António Bica

Cada noite a manhã - A história de Hassã Badredine (continuação)

A lua minguante declinava a meio do céu, quando o rei Xariar acordou e Xerazade recomeçou a história:

O génio masculino elogiou a beleza da filha do vizir do Cairo de nome Gazela no Deserto: « Não há ninguém mais belo debaixo da cúpula do céu.» O génio feminino contestou: « Seguramente não é mais bela que Hassã Badredine.» A discussão tornou-se viva, sem que nenhum reconhecesse as razões do outro. O génio masculino propôs: « Levemos Hassã Badredine para o Cairo. Assim verás quem é mais belo. E poderá ser que, com isso, possamos livrar Gazela no Deserto do castigo do sultão.» A proposta foi aceite e ambos levaram, num instante, Hassã Badredine. Deixaram-no no cortejo do noivo corcunda que se dirigia ao palácio para o casamento imposto pelo Sultão e recomendaram: « Toma esta bolsa cheia de moedas. Põe-te ao lado do corcunda, distribui  moedas sem receio, que não se acabarão, e faz o que o teu coração ditar.»

Hassã Badredine distribuiu moedas generosamente. A prodigalidade e a beleza tornaram-no centro das atenções. Todos pensaram que  era o noivo e o corcunda seu criado. Na sala, onde ia ser celebrado o casamento, Gazela no Deserto levantou o véu e, vendo Hassã Bandredine, o coração de ambos rendeu-se.

Os génios deram ao corcunda grande dor de barriga, que o fez correr para as latrinas do palácio. A autoridade que havia de celebrar o contrato do casamento, convencida de que Hassã Badredine era o noivo, perguntou a Gazela no Deserto: « É de tua vontade casar com este jovem?» Ela não hesitou em responder que sim e foram ligados pelo contrato de casamento.

Na sala todos se alegravam com a beleza e a juventude dos noivos e tomaram a informação de que a noiva se casaria com um corcunda como ironia. O génio masculino fechou o corcunda na latrina e apareceu-lhe em forma de leão furioso, dizendo:

« Mete a cabeça no buraco da latrina e não saias daí sem que te venha buscar. Se não me obedeceres, despedaço-te.» Ficou tão assustado o pobre corcunda, que meteu a cabeça no buraco e ficou de cu para o ar à espera do leão.

Ao casamento seguiu-se o banquete, os cantos e as danças. Quando todos se renderam ao cansaço e abandonaram a festa, os noivos foram para a cama nupcial e aconteceu o que tinha que acontecer. Longamente na noite dançaram, sem se magoar, a dança do amor. Pelo romper da alva ambos dormiam e dentro das coxas de Gazela no Deserto germinava a vida. O poeta não se enganou quando escreveu:

« Não fez Deus nada mais belo / que o acto da geração, / se nele não há violência, / mas mútuo consentimento.»

O corcunda continuava nas latrinas, a respirar os odores nauseabundos, cheio de medo do leão e sem se mexer.

O génio feminino disse, sobre a madrugada, para o génio masculino:

« Penso que podemos concluir que Hassã Badredine não é inferior nem superior em beleza a Gazela no Deserto. Ambos são de beleza inexcedível. Cumpriu-se também o que pretendias, que era impedir que a filha do vizir Chansedine fosse dada em casamento ao corcunda por capricho do sultão. Devemos voltar a pôr Hassã Badredine, enquanto dorme, em Bássera.»

Levaram o jovem, mas, porque o sol se levantou antes de chegar a Bássera, deixaram-no às portas da cidade de Damasco de frescas águas. Quando as portas da muralha se abriram e os damasquinos começaram a entrar e a sair, comentaram entre si ao ver Hassã Badredine adormecido  em roupa de dormir: « Que lhe aconteceu? Certamente bebeu até a noite ser velha e adormeceu aqui!» Juntou-se rapazio à volta de Hassã Badredine e acordaram-no com chufas, julgando-o embriagado  ou madraço e por estar em roupa de dormir. Disse o poeta:

« O rapazio mais parece, / quando todos se juntam, / um bando de diabos / a atormentar os infelizes / sem conhecer compaixão.»

Hassã  perguntou onde era o palácio da filha do vizir com quem tinha casado. Responderam-lhe que estava doido varrido, que o governador de Damasco não tinha filhos. Ficou confuso, duvidando de estar no seu juízo. Entrou na cidade a fugir do rapazio, até que um pasteleiro compadecido, chamado Abdalá, o abrigou na loja e correu com os rapazes. Contou-lhe a sua vida. O pasteleiro, depois de o ouvir sem dele duvidar, recomendou-lhe: « Não repitas a tua história, porque te não darão crédito e terás dificuldade em viver do teu trabalho. Não tenho filhos. Se aceitares ficar comigo, ensinar-te-ei a arte e serás como filho para mim.»

Hassã Badredine em pouco tempo aprendeu a arte de pasteleiro e começou a fazer doçaria à maneira de Bássera, lembrando-se de como a mãe a fazia. Pouco a pouco a pastelaria de Abdalá passou a ser a mais procurada de Damasco. As mulheres vinham  também para ver Hassã Badredine . As mais descaradas segredavam-lhe:

«O que as tuas mãos tocam / se torna o melhor doce. / Fosse eu farinha e mel / e me desse às tuas mãos / para ser bem tendida / e cosida no forno / do teu largo peito. / Então desmaiaria / e chegaria ao céu.»

Todos encontravam aí os melhores doces da cidade. Com o açúcar dos canaviais do Eufrates, o mel do Líbano, as doces tâmaras dos oásis, a farinha do trigo duro das planícies damasquinas, a neve das montanhas do Líbano conservada em poços forrados a palha e madeira, os brancos ovos, o perfume das rosas de Alexandria, do nardo, da alfazema e da erva cidreira, Hassã Badredine confeccionava para o povo de Damasco os melhores doces que se faziam entre os grandes rios que correm pelo Cairo e por Bagdade.

Quando Gazela no Deserto acordou, admirou-se de não ver a seu lado o homem com quem casara.

O vizir Chansedine, seu pai, bateu à porta e perguntou pelo corcunda. A filha contou-lhe que se casara, não com um corcunda, mas com o mais belo homem com que poderia sonhar; que, quando acordara, não estava junto dela certamente porque fora à latrina. O vizir, intrigado com o que lhe contava a filha, correu a vê-lo. Encontrou o corcunda com a cabeça metida no buraco e as pernas no ar. Interpelou-o, mas ele não respondeu, com medo das ameaças do leão.

O horizonte tingia-se de vermelho. Xerazade interrompeu a narração, deixando Xariar ir ao dever.

28/09/2023


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *