António Bica
A mudança política na Líbia por via militar e o apoio dos EUA e da EU

A Líbia é país do norte de África a marginar o Mediterrâneo com grande superfície (1.759.500 km2) e pequeno número de habitantes (6.500.000).
A terra é na maior parte desértica, chovendo muito pouco. O deserto do Sahara chega ao Mediterrâneo no Golfo de Sirte. Na zona costeira ocidental, onde se situa Trípoli e outras cidades, e na região marítima oriental, a Cirenaica donde era originário o Simão Cireneu que figura nos Evangelhos a ajudar Cristo a carregar a Cruz a caminho do Calvário.
Na Cirenaica situa-se a segunda maior cidade da Líbia, Bengási, e outras, como Tobruque em que ocorreram duros e decisivos combates na 2ª Grande Guerra entre alemães e ingleses, a pluviosidade é maior, possibilitando a actividade agrícola. Nesta região oriental o planalto de Barca é o mais fértil. Em todo o país só cerca de 10% da superfície é agricultável.
No deserto há escassos oásis onde a agricultura é possível por aflorar neles água subterrânea resultante das raras chuvas no deserto que se infiltram (Fezan, Cufra e Audjila-Djarabube).
A região da Líbia integra a civilização mediterrânica desde a mais remota antiguidade com influências do Egipto, da Fenícia, da Grécia e depois de Roma. Com o império romano tornou-se cristã. Depois da invasão árabe no século 7 da nossa era, passou ao islamismo que mantém sob forma sunita.
A Líbia integrou o domínio político e religioso do califado islâmico e muito mais tarde o império turco de que fez parte até aos tempos modernos. Em 1912 a Itália ocupou o seu território, onde se manteve até ser expulsa durante a 2ª Grande Guerra. Em 1949 a ONU reconheceu o direito á independência do país com governo monárquico de que passou a ser rei Muhâmade Idris.
A monarquia foi pressionada a ceder perto da capital, Bengázi, bases militares aéreas aos americanos e aos ingleses, e marítimas em Tobruque, na costa junto da fronteira oriental com o Egipto.
No início da década de 1960 foram encontradas significativas reservas de petróleo no país.
Pelo fim dessa década, em 1969, alguns militares, de que se destacou Muâmar Kadáfi, seguindo o movimento político libertador do velho poder de tipo feudal nos países árabes iniciado com o fim da monarquia no Egipto em 1952, puseram fim ao regime monárquico líbio. Kadáfi aliou a sua tribo, a Kadafa, daí o seu nome Muâmar Kadáfi (da tribo Kadafa) às outras duas maiores, a Magara e a Uarfala, que é a mais numerosa, com cerca de um milhão de pessoas.
Kadáfi pôs termo às bases militares na Líbia, o que lhe valeu a hostilidade americana. A exploração de petróleo permitiu a autonomia económica do país até então dependente da agricultura nas escassas áreas cultiváveis e do aluguer das bases militares aos americanos e aos ingleses. Com base nesses rendimentos Kadáfi seguiu política laica, defensora da igualdade dos homens e das mulheres, com criação de escolas para toda a população e, no concerto da nações, procurou manter-se politicamente independente da união Soviética e dos EUA.
A maior parte da população líbia identifica-se pela tribo que integra. Por desde a antiguidade ser região pouco povoada e de escasso interesse económico a sua integração no império romano não esbateu a identidade tribal como aconteceu na generalidade do império.
Com a conquista árabe no século 7 e o posterior domínio do califado continuou, pelas mesmas razões, a manter-se no país forte identidade tribal, o que foi aceite pelos árabes, quando conquistaram a Líbia e a levaram à conversão ao islão.
O país divide-se por múltiplas tribos que se repartem pelas três grandes regiões líbias: A Tripolitânia no noroeste, junto à Tunísia e ao mar, a Cirenaica, a nordeste, junto ao Egipto e também ao mar, e Fezan, região desértica, onde se situa o oásis do mesmo nome, no sudoeste.
Tão forte é a identidade tribal que Kadáfi procurou respeitá-la, distribuindo entre as tribos parte significativa dos rendimentos do petróleo e os cargos políticos e militares de relevo, não assumindo título (Presidente ou outro) que pudesse ser entendido como sinal de supremacia da sua tribo sobre as outras, mas o de Guia.
O rendimento do petróleo e este equilíbrio de poder e de interesses entre as tribos permitiram a Kadáfi ultrapassar a hostilidade americana, o bombardeamento de Tripoli pelos EUA na década de 1980 e a influência política e religiosa dos movimentos fundamentalistas islâmicos com origem na Arábia Saudita, que os americanos, através da casa Saude, fomentaram nos países árabes, desde o início da década de 1950, para os opor aos regimes laicos, reconhecedores do direito das mulheres à igualdade com os homens, respeitadores da liberdade religiosa, nascidos do renascimento político árabe do início da década de 1950, de que se destacou o de Nasser no Egipto o dos partidos Baas na Síria e no Iraque.
Mas o mundo sempre está em mudança. Com a revolução na Tunísia e depois no Egipto em 2011, o poder de Kadáfi começou a ser contestado pelos fundamentalistas islâmicos com apoio dos EUA. Em 17 de Fevereiro de 2011, em Bengási, no oriente do país, onde domina a tribo Uarfala, houve manifestação política pacífica pelo fim do regime, na sequência da detenção em Bengási do advogado, Féti Tarbel, que representara cerca de 1200 presos políticos executados na prisão de Abu Selim em 1996.
A reacção do regime foi dura, tendo morrido cerca de 600 manifestantes. Em consequência desta manifestação e das que se seguiram, houve significativas deserções militares, de ministros e de diplomatas, o que se deveu a terem origens tribais diferentes da de Kadáfi.
A perda do controle por Kadáfi de toda a região oriental, onde a Irmandade Muçulmana egípcia tinha e continua a ter grande influência, dominada pela tribo Uarfala que se separou de Kadáfi, e boa parte de outras cidades, deve-se a aí a tribo Kadafa ter menor peso demográfico e poder. Na parte oriental do país o regime perdeu as cidades de Bengási (segunda maior cidade), Tobruque, Darna, Adjabia, Shahat e Al Baida. Na parte ocidental perdeu Zuara, Zaulia e Misurata.
Em 20 de Fevereiro, o filho de Kadáfi, Saif Al Islam, em declaração de reacção segundo valores tribais, prometeu resposta com “rios de sangue”.
Instalou-se na Líbia guerra civil com forte carácter tribal. A ONU, a Europa e os EUA não tomaram suficiente consciência disso, o que levou a incorrecta análise das circunstâncias do conflito e a inadequada gestão dele. Kadáfi entrincheirou-se em Tripoli, a capital, e desencadeou forte ofensiva militar contra as cidades de que perdeu o controle.
Em consequência da luta numerosos imigrantes no país deixaram-no, a produção e a exportação de petróleo baixaram fortemente, o que levou o mercado, temeroso, a subir os preços.
O mundo reagiu preocupado. Ainda não havia saído da crise económica e financeira de 2008 e 2009, mas temia-se que a subida de preços do petróleo debilitasse a economia mundial. Por iniciativa dos E U A e da União Europeia a ONU, o Conselho de Segurança, sob pretexto de proteger a população civil, aprovou, sem veto da Rússia nem da China, resolução contra o regime de Kadáfi, na esperança de o fazer cair brevemente. Em consequência dessa resolução, os principais países da Europa e os EUA imobilizaram os meios financeiros líbios nos seus países. Os navios de guerra americanos aproximaram-se da costa líbia. Por acordo com os americanos a Inglaterra a aviação militar inglesa bombardeou as infrastruturas da aviação líbia e destruiu as defesas antiaéreas do país. A partir de então a aviação inglesa acompanhada pela francesa com o apoio dos navios de guerra americanos serviram de artilharia pesada contra o exército de Kadáfi ao serviço dos fundamentalistas islâmicos que se opunham ao regime de Kadáfi, sem se preocuparem com as numerosas mortes de civis que assim causaram. A maioria dos combatentes que apoiaram lutava e continua a lutar por impor no país o fundamentalismo político e religioso que a Arábia Saudita, com apoio dos EUA procurou alargar por todo o mundo islâmico sunita desde o início da década de 1950.
Se os EUA ou a Europa tivessem querido influenciar a evolução política líbia no caminho da democracia e dos direitos humanos e sociais, não teriam fornecido aos fundamentalistas que se opunham a Kadáfi o armamento que, sob a influência do regime político e religioso da Casa Saude, querem fazer renascer o califado islâmico desaparecido no fim do século 13. E com ele a concentração dos poderes religioso e político sobre os muçulmanos sunitas debaixo de uma única autoridade sem respeito pelos direitos humanos e opressora das mulheres, a que se candidata a dinastia da Casa Saude.
A Líbia tem reservas de petróleo e de gás significativas. O que move os EUA e os países da União Europeia são essas reservas energéticas. As percentagens delas em relação às mundiais são de 3,3% (petróleo) e de 0,4% (gás). Apesar de não muito grandes, a forte redução da exportação de petróleo e de gás líbios puseram com a guerra civil na Líbia nervoso o mercado de energia, em altura em que o preço dos bens alimentares estava muito alto, e a ameaçar a economia mundial com nova crise energética como a que resultou da guerra de 1973 entre o Egipto e Israel e, nos anos de 1980, da guerra entre o Iraque apoiado pelos EUA e o Irão.
Logo que os fundamentalismos islâmicos tomaram parte significativa do poder na Líbia após a morte de Kadáfi em Agosto de 2011, começaram os EUA a colher o fruto da sua política arrogante de vistas curtas. A primeira acção significativa dos fundamentalistas islâmicos líbios armados pela Inglaterra, a França e os EUA, depois da morte de Kadáfi, foi atacar a embaixada americana e matar e embaixador e muitos funcionários americanos, sendo então Secretária de Estado dos EUA responsável pela política externa americana a senhora Clinton. Este facto foi objecto de investigação pelo Congresso americano e contribuiu decisivamente para que a senhora Clinton tivesse perdido as recentes eleições para a presidência dos EUA.
Depois passaram a lutar pelos seus dois principais objectivos: O alargamento do domínio do fundamentalismo islâmico religioso e político nos países africanos do Magrebe e na Nigéria com o Boko Haram; e, dentro da Líbia, por eliminar as forças políticas e religiosas moderadas que se põem ao fundamentalismo.
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