Agostinho da Silva Correia

Consciência coletiva da gente de Serrazes um século após o assassinato do Dr. Augusto Malafaia - Crime de Serrazes (conclusão)

Crime de Serrazes (conclusão)

Nunca será de mais salientar que Deus escreve direito por linhas tortas! Pois apesar da lama que quiseram lançar os seus matadores e eventuais comparsas de testemunhas, quiçá sem escrúpulos, como um “conquistador e abusador, servindo qualquer mulher”, no seu funeral não foi visto a olho nú ou encoberto, filho ou filha a chorar a morte de seu pai!

Chegado o corpo ao cemitério, foram realizados os chamados “Ofícios “por vários Sacerdotes. Findos estes, o Corpo foi submetido a autópsia, com os peritos médicos predeterminados e ajuramentados pelo Juiz da Comarca e Delegado do Ministério Público, cumprindo-se a” Identificação do Cadáver” através de testemunhas, sendo uma delas o Alfredo Gonçalves -, identificado pelos conterrâneos como o T’Alfredo do Barão, ou da Loja da Carvalha, que era pessoa muito idônea e respeitada entre todos. Bem o conhecemos a atirar os rebuçados às crianças que ali passavam para a catequese na Igreja ,dum grande frasco que tinha na sua loja.

Efetuados que foram no Corpo, várias incisões e cortes e retirados os projéteis das balas através de “sonda em arame”, iam as mesmas sendo numeradas à medida que eram retiradas do alojamento.  Verificados todos os órgãos vitais do Corpo, puderam concluir sem dúvidas que a causa de morte do Dr.º Augusto Malafaia foi provocada pelas balas disparadas “à queima roupa”, por Bettencout e Fernando Novais, sendo inequívoco e fatal o 1.º disparo efetuado por este último, em virtude da hemorragia interna que provocou ao perfurar o intestino. (Porque foi um ato, felizmente nunca presenciado nas terras de Serrazes, muitos quiseram assistir, nomeadamente o progenitor daquele que escreve estas linhas, que muito mais tarde lhe narrou esta e outras passagens, bem como o Sr. Maximiano, que foi um dos Jurados escolhido no Processo do Julgamento pelo Tribunal em S. Pedro Sul e ao tempo era o feitor da Casa do Secretário da Junta da Paróquia – José Viola – que foi pai do Padre Manuel Viola).

Findo este ato foi o corpo exumado em caixão de chumbo, envolvido numa urna de mogno e depositado no jazigo da Família Malafaia.

Com o enterro do Dr.º Augusto Malafaia, cai o pano sobre a tragédia de Serrazes, mas a sua Mãe, vertendo lágrimas em preces à Justiça Divina, pelo eterno descanso de seu filho, aguarda em prantos que a Justiça dos Homens se cumpra.

Não obstante se ter deixado de dançar e cantar por um período de tempo ainda longo, alguma gente do povo, sentindo o impulso de certa revolta pelo cometimento deste crime, iam gizando nos seus sentimentos, algumas quadras em rima:

• Amélia Malafaia,

Ó Fernando!

Ó Fernando! Freguesia de Serrazes,

Esteve quase a endoidecer,

Ó Fernando! Assassino!

Ficas-te na maior tristeza,

Por ver seu filho morto,

Vieste de caso pensado,

Mataram o Dr.º Augusto,

E não lhe poder valer.

A Serrazes matar teu Primo.

Que era o Pai da pobreza.

 

A Gente da Freguesia de Serrazes, sua Junta de Freguesia, em  ligação com a Família Malafaia ,com o apoio da Câmara Municipal de S.Pedro Sul,e demais forças vivas, ao fazerem hoje e aqui, em ato solene ,nesta  Casa das Quintãs, o assinalar do  primeiro centenário da morte do Dr.º Augusto Malafaia, fá-lo-ão  efetivamente no  contexto de  honrar a memória de um filho de Serrazes, mas essencialmente chamar à consciência de cada um, que temos que fazer coisas pelo melhor, pela vida que é o melhor que temos,  não por coisas fúteis e mais ainda para atentar e matar o nosso semelhante.

Comemorar-mos o primeiro Século do assassinato do Dr.º Augusto Malafaia será uma causa para além de mim, para além de ti, para além da gente da freguesia ou do  concelho, Distrito e até do País, já que  será um chamamento a todos,  para a raiz do imperativo do mandamento que ordena:- “NÃO MATARÁS O TEU PRÓXIMO E SÊ UM HOMEM DE PAZ”.

E aqui, importa ser interprete sobre o que já disse o Eloquente Chefe da Igreja Católica, Papa Francisco, que  há pouco esteve  entre os portugueses, também a celebrar o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, com que abrimos a Introdução das linhas destas páginas que aqui escrevemos:-“Queria fazer-me  interprete do grito que se eleva, com crescente angustia, em todos os cantos da terra, em todos os Povos, em cada coração da única grande família que é a Humanidade: o grito da Paz! É um grito que se diz com força: Queremos um Mundo de  Paz,!Nunca mais à guerra! A paz é um dom demasiado precioso que deve ser promovido e tutelado. Existe um Juízo de Deus e também um juízo da História sobre as nossas ações aos quais não se pode escapar! O uso da violência nunca conduz à paz! Guerra chama mais guerra, violência chama violência nos povos e entre os povos, mas sim a cultura do encontro, a cultura do diálogo! Este é o único caminho para a Paz!….

Então, seja cada um de “per si” obreiro e construtor da paz e concórdia no espaço singular ou plural das suas relações, podendo assim a Paz reinar entre as pessoas e ser uma realidade no mundo que habitamos.

 

Serrazes, 27 de Agosto de 2017

Agostinho da Silva Correia natural de Serrazes, S. Pedro do Sul

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