António Bica*

O Moço de Recados e as três Donzelas (continuação) - parte 23

*Advogado

Pelo declinar das estrelas a noite passara mais de metade do curso. Xerazade começou:

Grande califa, senhor dos que mandam, chamo-me Zobeida. As duas minhas irmãs, que se chamam Amina e Fátima, e eu somos filhas do mesmo pai. Mas só elas são filhas da mesma mãe. Estas duas cadelas são também nossas irmãs e filhas da minha mãe. Quando o nosso pai morreu, deixou-nos cinco mil moedas de ouro, que partilhámos com equidade e em harmonia. As minhas irmãs Amina e Fátima, que são mais novas, ficaram a viver com a mãe delas. Eu e estas minhas irmãs, que agora são cadelas, ficámos a viver juntas, sendo eu a mais nova.

Pouco tempo depois, as minhas irmãs com quem fiquei a viver decidiram casar-se, ficando na nossa casa com os maridos. Eles compraram mercadorias com o dinheiro delas e partiram para negociar, levando-as para países distantes. Por falta de experiência e de senso perderam quanto levavam e abandonaram as mulheres. Passados quatro anos conseguiram ambas, depois de muito trabalho e misérias, regressar a casa. Não as reconheci nas pobres mendigas que me saudaram senão depois de se darem a conhecer. Disse-lhes: «Como é possível estardes nesse estado?» Fi-las entrar, preparei o banho, entreguei-lhes as melhores roupas e sentámo-nos para que saciassem a fome. Depois que contaram as suas desgraças, disse: «As mil moedas da minha herança multiplicaram-se com administração prudente. O que é meu é também vosso. Viveremos de novo juntas».

Assim vivemos um ano, até que chegou a primavera e, pelas janelas, entrou o perfume das flores. Disseram: «Sem homem são longas as noites e sentimo-nos sós ». Adverti-as: «Amarga foi a vossa experiência. Estais cansadas de estar bem e quereis de novo pôr-vos mal?» Tornaram-se surdas às minhas palavras e decidiram, contra o meu conselho, de novo casar-se. Reparti com elas, para que se pudessem casar, os meus bens e seguiram com os maridos. Partiram para cidade distante e aí eles convenceram-nas a jogar o dinheiro que com elas havia repartido, iludindo-as com as riquezas que jogando esperavam ganhar. Em pouco tempo tudo o que tinham foi desbaratado. Até os vestidos foram perdidos aos dados. Sem nada e de novo abandonadas regressaram a minha casa cobertas de andrajos. Desculparam-se: «Não nos queiras mal. És a mais nova, mas inteligente e sensata. Pensas antes de decidir e sabes distinguir a ilusão e a fantasia da dura realidade que se não comove. Aprendemos com os nossos erros. Foram duras as lições. Os homens não voltarão a iludir-nos». Tal como no primeiro regresso, disse-lhes: «A ninguém quero mais que a vós. Esta casa é como vossa». Um ano depois do novo regresso, decidi ir negociar no ultramar e para isso fretar um navio na cidade de Bássera, onde desaguam, no Golfo Pérsico, os grandes rios da Babilónia e de Bagdade. Quando tudo estava preparado para a viagem, ofereceram-se para ir comigo. Por prudência, como sempre fazia, não arrisquei tudo o que tinha no negócio. Escondi em lugar seguro metade do meu dinheiro, certa de que a fortuna é inconstante. Viajámos com vento favorável durante dias e esperávamos chegar ao destino antes das fortes chuvas e dos impetuosos ventos da monção. Mas naquele ano o mau tempo antecipou-se e o navio foi arrastado para mar aberto. Ao fim de dez dias apercebemo-nos, pelas aves marinhas, que nos aproximávamos de terra. De mais perto vimos uma cidade que desconhecíamos. Ancorámos e pisámos a terra onde esperávamos fazer negócio. Ao entrar nas ruas vimo-las desertas. Todos os homens tinham sido convertidos em pedras sem que nada mais fosse destruido. As casas e todas as mercadorias e riquezas estavam intactas. Dissemos: «Estranho é o que aconteceu».

Subi à fortaleza e entrei no palácio. Também aí as pessoas tinham sido petrificadas. Mas as ricas mobílias, os finos tecidos e os objectos de ouro, de prata e pedrarias estavam intactos e em ordem. O rei estava sentado no trono, rodeado do vizir e da guarda, mas todos feitos pedra. Nos aposentos das mulheres as damas de companhia rodeavam a rainha como se ainda conversassem, mas cada uma era pedra fria. Na sala de banquetes brilhavam os pratos e tudo o necessário para as festas. No centro da larga mesa de pórfiro e jade, sobre um suporte revestido de rubis, de esmeraldas, de safiras e de cristal de rocha, um diamante do tamanho de ovo de avestruz talhado em milhares de pequenas facetas faiscava raios de luz. Iluminava o salão. Ao correr o palácio sozinha, chegou a noite e não atinava com a saída. Voltei à sala onde luzia o grande diamante e deitei-me num sofá para passar a noite. Ouvi longe voz doce que parecia ler um livro sagrado. Segui o som por longos corredores até chegar a sala onde um jovem orava. Depois de o saudar disse: «Rogo-te que me esclareças sobre o que aqui se passa». Quis ele saber quem eu era, donde vinha e o que fazia. Respondi sem nada omitir, fascinada pela sua beleza. Era perfeito como o sol, elegante e proporcionado. A pele tinha a cor das tâmaras frescas. O cabelo era como juba de leão e negro de azeviche. Disse-lhe, citando o poeta:

«Não é mais belo o cometa/ que rasga o céu de lés a lés./ Assim tu me surgiste;/ a carnação do teu rosto/ ofusca o bravo Marte;/ o brilho dos teus olhos fundos/ empalidece o fulgor do Setestrelo./ O arquitecto do céu pasma,/ quando te compara ao que fez.»

Senti perturbação de espírito e de corpo, uma intensa perturbação. Brasas vermelhas acenderam-se no peito enquanto ele contava: «Esta foi a cidade do meu pai, que reinava neste país. Era mago e não acreditava nos profetas. Durante muito tempo não teve filhos. Cultivava a filosofia e os ensinamentos dos antigos. Quando as têmporas embranqueceram citava o poeta:

“O tempo/ temperou com lucidez/ os vinte anos;/ amaciou o calor do meio dia,/ abrandou o fogo/ criador de miragens./ Agora sento-me/ no meio do campo/ e vejo mais claro./ Nenhuma ilusão/ me faz correr/ cegamente/ para o desconhecido./ Nenhuma estrela/ também não./ Mas pergunto à lucidez/ se não é progressiva cegueira/ a esconder o fulgor/ do céu estrelado.”

Na sua velhice nasci eu. Todos os habitantes do país se conduziam pelos astros e por eles regulavam as vidas e adivinhavam o futuro, pois ninguém conhecia os profetas e os seus ensinamentos. Ao palácio chegara, havia muito tempo, uma mulher vinda do outro lado do mar, que fora instruida nos ensinamentos dos profetas. Nunca manifestou publicamente a sua fé. O meu pai tinha absoluta confiança na lealdade, virtude e sabedoria dela, não sabendo que não partilhava da fé do país. Por isso confiou-me a ela para que me educasse nos caminhos da virtude. A mulher, convencida de que só a sua religião era verdadeira, instruiu-me nas palavras dos profetas e educou-me na sua fé, pedindo-me que a ocultasse do meu pai. Quando me instruí nos escritos proféticos, a minha ama morreu, mas continuei secretamente fiel à religião que me ensinara.

Um dia ouviu-se por toda a cidade uma voz como que vinda do céu: “Renunciai à religião que seguis. Tomai o caminho dos profetas”. O meu pai opôs-se ao que a voz dizia e exortou os habitantes a continuar nas suas crenças. Por três vezes a voz clamou do céu a advertência e por outras três o meu pai exortou os súbditos a não a ouvir. Então uma manhã a maldição desceu do céu e todos os que não acreditaram foram petrificados. De todos os habitantes só eu fui poupado, porque era o único crente nos profetas. Desde então mantenho-me em oração e na leitura dos sagrados ensinamentos». Disse-lhe: «Jovem excelente, luz dos meus olhos, vem comigo para a cidade de Bagdade onde se conhecem e seguem as palavras dos profetas. Lá poderás aprofundar o conhecimento. Servir-te-ei feliz».

O cantar dos galos, que ao longe se desafiavam, cortava o silêncio da noite e anunciava o seu fim. Xerazade interrompeu o conto e Xariar foi para reunião com o vizir.

(Edição 201 – 11/03/2021)



 

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