António Bica
A Origem do Fundamentalismo Islâmico

Como já foi escrito na Gazeta o fundamentalismo islâmico nasceu na península arábica nos fins do século 18. Foi criado pelo religioso Muhammad Wabi que viveu junto ao oásis de Riad, onde vivia pequena tribo árabe dirigida por Muhammad Saud.
Muhammad Wabi, reflectindo sobre as razões por que o Médio Oriente islâmico perdera, desde o século 16, riqueza e poder, concluiu que resultara de ter deixado de cumprir com rigor e à letra o Corão, as práticas e os ensinamentos atribuídos ao profeta Muhammad e transmitidos pela tradição e os costumes sociais seguidos no início do islamismo, no século 7, com relevo para a segregação das mulheres, não lhes permitindo andar fora de casa com a cara descoberta e sem acompanhamento de um familiar do sexo masculino, nem em casa aparecer sem véu diante de homem não familiar. Às mulheres não era permitido sair de casa senão cobertas. No interior de casa eram confinadas a espaço próprio, para que não contactassem com estranhos.
Estes costumes não eram seguidos só pelos árabes islâmicos. Os outros povos do Médio Oriente observavam costumes semelhantes, recomendando São Paulo nas Epístolas a obediência da mulher ao homem e que nas assembleias se mantivessem caladas.
Estes costumes de inferiorização social das mulheres passaram para as práticas religiosas cristãs, que sempre interditaram às mulheres funções sacerdotais, como hoje, nas missas as punham, até meio do século 20 nas zonas rurais, separadas dos homens e atrás deles e lhes era imposto o uso de véu na igreja. Nas aldeias portuguesas, até então, as mulheres no espaço público sempre usavam lenço a cobrir a cabeça.
O religioso Muhammad Wabi, talvez porque não estudara História, não sabia que a razão por que o Médio Oriente árabe islâmico, que fora rico até ao século 16, perdera a sua riqueza e o desenvolvimento cultural e poder político fora o descobrimento pela Europa do caminho marítimo para a Índia e China, no fim do século 15, no que foram pioneiros os portugueses.Já no império romano, há cerca de 2.000 anos, chegavam à Europa mercadorias da Índia e da China muito estimadas nesta parte do mundo. Porque eram transportadas no dorso de camelos e tinham que passar por várias entidades políticas, onde pagavam imposto de trânsito, chegavam por preços muito elevados.Por essa razão a Europa, depois das invasões bárbaras germânicas, pelos séculos 5 e 6, que fizeram cair o império romano e da sua posterior organização em vários Estados ligados pela religião cristã, passou a ambicionar abrir caminho para o Oriente para trazer as mercadorias que ambicionava. Tentou-o, sob pretexto religioso, com os Cruzados do fim do século 10 ao do século 13, mas sem sucesso.
A partir da chegada de Vasco da Gama à Índia, primeiro os portugueses, logo seguidos pelos franceses, os holandeses e os ingleses, as cobiçadas mercadorias do Oriente, pimenta, canela, cravo da Índia, porcelana, chá e muitas outras deixaram de transitar pelo Médio Oriente árabe e islâmico, passando a chegar à Europa a preços cada vez mais baixos.
O chefe religioso Muhammad Wabi não sabia isto. Porque o não sabia, atribuiu o declínio económico e consequentemente cultural e político do Médio Oriente árabe e islâmico ao abandono do cumprimento à letra dos preceitos religiosos do tempo do profeta Muhammad e dos costumes de segregação social das mulheres e ao abandono pelos muçulmanos da unificação do poder político com o religioso na mesma pessoa, que foi primeiro o profeta e depois os sucessores dele, os califas, a quem passou a caber todo o poder político e religioso sobre os seguidores do islamismo em qualquer parte do mundo.
O chefe da tribo do oásis de Riad, na península arábica, Muhammad Saud, deu apoio a Muhammad Wabi. Pela morte de Wabi assumiu na tribo que chefiava também o poder religioso, concebendo o desígnio de iniciar o caminho para unificar todo o mundo islâmico, a umma, sob um só poder político e religioso, admitindo que, se estendesse progressivamente o seu poder por anexação de outras tribos, até incluir os territórios de Meca e Medina, poderia, querendo Alá, o califado vir a ser reconstituído e o poder nele ser assumido pela sua linhagem, a família Saud.
Iniciou esse longo caminho com a imposição rigorosa na tribo que governava do fundamentalismo islâmico que pregava Muhammad Wabi. Procurou convencer as tribos vizinhas a unir-se à de Riad, aceitando a sua chefia. Com as que não convenceu agiu, como recomenda o profeta, por persuasão e, se não resultasse, pela força.
Assim a casa Saud foi progressivamente alargando o seu domínio político e religioso até incluir Meca e Medina, os dois principais centros religiosos islâmicos.
A primeira guerra mundial, de 1914 a 1918, favoreceu as ambições da casa Saud. Até então a Turquia, que dominava o Médio Oriente até ao Egipto, entrou na guerra ao lado do império alemão e do austríaco. A Inglaterra e a França, que eram aliadas na guerra, projectaram a conquista do largo território entre o Egipto e a Turquia e a sua divisão entre elas. Para o conseguir sem significativa deslocação de tropas da frente da Flandres, os ingleses infiltraram os seus serviços secretos junto da casa Saud e de outros chefes tribais da região, entregando a chefia ao conhecido Lawrence da Arábia sob disfarce de arqueólogo. Desempenhou bem a função com promessa aos chefes tribais de autonomização da Síria, do Líbano, da Arábia, da Jordânia e do Iraque, ficando a Palestina para ser entregue aos judeus conforme lhes fora prometido pelos ingleses pela declaração Balfour.Os ingleses arrastaram os pés quanto à independência do Iraque e da Arábia Saudita para previamente fazer a ocupação económica deles pelas suas grandes empresas, sobretudo as petrolíferas. Para isso retiraram ao Iraque e à Arábia Saudita, esta governada pela família Saud, os territórios em que então se sabia haver petróleo – o Kuwait, retirado ao Iraque, e os restantes emirados do Golfo Pérsico, retirados à Arábia Saudita.
Porque os EUA tinham entrado na primeira guerra mundial, embora tarde, exigiram controlo de território no Médio Oriente. A Inglaterra, convencida de que a Arábia Saudita era deserto salpicado de alguns escassos oásis, depois de retirados dela e do Iraque os territórios que se sabia terem petróleo, entregou-a aos EUA.
Veio a conhecer-se depois que a Arábia Saudita tem muito petróleo no subsolo. Com o grande desenvolvimento industrial a partir da primeira guerra mundial com utilização crescente de petróleo e o decorrer da segunda guerra mundial revelou-se a importância estratégica do petróleo. O presidente dos EUA negociou então, em 1945, com a casa Saud, não interferir na política interna da Arábia Saudita em troca da abertura da exploração de petróleo saudita aos interesses das grandes empresas estadunidenses e de o vender aos EUA em condições semelhantes à de venda a outros países.
Desde então os EUA têm respeitado esse acordo. Apesar da Arábia Saudita ser férrea e desumana ditadura política e religiosa, serem correntemente aplicadas nela penas físicas por diversos crimes como furto, adultério, crítica à religião, homicídio e outros, de ser proibida qualquer outra religião no país além do islamismo, de as mulheres terem que andar na rua tapadas, não poderem conduzir automóveis, andar no espaço público sem acompanhamento de familiar masculino, nunca os EUA expressaram crítica a essas práticas, apesar de elas afrontarem a Declaração Universal dos Direitos do Homem. Muito menos reclamaram pelo fim da ditadura política e religiosa na Arábia Saudita.
O fundamentalismo islâmico wabita não ficou confinado à Arábia Saudita. Se a Gazeta da Beira disponibilizar espaço, poder-se-á em próximo número abordar o seu alargamento a outros países islâmicos e às principais cidades dos países não islâmicos a que tem chegado grande número de emigrantes muçulmanos que os pregadores islâmicos enviados da Arábia pela casa Saud têm radicalizado.
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