Agostinho da Silva

Consciência coletiva da gente de Serrazes um século após o assassinato do Dr.º Augusto Malafaia – Crime de Serrazes (parte 02)

Dr. Augusto Teles Malafaia

Serviu-nos esta pequena introdução (no número passado da Gazeta da Beira) para aqui trazer algumas considerações acerca do Crime de Serrazes, também ele levado a efeito há um século, na pessoa do Dr. Augusto Teles Malafaia do Solar Malafaia em Serrazes e que agora a gente da freguesia de Serrazes, quer num ato de cidadania, em 27/AGO/17, honrar e trazer à memória este seu filho, sendo momento alto o lançamento de Livro/Romance da autoria do Dr. António Breda, licenciado pela Faculdade de Letras de Coimbra. Quanto a nós, não iremos aqui fazer julgamentos infundados aos dois autores do crime, Fernando Novais (primo dos Malafaias) e J. Bettencourt, namorado de, Eugénia Novais (prima dos Malafaias), não obstante termos a nossa opinião formada sobre o assunto por muito lermos lido nos processos criminais e outras publicações que percorreram todos os patamares da Justiça portuguesa ao tempo, acabando os réus por serem condenados a pena de desterro, para Angola, pelo Supremo Tribunal de Justiça, onde também recolhemos dados.

Da certidão de óbito extraída no Registo de S. Pedro do Sul pode resumidamente ler-se: “Às vinte e três horas e trinta minutos do dia 26 de Julho de 1917 no lugar das Quintãs, freguesia de Serrazes do Concelho de S. Pedro do Sul faleceu assassinado a tiros de pistola um indivíduo do sexo masculino de nome Augusto Teles Malafaia, solteiro, proprietário e bacharel em direito, de trinta e três anos de idade, filho de Joaquim Teles Malafaia e de Amélia Augusta de Pina Falcão e residente no domicílio onde faleceu.

O local onde Fernando Novais e Bettencourt assassinaram o Dr. Augusto Malafaia, antes deste os ter cumprimentado e ter ofertado aos seus “algozes” um sumo das laranjas da sua quinta, foi no seu escritório, onde o sangue se manteve por muitos anos pelo desejo de sua extremosa mãe. E aqui, a quem faz a entrada na leitura destas linhas colocará de sufoco a questão do porquê deste assassinato!? Bettencourt, talvez o mais premeditado pensador do crime teria respondido a esta questão nas Instâncias dos Tribunais de julgamento, assim: – “não o digo, nem nunca o direi”. A defesa dos réus quis arranjar um suporte que garantisse a sua defesa! A conotação ao “Crime Passional”! Tínhamos saído há pouco tempo da Monarquia, onde o crime passional, gozava de atenuantes e menos censura social! Mas como era possível, se aquela a quem quiseram colocar como “dama a defender”, foi a primeira a pronunciar-se sobre o exemplar comportamento do malogrado Dr. Augusto Malafaia? Quem perfilha “duelos passionais” não é cobarde ao ponto de fugir com a arma do crime depois de abater o seu “par” e na fuga querer baiar com a mesma quem lhe vai no encalce, como aconteceu com os trabalhadores do solar Malafaia e mais gente de Serrazes, que sem temerem nem se acobardarem apanharam os assassinos nas vessadas do Prado e os trouxeram de volta ao local do crime! Ali mesmo os quiseram chacinar a golpes de machado! Era a consciência coletiva duma gente que presenciava no Dr. Augusto, pessoa de fazer o bem ao seu semelhante e que agora viam condenado a morrer por tão hediondo crime. Essencialmente sua irmã Eugénia Malafaia pede aos trabalhadores da Casa e a mais gente de Serrazes ali presente para que não fossem feitas mais mortes. “Mais sangue não”! Essa gente acatou o seu pedido e é essa mesma gente que armados de varapaus, forquilhas, e roçadouras que conduzem os criminosos até à cadeia de S. Pedro Sul, enquanto eram pedidos socorros para as enfermidades de Augusto Malafaia.

Ao tempo os meios de comunicação escasseavam, sendo o telegrama a forma mais rápida da transmissão das notícias. Porém, ultrapassadas algumas vicissitudes, num curto espaço de tempo compareceram médicos e mais gente ligados à medicina, no intuito de salvarem a vida ao malogrado Dr. Augusto Malafaia. Podem-se citar: O Dr. João Raposo de Magalhães, assistente da Faculdade de Medicina de Coimbra, o distinto operador ao tempo, Dr. Casimiro de Vasconcelos de Viseu, Dr. Lourenço Torres, Delegado de Saúde e Médico em S. Pedro Sul, o Dr Joaquim de Almeida e Costa, médico em Oliveira de Frades, com Solar em Serrazes – Casa de Fundo de Vila, o Dr. Eduardo de Vasconcelos, médico em Santa Cruz da Trapa e ainda o Farmacêutico, Joaquim Fernandes Teixeira, também ele de Santa Cruz da Trapa.

Da análise feita ao estado de saúde do ainda jovem Augusto Malafaia, na foto acima, e por todos conferenciada, sobressaindo o saber do operador Dr. Casimiro de Vasconcelos, é unanimemente opinado que “a vítima estava perdida e sem discrepância, reconhecendo a inutilidade da intervenção cirúrgica que serviria apenas para precipitar a morte.

(Continua próximo número)

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