António Bica

O populismo demagógico procura ganhar influência política (parte 1)

André Ventura, deputado único na Assembleia da República do partido “Chega”, desenvolve estratégia anticonstitucional populista demagógica contra o sistema político democrático português. Propõe legislação para confinar os ciganos, porque são ciganos, em guetos, isto é em espaços de que não podem sair senão em condições restritas. O deputado populista demagógico do partido “CHEGA” quer que por lei os ciganos sejam sugeitos a esse “confinamento”, porque são ciganos.

Segue inaceitáveis práticas de alguns autarcas que, a pretexto de substituir as insalubres barracas dos ciganos, alojam os que precariamente se vivem nessas barracas em espaços urbanos destinados a ciganos.

É prática urbanística não aceitável por tender a reforçar a segregação dos ciganos pelos outros cidadãos portugueses.

É proposta que lembra o projeto da Alemanha nazi, durante a década de de 1934 a 1945, de extermínio dos judeus, dos ciganos e de outras minorias.

Os ciganos têm cultura tribal. Ao contrário da generalidade da população mundial, que desde o início da expansão da economia agrícola evoluiu da anterior organização tribal, integrando-se ou organizando-se em Estados.

Em Portugal, desde que o ensino se tornou obrigatório até aos 18 anos, número significativo de jovens ciganos passaram a frequentar a escola, abandonando a cultura tribal e integrando-se na cultura do país.

Um desses casos é o do conhecido jogador de futebol Ricardo Quaresma, que reagiu dignamente à manobra política do “CHEGA” nos termos seguintes, que se citam de memória: “O populismo racista serve apenas para virar homens contra homens em nome da ambição pelo poder, que a história provou ser caminho de perdição para a humanidade”.

Outro caso é o de Carlos Soares Miguel, que é licenciado em direito e atual Secretário de Estado Adjunto do Desenvolvimento Local. Anteriormente foi Presidente da Assembleia Municipal de Torres Vedras, vereador da Câmara Municipal da mesma cidade e Presidente da mesma Câmara Municipal.

As sociedades humanas, no longo tempo anterior à agricultura e pecuária, eram constituídas por grupos pouco alargados com fortes laços culturais entre os que os integravam, incluindo língua, religião e território, atribuindo-se ascendência comum. Essa realidade social e política é designada “tribal”.

As tribos consideravam-se e continuam a considerar, nos casos cada vez mais residuais em que persistem, grupos humanos distintos em essência uns dos outros.

Nas sociedades tribais só os membros da mesma tribo são considerados pelos que a integram como iguais. Os exteriores são entendidos como gente diferente, sem a mesma dignidade humana, por isso não merecedores da solidariedade e do respeito devidos entre os membros da tribo.

Só os membros da mesma tribo são por eles entendidos como tendo igual dignidade humana, considerando-se do mesmo sangue. Para preservar o sangue tribal cada tribo impõe que os casamentos sejam feitos dentro do mesmo grupo tribal. Essa regra é rigidamente imposta, raramente sendo transgredida, para desse modo ser garantida a sua pureza de sangue e a unidade cultural.

Os valores tribais incluem normas e procedimentos estritos, nomeadamente alimentares, religiosos tendo cada tribo os seus deuses, ou deus, ritos de passagem à idade adulta e outros valores. Procuram conservar valores e costumes distintos dos demais humanos. Isso leva-os a regeitar as normas de comportamento das sociedades em que vivem e as autoridades delas.

O desenvolvimento económico, comercial e consequentemente civilizacional, que a economia sempre condiciona a cultura, ocorrido pelo início do milénio 10 antes de Cristo, levou à unificação política e cultural de largas áreas geográficas, em especial nos grandes vales do Nilo, do Tigre, do Eufrates, do Indo e do sudeste asiático até ao Rio Amarelo.

Desse modo diluíram-se as identidades tribais e os correspondentes valores civilizacionais e religiosos, o que se intensificou no médio oriente por volta do século 6 antes de Cristo, sobretudo com a constituição do império persa, depois do grego, tendo culminado na Europa com o Império Romano e a adoção da religião monoteísta cristã. Todos os povos integrantes do Estado passaram tendencionalmente a ter igual cultura e a considerar-se como iguais.

Em consequência as identidades tribais foram se apagando, o que foi potenciado, no fim do Império Romano, pela generalização da conversão da sua população ao Cristianismo, que, apesar de ser religião derivada do monoteísmo hebraico, se distanciou dos valores tribais hebraicos.

Apesar dessa evolução histórica, além das sociedades tribais que se mantiveram em grandes regiões geográficas, como as da África ao sul do Sara, e nas extensas áreas tribais do tempo anterior à chegada dos europeus à América, às ilhas do Pacífico e à Austrália, mantiveram-se excepções de cultura tribal em áreas reduzidas do sudeste asiático e mesmo na Europa como os judeus e os ciganos, que, tendo cultura de raiz tribal, a conservaram no meio dos povos por que se dispersaram, para o que decisivamente contribuiu não terem adoptado o cristianismo como religião.

Todavia os judeus só no meado do século 20 se organizaram em Estado. Durante muito tempo, na Palestina, onde habitaram, foram governados por reis, embora conservassem os seus valores tribais, nomeadamente considerarem-se divididos em 12 tribos. Os ciganos nunca se organizaram em Estado. Os ciganos e os judeus têm entre si significativa diferença:

Uns (os judeus) baseiam a sua cultura em um livro (a Bíblia), que empenhadamente lêem, ensinam entre si, comentam e interpretam, o que lhes dá a vantagem de, por isso, serem em grande número letrados e cultos e, em consequência, terem conhecimentos que dão capacidade a grande percentagem deles para enriquecer.

Os judeus, porque sempre conservaram a sua cultura tribal, seguiram no Império Romano e, posteriormente, nos Estados em que viviam, as suas normas religiosas, incluindo a proibição de cobrar juros, assim impondo entre eles a prática da equidade, à luz dos seus valores de base tribal, mas esclarecendo que essas normas de equidade e de justiça apenas são aplicáveis entre os judeus e não em relação aos que designam gentios, os exteriores à sua comunidade tribal.

Os ciganos autodesigam-se, na sua língua, rom, cujo significado é “humano”. Assim se autodesignando, implicitamente consideram que os não ciganos, porque não partilham a sua cultura tribal, carecem da mesma dignidade humana que eles têm.

Apesar de os judeus serem em grande percentagem letrados e cultos, não deixam de cultivar este e outros valores discriminatórios de tipo tribal, que alguns, os mais racionais, abandonam por os considerarem não aceitáveis; entre eles, recentemente, o conhecido judeu músico de jazz, Gilad Atzmon, nascido em 1963 em Tel Aviv, de nacionalidade israelita, que participou como militar do exército de Israel na desumana invasão de 1982 do Líbano contra os libaneses e os palestinianos aí refugiados. Declarou esse músico, hoje com nacionalidade britânica e a viver na Inglaterra: “Abandonei o conceito (que tinha) de pertencer ao povo eleito (por Deus) e transformei-me num ser humano comum. Sinto-me feliz por isso.”

 

Os ciganos, pelo contrário, não se interessam por saber ler e escrever, vivendo em regra pobremente de esmolas, mandando os filhos pequenos pedir aos não ciganos; de pequenos negócios com não-ciganos (sem se sentirem obrigados a cumprir normas negociais éticas) porque são estranhos à sua comunidade; e desproporcionado número de ciganos, praticam pequenos furtos e outras actividades ilícitas de pequena gravidade, em regra não violentas, de que são vítimas cidadãos estranhos à sua comunidade, porque consideram que os valores de bom convívio entre ciganos não têm que ser respeitados em relação aos demais cidadãos.

Nota: O texto segue em próxima edição da Gazeta

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *