António Bica
Os fogos florestais deste passado Verão e as necessárias medidas de reorganização da floresta (3)

No Alentejo os fogos florestais surgem raramente e não queimam grandes áreas senão muito excepcionalmente. A razão por que no Alentejo os fogos florestais são raros e não chegam a grande dimensão está em aí dominar largamente a área de propriedade acima de 100 hectares, os seus cultivadores associarem à floresta a exploração do solo sob o coberto do arvoredo com predomínio de sobreiros e azinheiras, actualmente quase só com pastagem para bovinos, ovinos, porcos de montanheira e alguns caprinos, embora até à década de 1960, como é acima referido, com significativo peso da cultura de cereais (aveia, também cevada e algum trigo) no sobcoberto dos sobreiros e das azinheiras.
Por isso a altura dos matos é nesses terrenos controlada para haver pastagem para os gados no sobcoberto do arvoredo, sendo abertos anualmente aceiros pelo fim da primavera nas estremas dos prédios e também no seu interior. Os aceiros são limpos de vegetação em regra por meios mecânicos com lavoura superficial, porque os terrenos são em geral pouco inclinados e com raros afloramentos rochosos.
Se a organização da produção florestal a norte do Tejo e na serra algarvia possibilitar acções de prevenção dos fogos florestais semelhantes, também nessas regiões os fogos florestais deixarão de ser o flagelo que são actualmente.
As causas directas dos fogos são o desleixo nas queimadas, cigarros lançados sem ser apagados, o ateamento para renovar pastos pelos poucos pastores das áreas de serra do interior norte e centro em terrenos não usados pelos seus donos e nos baldios, por negociantes de madeiras que procuram criminosamente lucrar na compra de árvores queimadas, e outros criminosos por outras razões múltiplas, frequentemente desequilíbrios psicológicos.
Sendo o centro e o norte pluviosos no Inverno e tendo raízes profundas o arvoredo florestal há boas condições para produção de floresta desde que os fogos a não destruam. É necessário para isso criar condições para os fogos florestais não se desenvolverem facilmente, e, se eclodirem, poderem ser dominados sem queimar grandes áreas e sobretudo sem pôr em risco vidas humanas, casas e outras edificações.
O desenvolvimento da floresta no norte e centro do país é difícil ou impossível se se continuarem a queimar anualmente muitos milhares de hectares de arvoredo florestal e de mato arborizável. É necessário tomar medidas preventivas eficazes que dificultem a progressão dos fogos e facilitem a sua eficaz e pronta extinção se se quiser ter floresta em Portugal.
Como as condições favoráveis aos fogos florestais resultam principalmente do desenvolvimento dos matos, haverá que agir de modo a evitá-lo. Mas os donos dos terrenos florestais e a mato, que são em regra de área reduzida a norte do Tejo, não têm condições económicas para manter os matos roçados, ou por outros meios o seu crescimento controlado, dado que pouco resta da pequena agricultura de subsistência que mantinha a altura dos matos controlada por pastoreio dos muitos rebanhos familiares, por roça do mato para a cama dos gados e a fertilização das terras de lavoura, por apanha de lenhas para os fornos de pão e as lareiras familiares, com a extracção das torgas das urzes arbustivas para se fazer carvão para as forjas dos ferreiros das aldeias e queimar nos fogões das vilas e das cidades e a apanha de carqueja para se vender em pequenos molhos para acender esses fogões.
Para que não haja fogos no centro e norte do país é preciso que os matos sejam mantidos em desenvolvimento reduzido, o que, na falta de gado que o paste, tem que ser feito por roça periódica. Mas o corte do mato a norte do Tejo é em regra dispendioso, porque na maior parte das áreas onde cresce não é possível o uso de meios mecânicos de bom rendimento em consequência do forte declive dos terrenos e dos frequentes afloramentos rochosos. O corte manual, mesmo por pequenas roçadoiras de dorso a motor, é muito oneroso. O modo mais económico de o fazer é por suficiente adensamento do arvoredo florestal de modo que a sombra impeça o mato de se desenvolver (fazendo-se o corte do mato até isso acontecer), ou por conjugação da floresta com pastoreio, sendo o gado acompanhado por cães pastores com ocasional vigilância humana em cooperação (sistema de vezeira, ou adua), sendo os animais confinados em cercas de área adequada e com abeberamento nas aldeias onde ainda haja gado miúdo ou a população quiser reiniciar essa actividade, o que pode não ser fácil, que dificilmente se contratam trabalhadores para seguir os rebanhos em horário completo por salários compatíveis com a economia da exploração pecuária. Quer no caso de se adensar o arvoredo florestal, para que a sua sombra não deixe desenvolver no sobcoberto florestal, a vegetação arbustiva, quer no da silvopastorícia até as árvores fugirem ao dente do gado, também é necessário eliminar o mato por meios mecânicos, o que tem que ser feito durante 20 a 25 anos.
Para que os fogos florestais possam ser em prazo médio contidos e melhor combatidos a norte do Tejo e na serra algarvia, é preciso que o poder público invista sobretudo em faixas cortafogos a criar sobretudo nas cumeadas e na proximidade dos núcleos populacionais por eliminação ou corte raso da vegetação rasteira em faixa suficientemente larga, entre 50 m e 100 m de largura, de acordo com as características do terreno e desenhadas de modo a poderem ser mantidas limpas de preferência por meios mecânicos, com prioridade por roça, com exclusão de fogo, fazendo limpeza delas pelo fim da primavera. As faixas cortafogos e os pontos de água deverão têm como fim facilitar o combate aos fogos em floresta e em mato de modo a reduzir a área ardida se o fogo eclodir em circunstâncias favoráveis a devastar grandes áreas, que são as de tempo com temperaturas acima dos 30 graus, humidade baixa e vento forte.
Haverá que evitar no controlo do desenvolvimento dos matos e da vegetação herbácea o recurso à mobilização do solo onde o declive for maior, por contribuir para a sua erosão, e a fogo controlado pela mesma razão e por destruir a flora e a fauna das áreas em que é usado, afectando o desenvolvimento das espécies arbóreas.
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