António Bica
O fundamentalismo islâmico WABITA alargou-se a outros países (parte 2)

O fundamentalismo religioso islâmico wabita alargou-se ao Egipto na primeira parte do século 20, influenciando os que combateram os invasores franceses comandados por Napoleão e depois os ingleses que lhe sucederam. Em 1928 os seguidores do fundamentalismo wabita organizaram-se sob a designação Irmandade Muçulmana sob influência do dirigente religioso Hassan al Banna, a que sucedeu em 1950 Sayyed al Qutb.
Depois da Segunda Guerra Mundial a independência da Índia deu origem a dois países independentes, o Paquistão e a Índia, separados por razões religiosas. Desde então os dois países têm entrado em guerras entre eles por ambos considerarem terem direito a englobar o território de Cachemira. Para melhor mobilizar os seus habitantes para essas guerras o governo do Paquistão, sob a influência da Arábia Saudita e com a simpatia da CIA, importou o fundamentalismo wabita, que assumiu a designação de talibãs (estudantes da religião). A boa vontade dos EUA em relação à entrada no Paquistão do fundamentalismo religioso islâmico deveu-se ao interesse em hostilizar a política do governo indiano de não aceitação de ingerência de outros países (no caso dos EUA) nem da sua equidistância entre os EUA e a União Soviética em conformidade com os demais países designados não alinhados de acordo com a orientação política internacional definida na Conferência de Bandung de 1955, onde essa linha política internacional foi decidida como a mais conveniente aos interesses dos países que se tornaram independentes depois de 1945 e de outros em desenvolvimento.
Assim as correntes religiosas fundamentalistas sunitas nascidas na Península da Arábia no fim do século 18 se foram espalhando pelos países islâmicos.
Na generalidade dos países árabes do médio oriente tornados independentes depois Primeira Grande Guerra os governos passaram também a defender, com maior ou menor convicção, a equidistância política entre os EUA e a União Soviética, a igualdade pol´´itica e social entre homens e mulheres, a generalização do ensino a toda a população, a liberdade de religião, políticas de desenvolvimento social e económico conduzidas pelo Estado, que foram entendidas pelos EUA como perigosa aproximação à política soviética.
Os EUA não toleraram essas ousadias. Para as combater a CIA estimularam a construção das mesquitas de orientação fundamentalista com financiamento da Arábia Saudita para fanatizar as massas urbanas mais pobres e as levar a combater os regimes políticos árabes do Médio Oriente que os americanos olhavam com suspeição, como o de Nasser no Egipto, de Cadáfi na Líbia, dos partidos Baad na Síria e no Iraque para divulgação do fundamentalismo islâmico e da OLP na Palestina, onde os judeus sionistas se instalaram com a conivência do governo inglês na sequência da Declaração Balfour de 1916 e em 1948 expulsaram da maior e melhor parte da Palestina quase toda a população palestiniana. Depois da concentração do poder político e do religioso na Arábia o emir saudita, após a Primeira Grande Guerra, quando se tornou independente grande parte do território da península arábica sob o seu domínio, assumiu a realeza com poderes semelhantes aos do profeta fundador do Islão e dos califas que lhe sucederam. Passaram desde então os reis sauditas a tomar medidas radicais contra tudo o que se passou a considerar infracção à pureza primitiva do Islão, aspirando a comandar a unificação política da Umma (comunidade de todos os crentes muçulmanos) com obediência a centro político e religioso único; a aspirar à conversão de todo o mundo ao islamismo, incluindo por força se não aceite voluntariamente; a combater as práticas islâmicas de todos os ramos islâmicos xiitas e sufitas; a opor-se ao culto de falecidas personalidades islâmicas veneradas como santas, promovendo activamente a destruição dos seus túmulos em Medina, incluindo do fundador do islamismo, o profeta Muhâmade, dos seus primeiros seguidores e do túmulo de Hussein, descendente do profeta, em Qerbala (o que é considerado sem perdão pelos xiitas por ser neto do profeta e figura tutelar do xiismo).
Os EUA procuraram hostilizar, depois da Conferência de Bandung, os países não alinhados, de preferência por interposto país, considerando, como sempre tendem a fazer, que quem não é por eles é contra eles. Por isso deram apoio não explícito ao Paquistão no conflito com a Índia, estimulando a entrado no Paquistão do fundamentalismo wabita que deu origem aos Talibãs e outros grupos religiosos fundamentalistas e, mais tarde, fecharam os olhos, ou induziram, a transferência para esse país através da Holanda da tecnologia de produção de bombas atómicas, como já haviam feito com Israel através do governo francês. O técnico paquistanês que introduziu no Paquistão a tecnologia da bomba atómica foi Abdul Qadir Khan, nascido em 1936. Estudou na Holanda na Universidade Católica de Luvaina e em laboratório holandês aprendeu a tecnologia necessária. Integrando a Holanda a NATO, seguramente isso não aconteceu sem conhecimento da CIA.
A corrente política e religiosa wabita considera ser contra o Alcorão, os Hadites e a tradição sunita organizar o poder político com base em normas democráticas, a separação dos poderes político e religioso nos países de religião islâmica, sendo neles dever dos que os governam aplicar castigos corporais por crimes, mesmo por factos que na generalidade dos países não são crime, com amputação de membros, chicotadas e morte por apedrejamento. Obriga à separação das mulheres dos homens na vida pública. Impõe o uso em público do vestuário e dos comportamentos tradicionais, o que é severamente vigiado por polícia de costumes. As correntes islâmicas integristas, como a dos talibãs, opõem-se a que as mulheres sejam escolarizadas, com reacção violenta contra quem não respeita essa interdição religiosa. Destroem as escolas que ensinam raparigas e, nalguns casos, nomeadamente no Paquistão, procuram assassinar as que as frequentam como aconteceu com a jovem Malala que foi baleada por militantes talibãs em 9 de Outubro de 2012.
Os reis Saude sempre pretenderam alargar além da Arábia essas e outras práticas condenadas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas sob o olhar benévolo e em alguns casos estimulador dos EUA. Para isso financiam a construção de mesquitas e a de madraças (escolas corânicas) em que é ensinada e pregada a corrente religiosa islâmica fundamentalista wabita e de inspiração wabita. Para manter influência sobre os emigrantes de religião islâmica também financiam a construção de mesquitas nas grandes cidades dos países não islâmicos onde há número significativo de muçulmanos imigrantes, impondo pregadores vindos da Arábia Saudita que divulgam o wabismo e contrariam a integração nas comunidades não islâmicas em que vivem sobretudo por proibição das mulheres trabalharem fora de casa. Por vezes usam a violência para impor os seus valores mesmo contra não muçulmanos.
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