António Bica

O UNIVERSO DE QUE SOMOS PARTE (13)

Reflexões do falecido José Pereira sobre a vida e o mundo em manuscrito que me foi confiado

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A HIPÓTESE DE UNIVERSO TER ORIGEM EM EXPLOSÃO INICIAL É CADA VEZ MAIS SEGUIDA, MAS É ADMISSÍVEL O UNIVERSO NÃO TER LIMITE NO TEMPO E NO ESPAÇO SEMPRE RECICLANDO A MATÉRIA DE QUE SE COMPÕE

 

Ryle estudou Física, tendo trabalhado depois de 1939 no desenvolvimento de radares para a Força Aérea inglesa destinados a detectar a aproximação dos aviões alemães que durante a Segunda Guerra Mundial bombardeavam as cidades, as instalações militares e as vias de comunicação da Inglaterra. Acabada a guerra Ryle usou os equipamentos de detecção de ondas electromagnéticas da banda rádio (entre alguns milímetros e centenas de metros), anteriormente destinados a fins militares, para observar os corpos celestes de muito fraca luminosidade. Ao fazê-lo verificou que frequentemente emitem intensas ondas electromagnéticas da banda rádio.

Pouco depois Walter Baade do Observatório do Monte Palomar, nos EUA, observou que o ponto luminoso da constelação Cisne designado por A já antes detectado por Ryle era fonte de ondas rádio. Verificou que esse ponto luminoso correspondia a mais de 200 galáxias agrupadas à volta de outra central mais brilhante. As galáxias predominantemente emissoras de ondas rádio passaram por isso a ser designadas radiogaláxias.

Posteriormente Ryle investigou metodicamente a existência de outras radiogaláxias confirmando a existência de pelo menos 5.000. Estes astrónomos consideraram que a emissão de ondas electromagnéticas da banda rádio pelas radiogaláxias corresponde a alargamento das ondas de comprimento inferior por elas emitidas (incluindo as ondas luminosas) que desse modo, pelo alargamento, passam a ondas rádio. Concluíram por isso que as radiogaláxias se situam a muito grande distância da Terra, distanciando-se a enorme velocidade dela, tendo sido formadas pouco depois da explosão inicial (big bang) originadora do universo. As observações foram consideradas grande vitória dos físicos defensores da teoria da explosão inicial originadora do universo, aumentando o número dos físicos que passaram a segui-la.

Em 1963 o astrónomo Maarten Schmidt, dos EUA, ao observar uma das fontes de ondas rádio identificada por Ryle, verificou ser muito mais intensa do que as provenientes de radiogaláxias. Por telescópio óptico viu que emitia luz com grande desvio para o vermelho. Entendeu que esse desvio correspondia à Terra estar a afastar-se dela a 17.000 km por segundo. Admitiu ser galáxia formada em tempo próximo da explosão inicial (big bang). Por emitir ondas electromagnéticas de grande intensidade foi designada fonte radioastronómica quase estelar, abreviadamente quasar. Pouco tempo depois foram identificados vários outros quasares, considerando-se que se formaram pouco depois do big bang. O descobrimento dos quasares reforçou entre os físicos a aceitação da teoria do big bang como explicadora do universo.

Em 1964 foi considerada ser radiação de fundo de micro-ondas a electromagnética de cerca de 1 milímetro de comprimento de onda detectada pouco antes por Arno Penzias e Robert Wilson, dos EUA. Essa radiação é muito fraca, provindo de todo o Universo com grande uniformidade, embora afectada por muito pequenas variações de intensidade.

Os físicos Gamow, Alpher e Herman defensores da hipótese de explosão inicial (big bang) haviam previsto em 1948, e algum tempo depois também Dicke e Peebles, que as ondas electromagnéticas da banda luminosa emitidas quando terá acontecido a explosão inicial, por se terem originado à máxima distância da Terra, haveriam de ser detectadas com tão grande alargamento de onda que teriam evoluído para micro-ondas. A detecção dessa radiação (radiação de fundo de micro-ondas) foi considerada pelos físicos reforço da credibilidade da teoria do big bang.

Em 1989 foi lançado para o espaço o satélite COBE (Cosmic Background Explorer Satellite) para detectar em condições de mínima interferência por outras fontes a radiação de fundo de micro-ondas observada por Penzias e Wilson. Em 1992 foi anunciado o resultado dessa observação, que confirmou no essencial a de Penzias e Wilson. O grande físico Stephen Hawking saudou-o: “É a maior descoberta do século, senão de todos os tempos.” A generalidade dos físicos passou a considerar que a melhor explicação da origem do Universo é a de explosão inicial (big bang).

Posteriormente foi lançado o satélite WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe). As observações feitas através dele foram publicadas em 2003. Os físicos concluíram então ter a explosão inicial (big bang) ocorrido há 13.700 milhões de anos. Concluíram também ser o Universo composto por 4% de matéria organizada em átomos, 23% de matéria que qualificaram como “escura”, o que significa “de natureza desconhecida”, e 73% de “energia escura”, o que igualmente significa “de natureza desconhecida”. A energia corresponde a matéria segundo a equação einsteineana (E=mc2), significando esta expressão matemática que certa quantidade de matéria equivale em energia à sua massa (peso) multiplicada pelo quadrado da velocidade de luz que é 299.792,5 km por segundo (cerca de 300 mil quilómetros por segundo).

Depois da década de 1990 a observação da luz emitida pelas explosões de estrelas em galáxias levou alguns físicos a deduzir que o universo está a expandir-se a velocidade cada vez maior. Mas a compreensão do Universo não pode considerar-se definitivamente adquirida. O cientista Haldane observou em 1973: “Suspeito o universo ser não apenas mais estranho do que pensamos, mas mais do que podemos imaginar”. E Gamow, um dos primeiros físicos a defender o big bang, perante a impossibilidade de se conceber o suposto “nada” anterior ao big bang escreveu no seu livro “A criação do Universo”: «Perante as objecções ao uso por mim da palavra “criação” há que explicar que a entendo como produção de algo a partir do que é informe». Com isso Gamow parece ter querido distanciar-se do entendimento de que o universo é criação de Deus. Mas, se foi essa a intenção, não deixou de repetir o escrito no Génesis (1:1-2): “No princípio, quando Deus criou o Céu e a Terra, a Terra era caos sem forma nem ordem, e mar profundo coberto de escuridão, o vento fortíssimo soprando à superfície das águas.” Robert Jastrow, no seu livro “Deus e os astrónomos”, referindo-se a ficcionado astrónomo defensor do big bang, ironizou: “Tinha escalado as montanhas da ignorância e estava prestes a conquistar o cume mais alto; eis que, quando se iça sobre a derradeira rocha, encontra grupo de teólogos aí sentados havia séculos.”

Procurando responder à impossibilidade humana de conceber o “nada” anterior ao big bang, têm alguns físicos entendido que o universo actual surgiu de grande expansão que terá sucedido a contracção de universo anterior em consequência da acção da força da gravidade que fizera parar a expansão dele, e depois levar ao colapso seguido da explosão que terá originado o universo actual, considerando a sucessão de contracções e explosões ilimitada no tempo. Outros entendem que ao lado deste universo há número infinito deles (o que designam multiverso) que de modo semelhante se expandem e contraem sem princípio nem fim.

NOTA: A transcrição do escrito pelo falecido José Pereira foi autorizada pela família.Redação Gazeta da Beira

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