A propósito de memórias… Com Ludovina Dias

Reflexões Partilhadas

 

  • Paula Jorge

Dou continuidade a esta rubrica, confessando ao amigo leitor que, não só gosto de escrever, como também aprecio ler o que se vai escrevendo com alguma crítica e criatividade. Deste modo, vou percorrendo as redes sociais e a comunicação social, em geral, para tentar, também eu, aumentar as perspetivas e visões de vida, que nos permitem melhorar enquanto seres humanos. Viver focados no nosso umbigo não nos deixa perceber que existem opiniões à nossa volta tão válidas e importantes quanto as nossas. Espero que estas reflexões possam ser do vosso agrado e contribuam para o vosso engrandecimento. Aguardo feedback dos leitores.

Apresento a escritora e poetisa Ludovina Dias, de Vouzela, residente em Lisboa, que no passado dia 10 de janeiro de 2023, no Facebook, escrevia assim:

“A transmissão oral dos factos, chegou até mim de maneira que é impossível não a passar ao papel para que nada se perca.

Mesmo acontecimentos de família, por vezes dolorosos, mas que fazem parte da família a que pertenço, ou mais ainda dos meus antepassados. Quando essa transmissão é feita a partir de um leito onde se está inerte, mas se tem a memória viva, e reviver o passado alivia o sofrimento de quem o quer transmitir, torna- se obrigatório fazer registo, ainda que haja sempre quem não concorde.

Os meus registos não envolvem nomes de irmãos ou sobrinhos a não ser que tenham dado autorização por escrito para que possa usar o seu nome e referência.

Os nomes são figurativos e abstractos ressalvando o nome dos meus pais porque esses são imortais para mim e não abdico de os referenciar seja onde for.

Quando se visita um familiar na casa dos 100 anos, e a sua memória necessita recordar os tempos dourados ou não, reportando ao momento em que nasceram os filhos e foram criados, há que registar e ajudar a recordar para lhe manter a mente activa, mesmo que o corpo já não obedeça.

As minhas narrativas são o mais fiéis possíveis, utilizando a linguagem dos intervenientes, de acordo com os usos costumes e linguajar da região do país de onde foram habitantes.

Se os meus amigos/as encontrarem erros ortográficos, agradeço que entrem em privado comigo para eu poder corrigir.

Eu não escrevo segundo o acordo ortográfico. Escrevo como aprendi à lareira com o meu pai (Augusto Dias) que me ensinou tudo o que sabia.

O linguajar de um povo, os hábitos e costumes, a gíria e o calão, são determinantes na sua identificação, para cada zona do país. Aí encontro a sua diversidade e riqueza.

O polimento académico seguindo as normas do Ministério da Educação e Cultura para as novas gerações…

São isso mesmo!!!!!

Para as novas gerações. Para a minha geração já pouco podem acrescentar.

A informática e o domínio das línguas universais para gente da minha idade já pouco vem adiantar.

No meu caso, só quero deixar o registo segundo o meu modo de ser, e de acordo com o que os meus pais me ensinaram.

Se escrevo um conto de ficção, posso alterar o registo sempre e em qualquer momento se assim o entender.

Mas se estou a descrever um facto real ou uma vivência, onde há vários intervenientes, mesmo que os nomes sejam fictícios, o acontecimento tem que ser narrado com as palavras expressa no modo de quem as disse.

Só contorno palavras obscenas.

Essas farei que sejam entendíveis, mas não as escrevo (nem relevo) porque elas existem, mas temos maneiras de pudor para não ferir ninguém.

Tendo em conta a minha vivência de quase 70 anos, depois de tudo o que já me fizeram passar, as situações que me criaram na vida, muitas por pura maldade, outras que a própria vida foi apresentando, hoje não estou condicionada a nada nem a ninguém.

A minha experiência é a minha força. Ninguém impõe regras a não ser (EU) a mim mesma. As responsabilidades ditam as regras, e se cada um for responsável o suficiente, para viver em verdade, sem camuflagens de tipo algum, sem andar em bicos de pés e nariz empinado, e reconhecerem que precisamos de tão pouco para ser felizes, seremos capazes de viver em paz com Deus e com o mundo. Assim faremos uma sociedade mais risonha, mais justa, mais livre, onde não se ande de costas voltadas uns com os outros.

O meu pai dizia: escreve filha, regista tudo que um dia vais surpreender-te a ti mesma, como foi possível naquela data ter acontecido aquilo.

Tu és rabina, pareces sempre cabeça na lua, e a contar as estrelas, mas burra não és (isso não) e o tempo há- de dar-me razão.

Por sua vez a mãe queixava-se: que inferno que nada está bem para ela, anda sempre a mudar tudo de lugar, até a ceitoira tem sítio certo naquele prego do alpendre. As capuchas têm lugar, as sacholas têm lugar; até as galinhas tem que estar onde ela quer. És muito organizada, desgraçado do rapaz que casar contigo também vai ter um lugar certo na casa, não pode andar por a casa toda.

Eram os desabafos de quem se via aflita, para lidar com uma adolescente determinada que sabia o que queria, e metia as mãos em qualquer trabalho, fosse em casa ou fosse no campo. Essa determinação sempre se manteve, e hoje permite com a minha idade, não depender de ninguém, ter objetivos, criar projetos e não deixar que o cérebro envelheça, mesmo o corpo não tendo a mesma mobilidade, as rugas marcam meu rosto, mas o querer é o meu amanhã.”

26/01/2023


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *