António Bica

O PARTIDO "CHEGA" E OS CIGANOS (2)

Os judeus e os ciganos conservam valores culturais auto-segregacionistas (2)

 

Os ciganos e os judeus, por constituírem sociedades que seguem valores tribais, conservam os traços comuns de considerarem os exteriores ao respectivo grupo tribal como “outra gente”, não tendo que seguir, em relação aos que não seguem os seus valores tribais, as regras de solidariedade e de respeito mútuo que consideram dever observar entre os membros de cada um dos seus grupos; incluindo a de proibição de casamento fora do grupo correspondente, o que tende a perpetuar a cultura tribal, porque a cultura é basicamente transmitida pelas mulheres aos seus filhos.

 

Em relação aos judeus sempre houve grande animosidade popular na Europa medieval, onde eram numerosos, por as camadas sociais mais pobres serem frequentemente exploradas pelos judeus ricos que emprestavam dinheiro a juros frequentemente altos e agiam como impiedosos cobradores de impostos, cujo direito de cobrança arrematavam aos reis, e dos direitos senhoriais da grande nobreza senhora de extensos latifúndios. Essas atividades não podiam ser praticadas pelos cristãos por não serem permitidas pela religião cristã.

Foto de João Pereira

Quanto aos ciganos, sendo pouco numerosos, pobres e itinerantes, vivendo de pedir esmolas, de pequenos negócios (sem se preocuparem por serem frequentemente fraudulentos, desde que feitos com não ciganos), e muitos de pequenos furtos a não ciganos e outras actividades ilícitas.

Sendo itinerantes os ciganos dificilmente se fixam nos povoados, por isso não sendo causa de escândalo dos povos cristãos, no meio dos quais vivem, a sua indiferença à prática religiosa cristã, pelo que ninguém se preocupou com isso, nem mesmo a Igreja Católica, que não desenvolveu actividade organizada e consequente para a sua conversão ao cristianismo, embora actualmente o procure pontualmente fazer.

 

A expulsão pelo governo francês de ciganos, no verão de 2010, pouco antes idos da Roménia para a França, foi objecto nesse país de larga discussão noticiosa e política.

É assunto que merece reflexão, procurando entender-se a razão da súbita deslocação de grande número de ciganos da Roménia para a França.

Há também que ver da razoabilidade ou irrazoabilidade da sua expulsão pelo governo francês.

Constitui problema a existência num país de uma comunidade de cultura tribal que considera dever manter-se apartada do comum dos cidadãos, não se sentindo obrigada a respeitar as regras de convivência e de respeito mútuo que considera dever observar no seu interior, impondo aos seus membros a observância dos seus costumes tribais, entre os quais se destaca a rígida obrigação de casamento dentro do grupo, o que tende a levar à manutenção por tempo indefinido da sua cultura tribal.

 

A ida de grande número de ciganos da Roménia para a França deveu-se à Roménia ter passado a integrar, pouco antes de 2010, a União Europeia, passando a ser livre a circulação dos ciganos romenos no espaço europeu.

O interesse dos ciganos em instalar-se em França resultou de, vivendo em grande parte de pedir, as esmolas dadas por franceses, por serem em maior número mais ricos do que os cidadãos romenos, tenderem a ser mais avultadas.

Sobre a prática da expulsão dos ciganos romenos pelo governo francês é de considerar ilegal. Se as regras comunitárias permitem a livre circulação de cidadãos europeus, têm que ser respeitadas independentemente de os cidadãos objeto da expulsão serem ciganos ou não.

 

Questão mais complexa é a da existência, dentro de um Estado, de uma ou mais comunidades que consideram não integrar o conjunto dos cidadãos do país em que vivem e de que são nacionais, com a consequência de não se sentirem obrigados a respeitar as regras de convivência e respeito mútuo que entendem dever observar na sua comunidade.

Porque essas comunidades de cultura tribal tendem a perpetuar-se pela rigorosa proibição do casamento fora do seu grupo, o problema social e consequentemente político que constituem tende a não ser solúvel, o que, ao longo do tempo, tem levado a explosões de violência espontâneas ou organizadas pelo poder público, como aconteceu com os judeus no ocidente da Europa na Idade Média, no século 19 nos países eslavos e, nos meados do século 20, com judeus e ciganos na Alemanha nazi.

Nota: O texto segue em próxima edição da Gazeta

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