António Bica

O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação) - parte 24

Ainda a noite não era velha quando Xerazade recomeçou a história que a jovem Zobeida contava ao califa:

Continuei a procurar convencer o príncipe a vir  para Bagdade, insistindo que aqui poderia instruir-se na religião dos profetas. Por fim cedeu. Quando nasceu a manhã, descemos do palácio e da cidadela. Encontrei o capitão do navio, as minhas irmãs e os marinheiros. Estavam espantados pelo que acontecera à cidade e preocupados com o meu desaparecimento. Quando me viram acompanhada por jovem tão belo, todos se alegraram. Contei-lhes o que se passara e por que razão a cidade ficara desabitada com excepção do meu companheiro, príncipe da cidade.

Lamentaram o terrível castigo e louvaram Deus por tão poderoso sinal de que só a religião dos profetas é verdadeira. Mas no coração das minhas irmãs entrou a inveja ao ver a beleza do príncipe e as suas riquezas. A perfídia germinou no seu peito e maquinaram ciladas contra nós. Como disse o poeta:

«Está em nós a inclinação/ para o bem e para o mal./ A má custa a corrigir/ com esforço e disciplina./ Quem tem bom coração/ difícilmente o desvia/ do natural pacífico.»

Embarcámos as riquezas que pudemos, mas o amor do príncipe era o maior bem. Quando o tempo se tornou favorável e o vento soprou de feição, içámos as velas e levantámos a âncora. As minhas irmãs perguntaram: «Que pensas deste belo príncipe?» Respondi: «O meu desejo é casar com ele.» O jovem, que estava junto de nós, comentou: «Também é esse o meu desejo». Tão alegre ficou o meu coração que disse: «O contentamento torna leve o espírito. Nada mais quero que viver com este jovem. Tudo o mais que tenho faço vosso». Elas responderam: «A tua vontade é a nossa lei». Mas no fundo do coração delas espreitavam a perfídia e a traição.

A navegação correu favorável até que chegámos perto de Bássera, onde os rios Tigre e Eufrates entram no mar. Como era noite, lançámos a âncora até que amanhecesse. Enquanto dormia com o príncipe, as minhas irmãs traiçoeiramente lançaram-nos ao mar. O príncipe, que não sabia nadar, afogou-se. Consegui nadar até um tronco de árvore que a água arrastava. Segura nele cheguei a pequena ilha. Enxuguei a roupa e procurei auxílio. Caminhei sem encontrar ninguém até chegar ao extremo da ilha donde se avistava Bássera. Sentei-me a descansar e a pensar na maneira de chegar à cidade que via à  frente. Uma cobra rastejou rapidamente na minha direcção. Perseguia-a uma enorme serpente. Apiedei-me dela e, para a livrar da morte iminente, atirei uma pedra à serpente, que a afugentou.

Estava fatigada da longa caminhada e do esforço para me salvar do mar e adormeci. Quando acordei, uma jovem massajava os meus pés doridos. Perto estavam duas cadelas negras. Viu-me abrir os olhos e disse: «Não estranhes que te preste este pequeno serviço, que grande foi o que  a mim fizeste, salvando-me da serpente, que é génio mau e me queria matar. A tua intervenção salvou-me. Também sou um génio, mas benfazejo. Quando me salvaste, li no teu coração a desgraça que te acontecera. Fui  ao navio, onde as tuas irmãs te quiseram matar, e transformei-as, para seu castigo, nestas cadelas negras. Depois, por magia, transportei as riquezas do navio para a tua casa de Bagdade. Bem sei que a tua maior alegria seria restituir à vida o príncipe, mas sobre a morte não tenho poder.»

Ouvi, cheia de espanto, e reflecti:

«O coração compassivo/ não procura a recompensa,/ mas, porque faz harmonia,/ suscita benevolência/ e atrai o benefício.»

Depois de assim falar, transportou-me pelos ares com as cadelas para a minha casa de Bagdade, onde já estavam guardadas e em ordem as riquezas que o navio carregava. O génio benfazejo despediu-se e advertiu: «Deverás todos os dias castigar com cem golpes de chicote cada cadela pela sua perfídia. Se o não fizeres, também te tornarás cadela.»

Grande califa, desde então todos os dias tenho que chicotear as cadelas minhas irmãs. O meu coração parte-se com isso e não posso deixar de ter piedade delas e de as acariciar depois do castigo. Esta é a minha história.

Disse o califa:

«Na verdade é uma história espantosa. A inteligência, a sensatez e o coração compassivo são dons com que se nasce, mas também se adquirem. Com eles se constroi a harmonia e nos abrigamos da desgraça. Agora é a vez de Amina nos contar a sua história».

A jovem começou tímida e de olhos baixos:

Grande Senhor dos Crentes, sobre os nossos pais já a minha irmã Zobeida falou. Quando o pai morreu, fui viver com a minha irmã Fátima e a nossa mãe. Algum tempo depois a minha mãe casou-me com um homem velho que era o mais rico da cidade. Ao fim de um ano fiquei viúva e herdei uma casa e oitenta mil moedas de ouro. Fiquei a viver com tranquilidade e conforto. Um dia uma velha pediu para me falar. Quando levantou o véu,  lembrei-me do poeta:

«Velha de mau agoiro./ As manhas que o diabo tece/ nada são ao pé das dela./ Tão bem sabe a sua arte,/ que se dez mulas se prendessem/ em velha teia de aranha/ ela as desenredaria/ sem partir um só fio.»

A velha saudou-me: «Ó senhora cheia de graça e de virtudes, tenho em casa uma jovem órfã. Esta noite é o seu casamento. Peço-te que nos honres com a tua presença, que não temos parentes nem amigos e não é bom que a festa se faça sem convidados. O Todo Poderoso te recompensará». Depois de falar beijou-me os pés em lágrimas. Condoí-me e acedi. Mas o coração da velha só era humilde de aparência. No íntimo, sem eu saber, estava o engano. Tomei banho, perfumei-me e avivei os olhos com negro. Vesti o melhor vestido, pus colar de pérolas luarentas, braceletes decorados a esmalte e cobri-me com véu  de seda azul. Voltou a velha e disse: «Já chegaram a autoridade e as testemunhas. Todos te esperam com impaciência.» Levei comigo algumas criadas. Esperava chegar a pobre casa, mas a velha bateu à porta de palácio. Abriram e seguimos por corredor ornamentado até um salão com ricas mobílias e decorado com arte. No meio do salão, num leito, estava uma jovem que, ao ver-nos, se levantou. Era linda como a lua e, caminhando ao nosso encontro, saudou-nos:

«As paredes desta casa/ dobram-se à tua passagem./ Assim elas anunciam/ a nova da tua vinda. / Tivessem o dom da fala/ diriam: honra às pessoas/ de coração generoso.»

Depois de me saudar disse: «Ó minha irmã, devo dizer-te que tenho um irmão que te viu um dia. É um jovem gentil e belo. Desde então ama-te apaixonadamente e tem esperança de casar contigo».

Porque há muito tempo vivia só, respondi: «Mostra-me esse jovem».

Entrou um jovem belo como o sol. Pensei:

«Obra digna do criador/ e jóia para a sua glória, / tamanha a sua perfeição./ Ao vê-lo todos o amam.»

O meu peito turbou-se e o coração acendeu-se. Avançou e sentou-se junto à irmã. Entrou a autoridade e as testemunhas e, com o meu consentimento, foi celebrado o contrato de casamento entre mim e ele. O meu marido tomou depois o livro dos profetas e disse: «Peço que jures sobre o livro que não olharás para outro homem». Jurei. Envolveu-me nos seus braços e senti o amor submergir-me.

Depois de comermos e bebermos passámos a noite nos braços um do outro.

Os alvores da madrugada adivinhavam-se a oriente. Xerazade interrompeu a narração para que Xariar pudesse ir ao seu dever.

Ed. 802 (25/03/2021)


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