ANTÓNIO BICA

O UNIVERSO DE QUE SOMOS PARTES (15)

Os colectivos humanos foram criando religiões a legitimá-los e a explicar o universo. As religiões evoluíram para o monoteísmo no caminho da racionalização

Porque os humanos integram o universo e são parte ínfima dele, não parece que algum dia possam compreendê-lo, que compreender corresponde a abarcar e de alguma forma ser superior ao objecto da compreensão. Por lógica matemática estará vedado aos humanos, sendo parte ínfima do universo, o pleno conhecimento dele. Porque são capazes de raciocínio abstracto, isto é de, com base no que observam, construir hipóteses daquilo que não são capazes de observar, esperando vir a observá-las, ou passando a afirmar que o assim hipotizado é realidade, os humanos constroem mitos, isto é factos hipotizados a que aderem emocionalmente, sendo transmitidos dentro do colectivo pelas suas estruturas de poder e passando assim a integrar os seus valores culturais, que incluem os religiosos.

Embora se entenda que o melhor percurso de cada humano para o autoconhecimento, a harmonização consigo mesmo e os outros humanos, o relacionamento equilibrado com os demais seres vivos e todo o universo se constrói pelo progressivo avanço no conhecimento das leis naturais que regulam o universo com tudo o que o integra, incluindo os humanos e os demais seres vivos, não se pode deixar de ter em conta que as religiões desempenharam para isso função decisiva e continuarão por muito tempo a desempenhar. Entre as religiões que mais contribuíram para isso estão as monoteístas, e, entre estas, as chamadas proféticas que atribuem os valores e normas que seguem a palavra de deus único ditada por mensageiros ou profetas.

Como se referiu nos capítulos anteriores o caminho para prevenir a autodestruição da espécie humana será progredir no conhecimento das leis naturais por que se organiza o universo com os seres vivos e as múltiplas espécies em que se agrupam, incluindo a humana.

Mas a aquisição de espírito científico pela generalidade dos indivíduos de que se compõe a espécie humana será longo caminho de muitas gerações, mesmo que se assegure razoável escolarização a todos os jovens e em todo o mundo.

Nas religiões, como no primeiro capítulo se referiu, assentaram, durante quase todo o tempo passado, as únicas formas de compreensão do universo por explicação mítica a que os humanos eram e continuam a ser chamados a aderir emocionalmente, não por fundamentação racional. Nos valores religiosos derivados dos correspondentes mitos sempre assentou a cultura dos colectivos humanos que integram a humanidade e ainda hoje assenta para a generalidade dos indivíduos, apesar do significativo avanço para cultura de racionalização. A explicação religiosa do universo é fundada em bases míticas. Por isso a adesão a ela é emocional, não racional, tendendo a perdurar por toda a vida do humano que a ela aderiu. A generalização de cultura de racionalização ser muito longa no tempo. Haverá que deixar que o alargamento a todos os humanos da escolaridade e do tempo por que é assegurada venha a generalizá-la. A tomada de medidas nos colectivos humanos para impor cultura de racionalização é politicamente inaceitável, porque violenta a identidade cultural dos indivíduos contra que forem dirigidas, afectando o seu equilíbrio psicológico. É acção tão inaceitável como forçar alguém a abandonar religião a que tenha aderido, ou a aderir a religião que rejeite.

Por essas razões, sendo largamente dominante a cultura baseada nas religiões, é necessário conhecimento suficiente delas, nomeadamente das monoteístas, que são religiões com alguma concessão à racionalidade, sendo seguidas por cerca de 3.450 milhões de humanos, quase metade da população da Terra. Deste número cerca de 2.100 milhões são cristãos, 1.300 milhões islâmicos, 25 milhões siks e 15 milhões judeus.

Não conhecemos as múltiplas construções religiosas que os diversos colectivos humanos criaram e que com eles desapareceram ao longo da centena de milhares de anos que esta espécie humana (homo sapiens) existe, embora se conheçam as religiões de muitas tribos que sobreviveram até à idade moderna e as de estados que sucederam à organização tribal nas regiões onde mais se desenvolveu a produção agrícola e o comércio.

Como já se referiu as religiões tribais caracterizam-se por os seus deuses serem apenas das tribos correspondentes ou de grupos tribais afins. Isso corresponde ao seu entendimento de que não há igualdade humana entre os indivíduos de tribos distintas salvo se forem afins, isto é descendentes de tronco comum, mesmo que distante. Dessa concepção decorrem regras de defesa da individualidade de cada tribo, que tendem a ser rigidamente impostas. Cada tribo, em regra, só reconhece a sua autoridade tribal, não autoriza o casamento senão de acordo com as normas tribais, tem ritos próprios obrigatórios para a entrada na idade adulta e por vezes regras alimentares rígidas

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