António Bica

Emigração na década de 1960 (parte 2)

Este texto, “Algumas questões da agricultura portuguesa. A progressiva desertificação humana nas áreas de economia agrícola dominante do norte e centro do país”, está subdividido em 17 pontos, pelo autor, António Bica.

Na sequencia da publicação da 1ª parte deste artigo, na Gazeta da Beira nº696 de 12/05/2016, continuamos, para facilitar a leitura do texto, e uma vez que se trata de um artigo extenso, por mais 16 partes

“Algumas questões da agricultura portuguesa. A progressiva desertificação humana nas áreas de economia agrícola dominante do norte e centro do país” (parte 2)

Emigração na década de 1960 

Na década de 1960 muitos habitantes do interior norte e centro emigraram para França e outros países com consequente redução das áreas de terras de lavoura. São possíveis medidas para contrariar a desertificação humana

Na mesma década de 1960 e a partir dela, a fertilização das terras passou gradualmente a deixar de ser feita com estrume curtido nos currais do gado, que foi sendo substituído por adubos. E a lenha para cozinhar e fazer o pão foi substituída pouco a pouco por gás. Em consequência o mato passou a desenvolver-se na serra sem controlo, tornando-se cerrado e com altura de cerca de 2 metros. Com o mato assim desenvolvido os habitantes locais deixaram de poder combatê-lo com os seus meios, ficando a tarefa a cargo dos bombeiros que na maior parte dos casos se limitavam à defesa das construções urbanas.

Actualmente os habitantes do interior norte e centro quase não tiram proveito da serra para pastorear o gado, não roçam mato para os currais do gado e não estão certos de que as árvores dos seus terrenos não ardam nos próximos fogos, que se sucedem em períodos de 8 a 10 anos. Depois da queda do regime autoritário e antidemocrático em 25 de Abril de 1974 o acesso ao ensino generalizou-se, o que fez aumentar a saída dos jovens que procuraram fora das suas aldeias o trabalho que aí não encontram. Outro benefício que trouxe o regime democrático em 1976 foi a devolução dos baldios aos povos a que sempre pertenceram. Os poderes públicos, em especial o município, têm o dever de ter em conta que na larga área de serra deve ser protegida a natureza e a sua biodiversidade e produzir-se serviços, madeira e outros bens para benefício da população das aldeias correspondentes.

Na década de 1960 muitos habitantes do interior norte e centro emigraram para França e outros países com consequente redução das áreas de terras de lavoura

Para isso é preciso que se tomem medidas que impeçam ou dificultem muito o desenvolvimento dos fogos florestais; e que se plante floresta nos terrenos a mato, que quase todos podem ser florestados. A maneira adequada e mais económica para prevenir os fogos florestais é adensar a floresta de modo que a sua sombra impeça ou dificulte muito o desenvolvimento do mato entre as árvores. Mas para isso é preciso que as árvores cresçam sem que os fogos as queimem, sendo necessário roçar entre as árvores jovens o mato em intervalos de 3 a 4 anos para que o fogo as não destrua.

Os custos correspondentes são incompatíveis com a economia da floresta nos terrenos de serra, porque a rocha aflora frequentemente o solo, impedindo o corte do mato por meios mecânicos de suficiente rendimento. Nestas circunstâncias não se vê outra solução económica possível senão a atribuição aos cultivadores da floresta de serra de ajudas anuais ao rendimento no âmbito da PAC (política agrícola comum) que se consideram deverem ser de 50 a 100 euros por hectare de terreno efectivamente florestado, em que o mato sob coberto do arvoredo florestal não ultrapasse certa altura que se considera não dever ser superior a 20 a 30 cm.

Se os municípios com área significativa de serra se empenharem em reivindicar junto do governo e da Assembleia da República a atribuição aos cultivadores de floresta de ajudas anuais ao rendimento por hectare de floresta, desde que mantenham adequadas práticas culturais, esses órgãos políticos centrais poderão convencer os órgãos políticos comunitários a alterar em conformidade o regime da PAC. Haverá que ter em conta que o problema dos fogos florestais de Verão não é exclusivo de Portugal. Afecta todos os países de clima mediterrânico, que são a Espanha, a Itália, Chipre, Malta, o sul de França e a Grécia. Para que se possa impor aos países do norte da União Europeia, onde não há fogos florestais, a atribuição de ajudas anuais aos cultivadores da floresta mediterrânica, será necessário concerto prévio com os países mediterrânicos da União Europeia para apresentar a medida em conjunto nas negociações da PAC (política agrícola comum) e desse modo a fazer aprovar.

Como esta medida não será tomada senão a longo prazo mediante formação da correspondente vontade política ao nível dos órgãos políticos centrais do país e a seguir dos restantes países mediterrânicos, haverá que no tempo imediato, a nível local e nacional, tomar medidas preventivas de menor custo, embora menos eficazes, dos fogos florestais.

Essas medidas poderão consistir em manter anualmente, ou de 2 em 2 anos, os terrenos de floresta e mato a norte do rio Tejo limpos de vegetação arbustiva em faixa com suficiente largura (talvez de 100 metros) onde o fogo não progrida facilmente e possa ser combatido sem dificuldade nem risco. Essas faixas poderão ser implantadas de modo que as áreas contínuas sem limpeza regular do mato circundadas por elas tenham superfície entre 100 e 200 hectares. Assim, em caso de incêndio florestal, diminuirá muito a probabilidade de o fogo progredir para além de cada mancha de floresta e mato circundada pelas faixas limpas de mato. Os custos com a manutenção dessas faixas limpas de mato poderão ser cobertos por financiamento de projectos a elaborar e executar pelas organizações florestais de nível concelhio ou regional em colaboração com as ZIFs e as administrações dos baldios.

Os municípios poderão estimular e planear essas acções e manter, melhorar e adensar a rede de caminhos florestais de modo a facilitar o trânsito dos meios de combate aos fogos florestais.Redação Gazeta da Beira

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