António Bica
A arrogância do governo alemão de direita contra outros países da União Europeia
A Alemanha, depois do esforço financeiro para integrar, sem adequado período de transição, o território da RDA, refreara fortemente desde o ano 2000 os aumentos salariais. O economista Nicolau Santos entrevistou Roland Berger da “Roland Berger Strategy Consultants” para o caderno “Economia” do jornal Expresso de 23/6/2012, página 5. Roland Berger referiu na entrevista que “na década de 2000 (…) a economia alemã (…), procedendo a um conjunto de reformas (…), começou a dar notáveis resultados”. Em consequência, segundo é referido no mesmo caderno, na Alemanha os salários cresceram de 2000 a 2012 pouco mais de 12%, percentagem menor do que a inflação no mesmo período, enquanto na França subiram 20,8%, na Espanha 28,6% e na Itália 32,5%.
Por isso a balança comercial alemã, na década de 2000 a 2010, foi positiva em cerca de um milhão de milhões de euros, continuando actualmente a ter saldo fortemente positivo. O saldo positivo da balança comercial alemã passou anualmente para 7% do seu PIB, o que obrigou a Comissão Europeia a anunciar timidamente, em Novembro de 2013, ir desencadear procedimento para que a Alemanha tome medidas para que o seu saldo desça para o máximo de 6%, que corresponde ao limite considerado aceitável pelas regras europeias para que se mantenham os equilíbrios macroeconómicos da zona euro. Mas a Comissão Europeia não tomou a iniciativa nem a irá tomar, que a Alemanha impõe-se na União Europeia como a sua grande patroa. Esse dinheiro acumulado na Alemanha não foi, em grande parte, investido em actividades produtivas, mas aplicado principalmente nos países europeus da zona euro em títulos financeiros sucessivamente comprados e vendidos na busca de incremento do dinheiro aplicado. Se a Alemanha resistir a tomar medidas necessárias para baixar o saldo da sua balança comercial, que serão as adequadas a levar ao aumento da procura interna alemã, o que terá que ser feito por aumento dos salários e dos investimentos públicos, essa resistência dificultará os países do euro com maior desequilíbrio das suas dívidas públicas e balanças de pagamento a beneficiar de maior procura das suas mercadorias por parte da economia alemã.
Em alternativa a adequada medida para na Europa do euro se estimular a procura interna seria política monetária de criação de moeda, nomeadamente para comprar títulos de dívida pública dos países do euro, do que resultaria aumento da inflação, isto é a desvalorização do euro. Mas grandes empresas e os cidadãos mais ricos da Alemanha opõem-se firmemente a que o BCE crie moeda. Não lhes convém que o euro desvalorize, que a Alemanha não precisa da desvalorização para manter o nível das suas exportações e porque, se o euro desvalorizar, as grandes empresas e os cidadãos mais ricos da Alemanha verão a enorme riqueza por eles acumulada em dinheiro e aplicada em especulações financeiras diminuir na proporção da desvalorização.
Por outro lado, os países da zona euro, incluindo a Alemanha, aparentam ter vontade, embora não admitida expressamente, de conferir ao euro o estatuto de moeda de pagamento internacional com peso semelhante ao que tem o dólar dos EUA, mesmo que só posteriormente isso vier a ser reconhecido pelo direito internacional. É admissível que tenha sido com esse objectivo que no tratado da União Europeia com as alterações resultantes de tratados posteriores, incluindo o de Lisboa de 2007, se tivesse previsto (nos artigos 282, 127 a 133, 219 – actual numeração): “O objectivo primordial do sistema europeu de bancos centrais é a manutenção da estabilidade dos preços” (artigo 282, nº 2). A Alemanha, embora acompanhada por alguns outros países do euro com balança de pagamentos externos excedentária, não considera por isso aceitável a criação directa de moeda pelo BCE para comprar títulos de dívida pública dos Estados da zona euro. O presidente do banco central da Alemanha, em entrevista ao jornal “Público” de 15 de Junho de 2012, páginas 2 e 3, defendeu a redução nominativa dos salários em Portugal (página 3, 1ª coluna). No mesmo jornal, página 4, Jens Weidmann, que foi conselheiro do governo alemão e integra o conselho de governadores do BCE, afirmou repetidamente em entrevista: “O objectivo primordial para o eurossistema é manter a estabilidade dos preços”; “O nosso objectivo é a estabilidade dos preços”; “No conselho de governadores do BCE temos de assegurar a estabilidade dos preços”.
Essas serão as razões fundamentais da crise do euro e da recusa da Alemanha a criar-se moeda para financiar os orçamentos dos Estados da zona euro que não conseguem o financiamento no mercado a juros comportáveis para as suas finanças públicas.
Demonstrando essa atitude arrogante como guarda dos grandes acumuladores de riqueza em dinheiro na Alemanha, o seu ministro das Finanças Schauble, em conferência de imprensa de 8 de Junho de 2016, respondeu a jornalista que o questionou sobre o grave desequilíbrio das contas do banco alemão Deutsche Bank: “Portugal pediu novo programa de assistência financeira”. Em 9 de Junho de 2016 a difusora de notícias financeiras mundiais Bloomberg deu grande destaque à declaração, que foi repetida no dia seguinte pela agência Reuters e outras.
Schauble fez esta declaração falsa, alarmista e gravemente prejudicial para Portugal, procurando desviar a atenção mundial da grave situação das contas do grande banco alemão Deutsche Bank. Esse desequilíbrio das contas do Deutsche Bank foi recentemente declarado pelo banco central dos EUA (Reserva Federal) e confirmado pelo FMI, que considera que esse banco apresenta grandes riscos para o sistema financeiro mundial.
O Deutsche Bank declarou prejuízo em 2015 de 6.800 milhões de euros; está acusado nos tribunais de graves actos de manipulação da taxa Libor (taxa média de crédito em libra inglesa) e da Euribor (taxa média de crédito em euros); e havendo séria dúvida sobre a sua capacidade de pagar 1.750 milhões de obrigações por ele emitidas e vendidas.
Assim Schauble, o raivoso ministro alemão das Finanças, atirou com notícia redondamente falsa contra Portugal, com sério risco de fazer agravar os juros da dívida pública portuguesa, para distrair a atenção da imprensa financeira internacional com essa cortina de fumo e assim procurar evitar prestar esclarecimentos sobre a gravíssima situação financeira do Deutsche Bank.
Assim desavergonhadamente Schauble defende os interesses dos grandes acumuladores alemães de enorme riqueza em dinheiro. Em vez disso deveria o governo alemão, como impõem as normas financeiras do euro, pôr em prática políticas de aumento interno de salários e de investimentos públicos para reduzir os seus enormes excedentes comerciais anuais e aumentar a importação de mercadorias e serviços dos outros países da União Europeia, contribuindo desse modo para melhor equilíbrio das balanças comerciais dos países do euro.
A Alemanha, que sempre quis, desde a última parte do século 19, dominar política e economicamente a Europa por via militar, está agora, depois do colapso da União Soviética, a querer dominar os países da Europa impondo-lhes as políticas económicas e monetárias que mais interessam às grandes empresas alemãs.
Apesar da União Europeia ter sido criada com base em princípios de solidariedade entre os países que a constituem a Alemanha, determinada pelos interesses do seu enorme capital financeiro, está a impor o esquecimento desses princípios e a contribuir para que a laboriosa, frágil e inovadora construção da União Europeia se possa desmoronar com prejuízo para a Europa e o mundo.Redação Gazeta da Beira
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