressos no ensino, na saúde e na distribuição equitativa da sua produção pelo povo do país. Passou a ser dos países do mundo com melhor e mais generalizado nível de ensino, com mais eficiente serviço de saúde para todos, com condições gerais de vida modestas mas equitativas.

No campo da solidariedade internacional Cuba apoiou a luta anticolonial na Guiné Bissau e em Angola. Deu decisivo apoio militar ao governo angolano na luta contra o regime de apartaide sulafricano, tendo contribuído decisivamente para o fim desse regime no fim da década de 1980.

Na América Latina apoiou os povos dos países sulamericanos que lutaram contra os regimes de ferozes ditaduras sangrentas da década de 1960 apoiados ou postos no poder pelos EUA, como no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai e noutros.

Com o colapso da URSS em 1991 a produção da economia cubana baixou 30%. Dificilmente qualquer governo se manteria no poder com tamanha quebra da economia. Mas o povo cubano, porque o governo soube explicar as razões da crise, entendeu as razões dela e manteve o apoio ao seu governo, que logo tomou medidas para recuperar dela. A economia foi flexibilizada, admitindo investimentos externos, sobretudo no turismo, o que possibilitou a recuperação económica.

O sistema político cubano não prevê a eleição periódica de uma assembleia legislativa e directa ou indirectamente de um governo, mas Cuba tem Constituição e eleições de 5 em 5 anos para eleger deputados nacionais e os membros das assembleias provinciais, podendo os cidadãos candidatar-se, apesar de não serem admitidos partidos políticos para que se não organize na ilha partido montado pela CIA, por ela financiado e promovido internacionalmente  e em Cuba por massiva propaganda nos meios de comunicação social soprados pelos EUA.

À legitimação política por eleições periódicas junta-se a resultante da revolução que pôs fim à ditadura de Fulgêncio Baptista, que os EUA sempre protegeram. Com a revolução  os cubanos sentiram-se donos do seu destino, com direito  instrução, saúde e vida mediana mas justa e livres de ser o quintal da Máfia americana do sudoeste dos EUA sem autonomia económica e real autonomia política.

As restrições a manifestações de rua e de propaganda política podem justificar-se por os EUA boicotarem económica e politicamente Cuba desde o início da década de 1960 e recorrerem a todas as manobras para instabilizar o país, nomeadamente acusando o governo cubano de ter morto Camilo Cienfuegos, um dos principais líderes revolucionários, sendo conhecido que o avião militar em que viajava do oriente da ilha para Havana caiu no mar em circunstâncias que apontam para a mão da CIA. Tentaram por centenas de vezes assassinar Fidel Castro sem o terem conseguido, inventam que é muito rico, contabilizando as empresas públicas como se fossem propriedades dele e não do povo cubano. Usam Guantânamo, que é território cubano arrendado sem limite de tempo pelo governo cubano, quando os seus presidentes governavam o país às ordens dos americanos, para torturar e manter ilimitadamente e sem julgamento cidadãos de outros países desde a guerra no Iraque.

Fidel Castro morreu em 2016 com 90 anos e antes, em 24 de Fevereiro de 2008, deixou o governo do país. O povo cubano não o esqueceu nem à sua coragem e lucidez. Pelas notícias divulgadas depois da sua morte sentiu com pesar o seu falecimento. E a generalidade dos governos dos outros países manifestou junto do governo de Cuba condolências pela morte de Fidel. Com Obama os EUA estabeleceram relações diplomáticas com Cuba. Mas o futuro presidente americano, Trump, anunciou que regressará à anterior política de hostilização.

Quando acabar o embargo a Cuba, se acabar, será de esperar evolução do regime para eleições periódicas de assembleia política legitimadora do governo, desde que em condições de não comprometer a autonomia política e económica do país. Para isso há que esperar que os EUA deixem de se intrometer no país.

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