A Pérola Púrpura

Bruna Tavares; Maria Luís Rodrigues; Maria João Nogueira; Marcelo Pereira

Num tempo distante, quando a magia reinava o mundo, havia uma menina filha de feiticeiros. A sua vida nunca fora fácil e piorou quando a sua mãe morrera. Era uma tarde nublosa quando a menina a encontrou paralisada no tempo, morta. Foi então, nesse momento tão trágico, que a nossa história começou.

O desgosto apoderou-se da rapariga e a busca começou. Incapaz de aceitar o destino trágico dos mortais, a pequena feiticeira decidiu contorná-lo. A eternidade ocupou então os seus pensamentos. De dia, procurava incansavelmente um feitiço, uma poção, um encantamento, qualquer coisa para alcançar a vida eterna. De noite, testava as diferentes poções e lia incansavelmente cada palavra dos grandes livros de feitiçaria. Foi assim que a feiticeira passou os seus primeiros cinquenta anos de mortalidade, incessantemente procurando, procurando, procurando.

E então, num dia solarengo, a feiticeira encontrou o que tanto ansiava. No interior de um livro antigo de profecias estava um pequeno recorte. O papel já estava gasto e as suas palavras já não se notavam com clareza, mas, com um simples feitiço, a feiticeira conseguiu revelar o que lá se encontrava escrito. Com surpresa e ansiedade começou a lê-lo:

 

A profecia da Imortalidade

Será o terceiro neto, do terceiro filho, do mago mais poderoso que alguma vez o mundo mágico pôde encontrar que será a chave para a vida eterna e será a criatura ou feiticeiro que o descobrir e conseguir extrair essa eternidade do filho da magia que a alcançará”

 E assim a feiticeira começou uma nova procura. Percorreu caminhos gélidos e desertos escaldantes, encontrou ladrões, comerciantes e criaturas da noite. Leu livros de todos os cantos do mundo na esperança de que algum deles a guiasse até à chave da sua eternidade.

Sem conseguir descobrir o que procurava, a velha tornou-se fria e maldosa. A ânsia e a obsessão roubaram-lhe os sentimentos. Por cada caminho que percorria deixava para trás um rasto de infelicidade e destruição.

O seu destino guiou então a feiticeira a uma nova terra. Era uma aldeia de honestos agricultores e pescadores que viviam do solo fértil e do seu rio de águas límpidas. Nela o Sol parecia brilhar com mais intensidade, como que se estivesse sempre a sorrir, e a brisa era refrescante e levava consigo alegria e esperança. A terra chamava-se Sever do Vouga.

Porém, com a chegada da velha, tudo mudou. Os seus feitiços tornaram a terra triste e assombrosa. Os aldeões viviam com medo de sorrir e de ser felizes, pois essa felicidade atrairia a feiticeira que continuava na sua busca sem esperança.

Passaram anos de escuridão até que nasceu um menino. Uma força mágica diferente de todas as outras, que residia no recém-nascido, atraiu a velha. Os seus destinos cruzaram-se e a magia do mal e do bem começaram uma nova guerra.

O tempo passou e o menino cresceu no seio de uma família de pobres pescadores. Herdou os olhos castanhos da sua mãe e os lábios carnudos de seu pai. As suas habilidades, porém, de ninguém foram herdadas e, por isso, desde cedo que se tornou um filho do rio. Todas as noites ia para as suas margens apanhar peixes que serviriam para matar a fome que apertava nos tempos negros que corriam.

Numa tarde, quando os escassos raios de Sol já se punham, o rapaz estava a pescar, como sempre fazia, mas, desta vez, havia algo de diferente. No fundo do leito do rio nadava calmamente um peixe invulgar. Era uma lampreia, que, naquele rio, era abundante, mas proibida. Todos os pescadores que se aventurassem pescar uma destas criaturas marinhas seriam seriamente punidos. Contudo, aquela não era uma lampreia normal. Era como que se estivesse ali por alguma razão e a sua beleza era tão misteriosa que nem o pequeno pescador conseguiu resistir e capturá-la.

A lampreia pesava na sua mão e dentro do seu ventre brilhava algo. Cheio de curiosidade, o pequeno abriu-a e dentro do coração estava uma pérola púrpura. Nunca o mundo encontrara tão bela pedra preciosa. O rapaz sabia que, na palma da sua mão, estava algo mágico e único.

Enquanto admirava a sua descoberta, o menino ouviu um barulho estranho vindo dos arbustos na outra margem do rio. Sabia que tinha cometido um crime e, por isso, ficou assustado com o facto de alguém o poder ter visto. Cego de desespero, decidiu seguir o barulho.

Corria atrás de uma sombra na noite que desde logo percebeu ser uma criança. Não foi difícil cercá-la e em poucos minutos agarrava a fugitiva. Era uma menina da sua idade, com cabelos loiros e que, mesmo na noite, reluziam como fios de ouro.

A criança debatia-se e lutava contra os braços fortes que a rodeavam. Ofegante gritou:

– Largue-me pescador! Largue-me!

O rapaz, assustado com o facto de a poder estar a magoar, diminuiu a força com que a rodeava e implorou num sussurro:

– Não podes contar o que acabou de acontecer! Ninguém pode saber de nada! Jura que nada contarás!

– Não sei de que falas, pescador! – Respondeu a menina enquanto tentava mais uma vez libertar-se dos braços do seu captor.

– Tu viste-me a pescar aquela lampreia. – Esclareceu o rapaz. – E não podes contar nada sobre a pérola. Por favor!

Para o rapaz não era o facto de ter cometido um crime ao pescar a lampreia, mas sim a possibilidade de alguém descobrir que possuía aquela pérola púrpura que o assustava. Algo lhe dizia que aquilo deveria permanecer em segredo e faria tudo para que isso acontecesse.

– Fazemos disto o nosso segredo. – Acrescentou o rapaz. – E podes chamar-me Hugo.

A rapariga nada respondeu e então Hugo decidiu continuar:

– Podes dizer-me o teu nome! – Hugo sabia que ela estava assustada e por isso decidiu largá-la. – Não te farei mal.

Depois de alguns minutos de silêncio a rapariga respondeu:

O meu nome é Julieta.

-Julieta. – Repetiu Hugo, apreciando a doce sensação da palavra nos seus lábios.

 

E assim começou uma amizade que cresceu e cresceu. O tempo passou e a pérola púrpura encontrada naquela noite permaneceu em segredo. Era esse segredo que ligava a vida dos dois amigos.

Numa manhã chuvosa, em pleno mês de abril, Hugo e Julieta dirigiam-se para o pomar do Sr. Juiz, onde trabalhavam juntos todos os dias a plantar árvores de fruto.

– Hugo? – Perguntou de súbito Julieta enquanto regava as sementes que o rapaz ia plantando.

O rapaz gesticulou um “Sim?” e a menina continuou:

– O que vamos fazer com… aquilo que tu sabes?

– Com o quê, Julieta?

– Oh bem! Tu sabes. A pérola púrpura – murmurou Julieta para que ninguém conseguisse ouvir.

Hugo estremeceu quando a rapariga mencionou o seu segredo. “E se alguém ouviu?”, pensou o rapaz.

– Chhhh… Nada! Rigorosamente nada – Apressou-se um Hugo a dizer.

– Oh Hugo. Não sabemos nada sobre ela! E eu tenho pensado numa maneira de descobrirmos o que ela é realmente.

E então Julieta contou num sussurro ao amigo a ideia de plantar a pérola, como faziam com todas as outras sementes, pois isso poderia trazer algumas respostas.

– Na verdade, a pérola até se parece com uma semente. É tão pequenina… – acrescentou Julieta.

Hugo refletiu sobre o assunto e, passada uma meia hora e muitas sementes de laranjeira plantadas, disse:

– Está bem. Tentaremos e veremos se resulta.

Esperançosos, os dois amigos puseram mãos à obra e plantaram a pérola púrpura no cimo de uma colina. Todos os dias, depois do trabalho no campo e antes de Hugo ir pescar, o rapaz e a sua amiga, regavam com carinho a sua semente que a cada dia que passava parecia crescer. Não faltou muito até aparecer um pequeno rebento.

Entretanto, a feiticeira continuava a sua busca pela eternidade. Mesmo já tão velha ainda continuava a seguir Hugo procurando uma maneira de extrair a imortalidade que residia nele. Todos os feitiços lançados pareciam ripostar. Em tantos anos de magia nunca encontrara tão difícil enigma.

Já cansada, a velha feiticeira decidiu parar de atuar às escondidas e enfrentar o rapaz, na esperança de que ele se rendesse e lhe entregasse o que na profecia dizia que ele possuía.

O dia do confronto estava nublado e o cheiro a Natal chegava com as brisas geladas. Como sempre, Hugo e Julieta encontravam-se na colina a cuidar do grande arbusto que outrora fora uma pequena pérola púrpura do tamanho de uma semente.

A feiticeira materializou-se em frente dos dois amigos, que recuaram assustados com o inesperado acontecimento.

– Quem é a senhora? Que quer de nós? – Enfrentou Hugo, protegendo Julieta da velha feiticeira.

– Querido Hugo… há tantos anos que esperava por este momento. – Saudou a feiticeira aproximando-se do rapaz. – Agora, finalmente, dar-me-ás o que procuro e concretizarei aquilo que mais desejo.

– Não sei de que fala! Nada tenho para lhe dar!

Hugo não fazia ideia do que a estranha velha queria. Como poderia um rapaz tão pobre, que mal tinha para comer, possuir algo que uma velha quisesse? “Será que ela quer o nosso arbusto? Terá isto a ver com a pérola púrpura?”. Se assim fosse, Hugo não permitiria que uma velha roubasse o seu segredo e não permitiria que alguém destruísse o trabalho de uma amizade! Não desiludiria Julieta.

– Não tenho nada que lhe possa ser útil.- Acrescentou Hugo.

Impaciente e cansada de não obter o que desejava, a velha lançou um feitiço contra os dois amigos, mas, mesmo antes de ter acabado de pronunciar as palavras mágicas, algo muito estranho aconteceu.

O tempo pareceu congelar e, como que por magia, no arbusto nasceram milhares de pequenas pérolas púrpuras que levantaram voo em direção ao céu. De repente todas elas rebentaram deixando cair um pó muito fino de cor púrpura.

“Cheira a amizade e felicidade!”, pensou Hugo, maravilhado com o que acontecia. E era o que na verdade o pozinho representava. A pérola púrpura que Hugo encontrara numa noite dentro de uma linda lampreia e que fora plantada com a sua melhor amiga tinha sido transformada num arbusto que dava perquenos frutos que possuíam felicidade e amizade no seu interior.

Quando o pó caiu por terra, a amizade e felicidade reduziu a cinzas a velha triste e maldosa feiticeira. A terra voltou a ser feliz e o Sol, a partir daquele dia, voltou a brilhar como antes, sorrindo como nunca.

Desde então, as pequenas bagas púrpura tornaram-se abundantes naquela terra e as lampreias eram todos os dias procuradas, na ânsia de encontrar mais alguma daquelas pérolas.

Pessoas de todos os cantos do mundo vinham a Sever do Vouga, a terra que possuía as melhores bagas que se dizia saberem a felicidade e amizade e cujo nome era “mirtilos”.

 Redação Gazeta da Beira