António Bica

ANGOLA, a guerra colonial e crimes que nela foram cometidos (final)

ANGOLA, a guerra colonial e crimes que nela foram  cometidos (Conclusão)

  1. seguidamente foi o cadáver embrulhado numa serapilheira, colocado num Land-Rover, onde tomaram lugar, além do condutor, o soldado nº 2118-61, os praças encarregados da operação de enterramento e o próprio sargento Lamy. Por indicação deste percorreu a viatura cerca de 15 km na estrada para Novo Redondo, tendo depois voltado à esquerda, seguindo cerca de 4 km pela picada que segue para o local denominado Cainja, tendo parado a viatura, na qual apenas ficou o respetivo condutor; os restantes militares internaram-se na mata levando consigo o corpo do sacristão que foi enterrado em local escolhido pelo sargento Lamy. Terminada inumação, regressaram ao quartel, onde chegaram cerca das 02H00 do dia 15 de Dezembro.
  2. Na manhã do dia 17 de Dezembro de 1963 o sargento Lamy, informado por um subchefe da policia de segurança publica que o padre dizia que os militares tinham causado a morte do sacristão, na qual ele, segundo afirmava, tinha apenas uma pequena fração de culpa moral; que a população da vila estava ao corrente do que se passara; que algumas pessoas sabiam o local aproximado onde o sacristão estava enterrado. Dirigiu-se então a casa do clérigo e disse-lhe haver pessoas na vila que estavam a par do sucedido.
  3. Na tarde desse mesmo dia 17 o pároco foi ao encontro do sargento Lamy no quartel, dizendo-lhe que em face do que se passava, o corpo devia ser desenterrado e levado para outro local. Concordou o sargento Lamy, mas impôs ao padre a obrigação de acompanhar os militares na nova diligencia, pois entendia que tal atitude seria mais conforme com as graves responsabilidades que lhe cabiam na noite da morte do sacristão que ele agora procurava alijar sobre os praças que, sob sua influência, com ele tinham colaborado.
  4. Em cumprimento das ordens transmitidas pelo sargento Lamy, nesse mesmo dia, depois das 23 H, saiu do quartel em Land-Rover onde seguiam, além do soldado condutor Francisco Armando Castro da Encarnação, o 1º cabo Correia dos Santos e os soldados Mealha Cabrita, Santos Gomes e Rodrigues da Mota.
  5. A viatura tomou a direção da ponte existente à saída da vila, onde o padre os esperava. Subiu para o Land Rover, vestindo um casaco camuflado para evitar ser reconhecido, seguindo depois a viatura para o local onde estava enterrado o sacristão.
  6. Próximo desse local estacionaram o Land-Rover, junto do qual ficou o soldado condutor, seguindo os restantes militares com o padre, um pouco mais longe, para o desempenho da missão que aí os levava.
  7. Atingido o local exato na mata, começaram a escavar o solo, levantando o corpo e levando-o para a viatura; depois, por ordem do padre, retornaram à vila e seguiram pela denominada estrada da jangada, que de Vila Nova de Seles conduz a Ambuíva, sendo apoiado por um Jeep de reforço conduzido pelo soldado nº 2118-61. Ultrapassada esta localidade tomaram uma picada e, depois de terem penetrado na mata, foi pelo padre ordenado ao condutor que parasse.
  8. Sob as instruções do padre o corpo do sacristão foi retirado do Land-Rover e, com exceção dos condutores, que permaneceram junto das respetivas viaturas, os restantes, transportando o cadáver, seguiram para novo local de enterramento, escolhido pelo padre.
  9. Aí chegados o soldado Mota tomou uma catana e cortou com ela as pernas do sacristão. Foram estes despojos enterrados em cova aberta para o efeito. Depois o mesmo soldado cortou os braços e a cabeça e, aberta segunda cova, enterraram o tronco e o braço esquerdo.
  10. O padre perguntou então se tinha já feito a autópsia, acrescentando que deviam enterrar a cabeça e o braço longe dali. Em obediência a esta ordem regressaram todos para junto das viaturas, transportando o Mota consigo a cabeça e o braço decepado.
  11. O padre forneceu nova sugestão, dizendo que deviam fazer passar uma das rodas de qualquer das viaturas sobre a cabeça do sacristão para o tornar irreconhecível. Os militares recusaram-se a tal, objetando que, se o fizessem, ficaria a estrada cheia de miolos.
  12. Subiram então de novo para o Land-Rover, tendo o padre ordenado que fosse tomado o caminho de regresso ao quartel. Percorridos cerca de 2 quilómetros, ainda na picada, o padre mandou parar as duas viaturas junto das quais permaneceram os condutores. Os restantes internaram-se na mata até junto dum local que ao padre pareceu suficientemente escondido.
  13. Abriram a terceira cova e antes de nela enterrarem os últimos despojos do que fora criado e sacristão do pároco de Vila Nova de Seles, ainda por insistência deste, que teimava ser conveniente desfigurar-lhe o rosto, o soldado Mota praticou sobre a cabeça alguns golpes de catana. Tinha findado o martírio do sacristão António Calei.

 

Quem foram os grandes culpados deste crime trágico? Não os oficiais, os sargentos e os soldados que os então  governantes autoritários  de Portugal forçaram a fazer a guerra colonial, procurando convencê-los  de que os povos africanos  de Moçambique, da Guiné e de Angola eram seus inimigos por  não aceitarem submeter-se ao domínio dos colonos , pelo que era preciso impôr o domínio.  Esses chefes foram  Salazar, Caetano e Tomás.

Os grandes culpados deste crime, que foi o martírio trágico do sacristão António Calei e de inumeráveis outos, foram os cabeças do fascismo Américo Tomás, Salazar, Caetano e os outros que sustentaram politicamente o seu regime autoritário e antidemocrático, não os militares que os chefes políticos forçaram a fazer a guerra colonial, procurando convencê-los  de que os naturais da colónias eram inimigos, que, não aceitando o domínio colonial português, era preciso combater militarmente.

Os militares que os chefes do regime antidemocrático autoritário, que, durante quase meio século, procuraram doutrinar os portugueses para defender esse regime e os grandes interesses económicos que exploravam as colónias, ficticiamente designadas províncias de Portugal, que diziam  “uno e indivisível”,  tiveram que participar nessa guerra, que, como todas as guerras,  teve como consequência  graves injustiças e a múltiplos crimes como o aqui relatado. A este crime praticado por um padre pode chamar-se “calvário de um sacristão às mãos do padre que servia”.

Os povos de Portugal e os dos países que foram as colónias portuguesas procuram manter e reforçar os laços políticos, culturais e económicos, que os unem.

Alguns fazedores de opinião, talvez saudosos de não estar a dominar, em seu proveito, negócios nesses territórios,  declaram-se escandalizados por atos de corrupção num ou outro desses países, talvez para disfarçar fumos de corrupção de homens de grandes negócios, de políticos de todos os níveis, de altos funcionários, de dirigentes de organizações de futebol e até  de magistrados.

10/06/2021


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