António Bica*
O Moço de Recados e as Três Donzelas (continuação) - parte 25

A meio da noite, ainda os galos não haviam cantado, Xerazade recomeçou a história de Amina que acabara de se casar e jurara sobre o livro dos profetas que não olharia para outro homem:
Assim vivemos até que passaram três luas cheias. Fui ao mercado para comprar tecidos acompanhada da velha que, ao engano, me levara ao palácio onde me casei. Passei por muitas tendas até me deter junto à de um jovem mercador que a velha disse ter os melhores tecidos. Enquanto mostrava os panos, a velha elogiava a sua beleza, riqueza e juventude com insistência impertinente. Escolhi o tecido que me interessava e ordenei à velha que o pagasse do dinheiro que lhe entregara. Mas o mercador recusou receber, pretextando: « Este tecido é oferta minha; espero vender-vos outros e neles ganhar o suficiente». Insisti para que se lhe pagasse. Recusou: « Senhora, dá-me prazer oferecer-vos este tecido. Se insistirdes em pagar-me, um beijo vosso basta». A velha, olhando-me, disse: « Não deves recusar um beijo a quem com tanta consideração te trata». Acabei por consentir, não sem que, mais que as palavras mentirosas da velha, me convencessem os encantos do jovem, tão parecido era com o meu marido.
Beijou-me tão fortemente que me arrancou um pouco de pele. Com a dor desmaiei. Quando tomei consciência, estava estendida nos joelhos da velha que se mostrava aflita. O mercador desaparecera e a tenda estava fechada. Confusa com o que sucedera, tudo me pareceu estranho. A velha aconselhou: « Voltemos para casa. Dar-te-ei um remédio que rapidamente te curará.» Cheguei a casa e fiquei nos aposentos com o pretexto de estar doente. O meu marido entrou e perguntou: « Que te aconteceu para estares doente?» Respondi que nada sucedera. Mas ele, olhando para mim, disse: « Que ferimento tens nos lábios?» Surpreendida pela pergunta e sem atinar com o que responder inventei: « Um camelo carregado de lenha veio contra mim e feriu-me.» Encheu-se de cólera: « Amanhã irei interpelar o governador para que prenda todos os que transportam lenha em camelos e castigue quem te feriu.» Fingindo por eles compaixão, pedi: « Não faças isso. A culpa foi minha, que aluguei um burro que trotava depressa demais e me fez ir contra o camelo.» A sua cólera redobrou: « Pedirei ao governador que castigue os alugadores de burros para que aprendam a não alugar animais bravos.» Em desespero disse-lhe: « Não queiras que ninguém seja castigado, que o que aconteceu foi da minha responsabilidade e por permissão de Deus.» Então a sua fúria tornou-se mais violenta: « O que fizeste não tem perdão. Vais sofrer o castigo merecido.» A um sinal entraram sete guardas que me seguraram. O chefe deles disse, tirando o alfange: « Retalharei a sua carne e lançá-la-ei ao rio Tigre, que é o castigo merecido por quem não respeita o juramento de amor.» Ao ver o fim iminente, lamentei-me:
« O meu coração rendeu-se a ti / e nunca te olvidou ./ Porque olhei um jovem belo/ nem por isso te esqueci, / vi nele a tua beleza, / e a graça do teu olhar. / O amor que me juraste/ confundiste-o com posse. / Amar é só bem querer / sem nada exigir em troca . / O mais é querer ser dono, / mas a posse não é amor.»
Respondeu:
« A força dos meus afectos / não admite partilha. / A mulher a quem eu amo / não pode por ninguém mais / deixar correr o olhar / ou esboçar um sorriso.»
Não pude deixar de comentar:
« Não conheces o amor, / só a posse te cega. / A prisão de quem se ama / depressa mata o amor. / Quer bem a quem te quer bem / e deixa-o em liberdade, / que assim melhor o prendes / pela sólida cadeia / da mútua confiança.»
Acabei chorando, mas não se comoveu. Disse para o guarda: « Faz o que deves.» Quando avançou para mim, confiei-me a Deus, que é o refúgio dos desvalidos. O alfanje já se erguia sobre a cabeça, quando entrou a velha a implorar: « Não mates a tua mulher. Não cometeu falta que mereça tal castigo e receio que esta vingança desproporcionada venha a cair sobre ti.» Dobrou-se aos rogos da velha e disse: « Por atenção a ti não a matarei, mas vou castigá-la para que sempre se lembre da falta.» Os guardas, à sua ordem, flagelaram-me violentamente e por tanto tempo que desmaiei. Quando recuperei a consciência, estava na casa donde a velha me levara ao engano para tão funesto casamento. Tratei-me e pouco a pouco as feridas sararam, mas as marcas da flagelação permanecem.
Quando me senti com forças para deixar a casa, andar pelas ruas de Bagdade e ir ao mercado, passei por onde tão cruelmente fora tratada, mas, apesar de não terem passado mais do que sete luas, encontrei ruinas ao abandono e ninguém me soube dar notícia dos ocupantes da casa. Resolvi, em vez de viver só, voltar para junto da minha irmã Fátima. Como a nossa mãe tinha morrido, decidimos ir viver com Zobeida que nos disse, depois de lhe contar a minha história e ouvir a dela:
« O destino é incerto e imprevisível. O que nos aconteceu é passado e felizmente conservamos a vida. Fiquemos juntas e renunciemos ao casamento que para nós tem sido fonte de males.» Vivemos desde então juntas e em harmonia. Embora haja igualdade entre nós e conversemos sobre todas as coisas, temos muito em conta a opinião da nossa irmã Zobeida, que é inteligente e sensata.
Um dia a nossa irmã Fátima trouxe-nos o moço de recados. Depois entraram os peregrinos e logo vós disfarçados de mercadores.
A manhã aproximava-se. Xerazade, para que Xariar não se atrasasse, interrompeu a história.
15/04/2021

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