António Bica

ANGOLA, a guerra colonial e crimes que nela foram cometidos (continuação)

 

  1. Em face da recusa do rapaz em confessar o roubo que lhe era assacado, decidiu intervir o primeiro cabo Correia dos Santos, que também agrediu o rapaz á bofetada, o que levou o ofendido a pedir que não lhe batessem mais e a dizer que o dinheiro estava na sua casa, na sanzala de Inconcon. Para lá seguiram, na referida viatura, além do condutor, o soldado Encarnação, o padre, o sacristão, o 1º cabo Correia dos Santos e os soldados Carlos dos Santos, Rodrigues Mota e Mealha Cabrita, tendo este último, durante o percurso, agarrado a vítima enquanto o padre o chicoteava.
  2. Chegados à libata (casa) do sacristão o padre voltou a chicoteá-lo após o que procederam a buscas no interior dela, enquanto, no exterior, o soldado Mealha Cabrita segurava o António Calei. Na diligência apenas foram encontrados alguns guardanapos, pelo que o padre, irritado, reiniciou nova série de agressões a chicote e a pontapé, de que resultou ter aquele caído no chão, oportunidade que o sacerdote aproveitou para espezinhá-lo na região do ventre.
  3. Tentou o rapaz salvar-se da sanha dos seus agressores, fugindo, mas todos foram no seu encalço, tendo conseguido agarrá-lo o soldado Mota e reconduzido ao local, onde novamente foi agredido pelo padre a chicote e a pontapé, pelo 1º cabo Correia dos Santos e pelos soldados Carlos Santos e Rodrigues Mota à bofetada.
  4. Seguidamente, por sugestão do padre, todos de dirigiram para a viatura estacionada com o seu condutor a cerca de 100 metros, a fim de se dirigir à residência paroquial.
  5. Após a chegada o soldado Mealha Cabrita dirigiu-se ao quartel, tendo os restantes entrado para o quintal da residência. Enquanto o chicoteava, insistia o padre com o Calei para que dissesse onde estava o dinheiro escondido, tendo ele respondido que o mesmo estava sob a capota dum Jeep, arrumado junto dum alpendre, onde efetivamente foram encontrados num velho porta-moedas 12$50.
  6. Irritado com a insignificância do dinheiro encontrado, muito inferior aos 200 escudos que ele afirmava terem-lhe sido furtados pelo Calei, o padre recomeçou as agressões com chicote, nas quais cooperaram à bofetada o 1º cabo Correia dos Santos e o soldado Rodrigues Mota.
  7. O sacristão, por efeito de uma bofetada aplicada nesse momento pelo soldado Mota, desequilibrou-se e, quando caía no chão, foi atingido com um pontapé desferido pelo sacerdote, que o atingiu nos testículos. Quando o viu prostrado no solo, o padre saltou para cima da barriga do rapaz, pisando-o e dando-lhe pontapés nas ilhargas.
  8. Vendo a vítima desfalecida, o padre tomou-lhe o pulso, depois do que proferiu a expressão: “este já não tem coração”. Seguidamente transportou água num copo e lançou-a sobre o rosto do rapaz para o reanimar.
  9. Como ele continuava sem dar acordo de si, tomou o padre uma faca corta- papeis e espetou-a até sangrar, primeiro numa perna e depois na garganta. Perante a ausência de reflexos do ofendido, declarou: “este já está arrumado”.
  10. Em seguida os militares, por sua ordem, colocaram o sacristão na caixa da viatura, dizendo-lhes o padre que o transportassem para o quartel, onde, afirmou, depois iria falar com o sargento Lamy, comandante interino do pelotão na ausência do alferes Manuel Roque. Antes de se retirarem, todos beberam whisky ou cerveja oferecida pelo pároco.
  11. Cerca da meia-noite os militares transportaram o corpo do sacristão António Calei para a dependência do quartel destinada a prisão e, em seguida, foram deitar-se.
  12. Na manhã do dia seguinte, 14 de Dezembro de 1963, o cabo de dia, ao deparar com o corpo sem vida do sacristão Calei, mandou comunicar o facto ao sargento Lamy, que se encontrava na sua residência e que, por esse motivo, veio imediatamente ao quartel.
  13. Informado do que se havia passado na véspera, o sargento Lamy, ainda na manhã desse mesmo dia, a conselho do delegado de saúde, deslocou-se a Santa Comba, sede da companhia, onde, cerca das 13 horas, comunicou os acontecimentos da véspera ao capitão Joaquim Pombeiro.
  14. Este oficial, em face das grandes repercussões de ordem social e política que dos factos que lhe foram relatados pelo sargento poderiam surgir no meio das populações nativas, ordenou-lhe que entrasse em contacto com o Administrador do Conselho, Duarte Alpoim, a fim de se obter uma solução para o que se lhe afigurava ser problema delicado. Instruiu ainda este oficial o referido sargento no sentido de, em ligação com a autoridade citada, procurar resolver o caso sem necessidade de “papelada”, abafando, se possível, o assunto e sugerindo que um possível “modus faciendi” seria o enterramento clandestino do cadáver.
  15. De regresso a Vila Nova de Seles acompanhado do padre, dos sargentos Orlando Neves Raposo Alves e António Alves e ainda do furriel Elísio de Oliveira Rodrigue Moreira dos Reis, dirigiu-se a casa do administrador a quem o padre expôs resumidamente os factos ocorridos, tendo o sargento Lamy, por sua vez, transmitido àquela entidade as instruções do seu comandante de companhia.
  16. O administrador declarou que a melhor solução seria obter-se do delegado de saúde um “atestado de suicídio do sacristão António Calei”, mas que, se tal não fosse possível, teria que se enterrar o cadáver em local onde nunca fosse descoberto. Aconselhou-os depois a procurar o referido delegado para a obtenção do atestado. Disse ainda o administrador que, no dia seguinte, deveria alguém deslocar-se à sanzala, fingindo ir à procura do sacristão, informando que o mesmo tinha sido posto em liberdade na noite anterior e que precisavam de o encontrar para lhe fazerem mais algumas perguntas.
  17. Saíram depois os cinco de casa do administrador e dirigiram-se à residência do delegado de saúde, que lhes disse imediatamente que não passaria o atestado e que não se prestaria a fraudes dessa natureza.
  18. Voltaram os mesmos a casa do administrador que, por eles posto ao corrente da recusa do médico, lhes disse que enterrassem clandestinamente o sacristão.
  19. Para dar execução a estas instruções dirigiram-se os cinco ao quartel onde o sargento Lamy ordenou ao 1º cabo Correia dos Santos e aos soldados Mealha Cabrita, Santos Gomes e Rodrigues da Mota que procedessem ao enterramento do rapaz; pretendendo depois aquele sargento comunicar com o padre sobre o assunto, verificou que o mesmo se havia ausentado sub-repticiamente do quartel.

continua…

27/05/2021


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